Batizar um filho recém-nascido com o mesmo nome do pai ou da mãe é uma prática difundida em diferentes culturas, geralmente associada à vontade de perpetuar a história familiar. No entanto, especialistas em psicologia apontam que essa decisão costuma carregar também desejos e frustrações pessoais de quem escolhe o nome.
Ao repetir o próprio nome no filho, o adulto projeta nele a chance de corrigir os próprios erros e de alcançar o que não conseguiu em sua trajetória, segundo a psicóloga Mayte Helguera. A criança pode crescer com a missão implícita de corrigir falhas alheias. Embora nasça de boa intenção, essa expectativa transforma a infância em um projeto de reparação.
O peso de uma identidade herdada
Quando cresce sob esse peso simbólico, a criança corre o risco de deixar de lado os próprios interesses para satisfazer um roteiro que não escreveu. A busca por aprovação acaba pesando mais do que a descoberta de vocações e gostos próprios. Com isso, a construção de uma trajetória individual fica em segundo plano.
O psicólogo Juan Eduardo Tesone, autor de um livro sobre os rastros do nome próprio na construção da identidade, segundo o que disse ao O Globo, defende que o nome funciona como uma marca simbólica de identidade. Por isso, quando pai e filho compartilham o mesmo nome, os limites entre as duas identidades podem se misturar, gerando dificuldade para a criança reconhecer quem ela é para além da figura do adulto.
Essa sobreposição de papéis costuma gerar frustração quando as expectativas depositadas não se concretizam como esperado, e também pode afetar a autoestima durante os anos formativos.

Caminhos para preservar a individualidade
Especialistas em psicologia recomendam evitar repetir o nome dos pais. A escolha pode ajudar o desenvolvimento emocional a seguir sem comparações constantes entre pais e filhos.
Dar espaço para que a criança construa uma trajetória distinta, sem carregar o peso simbólico do mesmo nome, favorece uma identidade mais sólida desde os primeiros anos de vida.
Quando nomes parecidos não prejudicam a individualidade
Escolher nomes com a mesma inicial ou que rimam entre irmãos não prejudica automaticamente a construção da identidade das crianças. Especialistas apontam que a semelhança entre os nomes, por si só, não determina como os pais enxergam ou tratam a individualidade de cada filho.
Uma família pode escolher nomes muito parecidos e, ao mesmo tempo, reconhecer profundamente as diferenças entre os irmãos. O que importa é como a família se relaciona: se a criança é frequentemente comparada aos irmãos ou tratada como se fosse igual a eles. Ou se, apesar dos nomes parecidos, cada filho recebe espaço para desenvolver a própria personalidade.
A confusão ocasional de chamar uma criança pelo nome do irmão é apenas uma falha de linguagem e não indica, necessariamente, que os pais não reconheçam a identidade única de cada filho. Outros fatores, como gênero, aparência ou idade semelhante, podem contribuir mais para essas confusões do que o nome em si.

