Nobel de Literatura

Pablo Neruda, Nobel de Literatura: "Quem não brinca perdeu a criança que vivia dentro de si"

Reflexão sobre a infância segue fazendo muito sentido até hoje

Há décadas repetida em cartazes escolares e em publicações nas redes sociais, uma frase sobre a infância costuma perder pelo caminho justo o pedaço que lhe dá sentido pleno. Além de afirmar que a criança que não brinca não é criança, Neruda foi adiante e alertou que, ao deixar de brincar, o adulto perde definitivamente a criança que um dia habitou nele.

A ideia está registrada no livro de memórias do poeta chileno, obra que ele não chegou a ver impressa. A publicação só aconteceu em 1974, quando sua viúva, Matilde Urrutia, cuidou da edição cerca de um ano depois da morte dele. É ali que reside a verdadeira advertência — transformada em clichê justamente por estar truncada.

Quem foi o homem por trás da ideia

Nascido em Parral em 12 de julho de 1904, Neruda morreu em Santiago em 23 de setembro de 1973. Dois anos antes de morrer, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1971, reconhecimento máximo concedido pela Academia por uma poesia descrita como força elementar capaz de transformar o destino de um continente inteiro.

Neruda tratava a construção de suas casas como uma grande brincadeira, passava o dia inteiro entretido nelas e as enchia de objetos colecionados das formas mais inusitadas. Ele não tratava o brincar como uma ideia distante: falava de algo que praticava no dia a dia, e não de um conselho que dava sem vivenciar.

A parte que desaparece quando a frase viaja

A versão conhecida termina simples: a criança que não brinca não é criança de verdade. Mas Neruda avançou além dessa constatação. Seu texto segue adiante com o aviso incômodo: quem deixa de lado a brincadeira ao atingir a vida adulta perde para sempre a criança que carregava por dentro.

Essa continuação reescreve o peso da ideia inteira: deixa de ser uma tristeza pela infância alheia e se transforma num espelho. Cada adulto que a lê se confronta com aquilo que deixou escapar.

A observação melancólica ganha o peso de uma advertência sobre perdas pessoais e invisíveis — perdas que nenhuma lei protege nem obriga a reparar após os 18 anos.

O momento em que brincar virou direito formal

Décadas depois que Neruda escreveu essas memórias, a Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989 formalizou o que o poeta já havia intuído. O artigo 31 do documento reconhece explicitamente o direito infantil ao descanso, ao lazer e ao tempo de brincadeira apropriado para cada faixa etária.

O tratado não se limitou a garantias vagas, e ao entrar em vigor, em setembro de 1990, cada país signatário assumiu compromissos concretos: reconhecer o descanso e a brincadeira adequada. Permitir a participação livre nas artes e na vida cultural, criar oportunidades recreativas justas e ampliar esses princípios entre adultos e crianças.

Neruda havia defendido com sua própria vida o que a lei internacional só viria a reconhecer depois.

O que ocorre quando a brincadeira fica para trás

A proteção legal do tratado termina aos 18 anos, idade que marca o fim formal da infância segundo a Convenção. Depois disso, nenhuma lei internacional responde pelo direito de cada pessoa brincar.

É justamente nesse ponto que a frase de Neruda ganha seu peso máximo: ela fala de quem já não tem proteção legal, mas ainda carrega essa necessidade intacta dentro de si.

O poeta completou suas memórias num período de doença física e turbulência política no Chile. Mesmo enfrentando essas circunstâncias brutais, insistiu em defender o espanto e a brincadeira como partes essenciais de quem ele era até o último dia. Essa escolha, feita no fim da vida, dá à sua frase um testemunho que transcende a simples filosofia.

Gestos pequenos para reconectar com essa criança

Retomar a brincadeira no cotidiano não exige transformações radicais, e separar um período da semana sem obrigação de produtividade já abre essa porta.

Tentar uma habilidade nova apenas pelo prazer de errar nos primeiros passos pode ter o mesmo efeito. O mesmo vale para atender ao chamado de uma criança para brincar sem pressa, deixando qualquer tela de lado por alguns minutos e escolhendo uma atividade que envolva as mãos.

Longa distância

Raias gigantes de 3 metros percorrem a nado 21.815 km, mais da metade da circunferência da Terra

Foi liderado um estudo de sete anos para chegar a essa conclusão

25/10/2026 09h17

Foto: troy carroll/Pexels

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Raias-manta gigantes deixam suas águas de origem, percorrem milhares de quilômetros pelo oceano e retornam aos recifes onde cresceram. Um estudo de sete anos, liderado por Jeffry Madrigal-Mesén, de Mantas Costa Rica, com pesquisadores do grupo de conservação marinha CREMA e da rede de pesquisa MigraMar.

