A cratera de 222 metros de diâmetro, formada na Lua na primavera de 2024, deixou marcas que vão além do buraco. À noite, o solo ao redor esfria de 8 a 9 graus Kelvin, criando uma zona fria que se estende por aproximadamente 7 quilômetros — uma área 30 vezes maior que a da própria cratera.
O impacto afrouxou o regolito — a camada de poeira e rocha fragmentada que cobre a Lua — de maneira uniforme nos dois tipos de terreno onde caiu: a planície vulcânica escura e o planalto mais claro. Esse afrouxamento reduz a capacidade do solo de reter o calor acumulado durante o dia lunar.
Como a cratera foi descoberta
Robert Wagner, especialista em processamento de imagens do Intuitive Machines, identificou a cratera em 24 de outubro de 2025 ao comparar fotos recentes da Lua com imagens antigas da câmera do Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA. Um ponto brilhante cercado por um halo escuro chamou sua atenção entre dezenas de imagens analisadas rotineiramente.
Esse é o maior impacto lunar documentado desde que o orbitador começou a operar, em 2009. A cratera anterior tinha 70 metros de diâmetro, e o novo impacto recebeu o nome McGetchin, em homenagem ao cientista lunar Tom McGetchin.
A cratera tem 43 metros de profundidade e formou-se após o impacto de um objeto do tamanho de um prédio de três a seis andares.

O resfriamento revelado pelo instrumento Diviner
Tyler Powell, do Laboratório de Física Aplicada da Johns Hopkins, liderou a equipe que mediu o padrão de resfriamento noturno usando o Diviner. Um instrumento que detecta calor a bordo do Lunar Reconnaissance Orbiter.
As primeiras leituras chegaram em 1º de novembro de 2025, aproximadamente um ano e meio após o impacto, quando todo o calor gerado pela colisão já havia dissipado.
Em 20 passagens noturnas até fevereiro de 2026, o Diviner registrou uma zona fria de cerca de 7 quilômetros de largura circundando a cratera. Com temperaturas de 14 a 16°F (8 a 9 K) mais frias que o solo adjacente à meia-noite. Faixas ainda mais frias se estendiam em várias direções a partir do impacto.
A mais clara apontava para o norte-nordeste — a mesma orientação de uma língua escura de detritos visível nas imagens de câmera.
Por que o solo solto muda a temperatura
A Lua é coberta por regolito, e seu comportamento térmico depende do grau de compactação. O regolito denso retém durante a noite o calor acumulado no dia lunar, enquanto o regolito solto perde esse calor mais rapidamente para o espaço. Quando um impacto afroxa o solo uniformemente numa área grande, cria um padrão de resfriamento noturno perceptível.
Astronautas da missão Apollo 16 pousaram numa zona fria ao redor da cratera South Ray e notaram que seus passos afundavam profundamente naquele terreno afrouxado, muito mais que em outras áreas onde exploraram. A descoberta oferece aos pesquisadores uma oportunidade rara de estudar como impactos transformam a superfície lunar em tempo real.
Frequência dos impactos e padrões térmicos
Pesquisadores estimam que uma colisão capaz de criar uma cratera deste tamanho ocorre na Lua aproximadamente a cada 132 anos em média. Todas as crateras com mais de 30 metros de largura descobertas desde 2009 apresentam zonas frias próprias.
O Diviner detectou solo mais áspero numa faixa de cerca de 14 quilômetros ao redor do impacto, com mudanças mais sutis na reflexão da luz até 100 quilômetros de distância. Essas zonas frias tendem a desaparecer gradualmente entre 100 mil e 2 milhões de anos.
O Diviner continua monitorando McGetchin, e como a zona fria desaparece ainda é parcialmente desconhecido. A equipe identificou três possibilidades: detritos lançados poderiam desencadear um fluxo de grãos. Uma onda de gás do impacto poderia afrouxar o solo, ou o tremor poderia levantar e dispersar a camada superior.
A rapidez com que a zona fria desaparece deve ajudar a datar alguns dos impactos mais recentes da Lua. Para entender completamente como o solo se afrouxa a quilômetros de distância do impacto.
Serão necessárias medições mais profundas que as do Diviner, testes laboratoriais melhores com solo lunar e medições diretas de futuras missões tripuladas, e o estudo completo foi publicado na revista Science Advances.
Por que o solo afrouxado esfria mais rapidamente à noite
O regolito lunar funciona como um isolante térmico natural quando está compactado. Durante o dia lunar, o solo denso absorve calor do Sol e o retém através de sua estrutura compacta. À noite, esse calor fica armazenado e é liberado lentamente para o espaço, mantendo a temperatura relativamente estável.
Quando um impacto afrouxa o regolito, desfaz essa estrutura compacta e cria espaços vazios entre as partículas. Esses espaços permitem que o calor acumulado escape muito mais rapidamente para o vácuo do espaço durante a noite lunar, fazendo a temperatura cair drasticamente — exatamente como um edifício bem isolado mantém o calor, enquanto um edifício com "furos" perde calor rápido.
Segundo um estudo publicado na revista Science advances em 2026, comparando imagens mensais da Lua, cientistas detectaram uma nova cratera de 222 metros de diâmetro que se formou em 2024, revelando que impactos desta magnitude ocorrem aproximadamente uma vez a cada 132 anos. Veja o estudo.


