A criadora de conteúdo estadunidense Courtney Henning Novak viralizou nas redes sociais há dois anos ao elogiar Memórias Póstumas de Brás Cubas e trouxe à tona um dos temas recorrentes do escritor carioca: o tempo não apenas passa, mas transforma.
Quando Machado de Assis morreu, em 29 de setembro de 1908, suas frases sobre o tempo e a memória já circulavam entre os leitores brasileiros. Mais de um século depois, o episódio mostrou que a literatura brasileira continua alcançando públicos distantes geograficamente. Machado construiu suas narrativas em torno desse dilema.
Seus personagens frequentemente enfrentam a impossibilidade de retornar ao que foram, de recuperar a juventude perdida ou de compreender completamente as próprias escolhas passadas. A ironia está em descobrir, durante a vida, que as lembranças que guardamos raramente coincidem com o que realmente vivemos.
A tentativa fracassada de restaurar o passado
Em Dom Casmurro, o narrador deseja recompor, na velhice, tudo aquilo que experimentou na adolescência. Sua confissão revela o fracasso dessa tentativa: não conseguiu restaurar as circunstâncias da vida nem recuperar quem era naquele período. O tempo arrastou consigo transformações que nenhum esforço de memória consegue reverter completamente.
Memórias Póstumas de Brás Cubas aprofunda essa reflexão com uma frase que atravessa as décadas: o tempo nos mata enquanto vivemos. A obra sugere que a luta contra a passagem dos anos termina sempre em derrota, ideia que atravessa o romance e que Courtney ajudou a amplificar ao compartilhá-la digitalmente.
O tempo como força que altera tudo
O escritor via o tempo como um roedor constante, que diminui as coisas, altera seu sentido e modifica até o aspecto com que as vemos. Nessa visão, a passagem dos anos não apenas destrói: ela reconfigura identidades, sentimentos e a própria forma como contamos nossas histórias. Pessoas que fomos desaparecem sob o peso das mudanças inevitáveis.
Machado, porém, reconhecia que essa transformação não é necessariamente um fracasso, mas um deslocamento. Viver diferente não significa viver pior; é apenas ser outra coisa. Essa nuance mostra como as pessoas lidam com suas próprias metamorfoses ao longo da existência.
O papel da imaginação na memória
Em Esaú e Jacó, o autor apresenta o tempo como um tecido invisível em que é possível bordar qualquer coisa — uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. A metáfora mostra como os detalhes importantes se perdem nos acontecimentos graves da vida, enquanto a imaginação preenche as lacunas com imagens que talvez nunca tenham existido.
Machado sugere que esse preenchimento criativo não apaga a narrativa da vida: ela persiste, ainda que reimaginada. A memória, portanto, não é um registro fiel do vivido, mas uma construção contínua em que o que foi se mistura com o que desejamos ter sido. Conhecer o próprio passado se torna sempre um ato de reinterpretação, não de simples recordação literal.

