Astrônomos detectaram pela primeira vez no espaço uma forma rara de metanol, conhecido como álcool de madeira, cuja abundância não pode ser explicada pelos modelos químicos atuais. A molécula foi identificada ao redor de uma estrela muito jovem e pode ajudar os cientistas a compreender como compostos orgânicos se formam antes do nascimento de planetas.
A descoberta foi realizada com o radiotelescópio ALMA, como parte do programa COMPASS, que investiga a composição química de sistemas estelares em formação. O composto encontrado é o metanol totalmente deuterado, identificado pela fórmula CDOD, no qual os átomos de hidrogênio foram substituídos por deutério, uma forma mais pesada desse elemento.
Molécula foi identificada ao redor de uma estrela jovem
A substância foi detectada na região da protoestrela IRAS4A2, localizada na nuvem molecular de Perseu, a aproximadamente mil anos-luz da Terra. Protoestrelas são objetos em formação que ainda acumulam matéria e estão envolvidos por gás e poeira, ambientes nos quais reações químicas podem produzir moléculas orgânicas complexas.
O estudo analisou 11 sistemas estelares jovens e identificou sinais inequívocos do metanol totalmente deuterado em IRAS4A2. A observação representa a primeira detecção dessa molécula no espaço interestelar e também o primeiro registro confirmado de uma molécula interestelar com quatro átomos de deutério.

Abundância é cerca de 100 vezes maior que a prevista
A principal surpresa apareceu quando os pesquisadores calcularam a quantidade da molécula presente na região observada. O metanol totalmente deuterado é aproximadamente 100 vezes mais abundante do que os modelos teóricos previam, uma diferença que as simulações químicas disponíveis ainda não conseguem reproduzir.
O resultado sugere que algum processo importante para a formação de moléculas com múltiplos átomos de deutério ainda não foi incorporado adequadamente aos modelos. Para os pesquisadores, compreender esse mecanismo será fundamental para explicar como a composição química evolui em ambientes interestelares frios, antes e durante a formação de estrelas e planetas.
Outras moléculas podem estar escondidas nos dados
A análise também revelou linhas espectrais cuja origem ainda não foi identificada. Os cientistas suspeitam que alguns desses sinais possam pertencer a outras variantes do metanol com diferentes quantidades de deutério, como CHDOD e CHDOD, mas essas possibilidades ainda precisam de confirmação.
Para investigar essas hipóteses, equipes de laboratório estão realizando medições espectroscópicas que permitem determinar como as moléculas interagem com a radiação e quais sinais produzem. Esses dados são necessários para comparar as assinaturas observadas pelo ALMA com as características específicas de cada composto.
A descoberta amplia o conhecimento sobre a diversidade química existente em regiões onde estrelas e planetas nascem. Ao revelar uma abundância inesperada de metanol totalmente deuterado, o estudo também mostra que ainda existem processos químicos importantes a esclarecer para explicar como moléculas orgânicas se desenvolvem no espaço.