Rastreou o comportamento desses animais ao longo da costa do Pacífico na América Central e revelou padrões migratórios distintos entre adultos e jovens.

Os pesquisadores descobriram que os filhotes permanecem em águas rasas próximas à costa, enquanto os adultos cruzam fronteiras de cinco países em jornadas oceânicas de longa distância. Juntos, os 12 animais marcados com transmissores percorreram 21.815 quilômetros — mais da metade da circunferência da Terra — durante o período de rastreamento.

Jovens raias ficam perto da Costa

Entre 2018 e 2025, a equipe de pesquisa fixou transmissores acústicos em 59 raias-manta. Esses pequenos aparelhos enviam sinais para receptores instalados em estações de limpeza nos recifes costeiros e ao redor da Ilha do Coco, a 532 quilômetros da costa.

Dois dos animais rastreados por satélite eram filhotes, com aproximadamente 3 metros de largura. Um foi rastreado por 108 dias e o outro por 64 dias. Nenhum deles saiu das águas da Costa Rica, e apesar de terem nadado longas distâncias — mais de 2 mil quilômetros cada um —, ambos permaneceram na plataforma continental, perto de casa.

Os mesmos filhotes reapareceram nos locais onde foram inicialmente marcados. Em agosto do ano passado, foram identificados por fotografias pela terceira vez consecutiva.

Adultos cruzam fronteiras entre países

Nove das 12 raias-manta adultas marcadas com transmissores de satélite migraram para o norte, entrando nas águas da Nicarágua, de El Salvador, de Honduras e da Guatemala, além de alcançarem o alto-mar. Esses animais cobriram vastos territórios em seus deslocamentos migratórios, o que demonstra sua capacidade de navegação por longas distâncias.

Uma raia adulta marcada ao sul da Ilha do Coco cruzou o oceano até a plataforma continental em cinco dias, percorrendo aproximadamente 70 quilômetros diários.

Depois de chegar à costa, o animal seguiu para o norte, ultrapassou a fronteira da Nicarágua e perdeu o sinal após se deslocar 1.832 quilômetros do ponto inicial.

 

Estratégia de sobrevivência e alimentação

O tamanho do corpo explica essas diferenças de comportamento entre jovens e adultos. Raias-manta adultas, que podem atingir 5 metros de largura, conseguem mergulhar profundamente para evitar predadores como tubarões e orcas, além de contar com seu tamanho como proteção.

Filhotes, ao contrário, ainda não possuem essas defesas e dependem das águas rasas costeiras, onde predadores grandes não conseguem caçar com eficiência. Segundo pesquisadores ligados ao Earth.com, raias adultas trocam segurança por alimento durante suas migrações. Enquanto viajam entre países e cruzam oceanos abertos, acessam novas fontes de alimento, comportamento impossível para os filhotes que permanecem protegidos perto da costa.

Retorno aos recifes de origem

Apesar de suas longas jornadas, as raias-manta adultas mantêm vínculos com seus territórios de origem. A equipe de pesquisa identificou um macho chamado Mickey Mouse pela marca característica em seu ventre. Em apenas quatro dias da primavera de 2020, este animal foi detectado por receptores acústicos, quase todos concentrados em um recife costeiro chamado El Secreto.

Esse padrão sugere que as raias-manta adultas, embora sejam viajantes oceânicas notáveis, mantêm conexões duradouras com os habitats costeiros onde vivem. O retorno recorrente aos mesmos recifes indica que esses locais continuam sendo importantes, talvez como áreas de alimentação, reprodução ou descanso durante suas jornadas migratórias.

Por que os recifes costeiros são "estações de limpeza" e não apenas refúgio

Os recifes onde as raias-manta se reúnem, como El Secreto e Cabo Blanco, funcionam como estações de limpeza: pequenos peixes removem parasitas e pele morta dos corpos das raias. Esses locais são frequentados principalmente durante o dia, quando os peixes limpadores estão ativos.

Mas a importância vai além da higiene, e a pesquisa revela que esses recifes atuam como centros de interação social, onde as raias adultas se encontram antes de partir para migrações longas.

O acasalamento e a interação social também podem ocorrer ali, funções que ajudam a explicar por que os animais retornam repetidamente aos mesmos locais, mesmo após percorrer milhares de quilômetros pelo oceano.

Quando a proteção legal das raias-manta não funciona

As reservas marinhas da Costa Rica — áreas onde nenhuma pesca é permitida — protegem as raias quando elas estão nos recifes costeiros e na Ilha do Coco. Essa proteção, porém, desaparece quando os adultos migram para o alto-mar. Os dados mostram que zero por cento das jornadas oceânicas das raias ocorre dentro de áreas marinhas protegidas.

Durante essas viagens, os animais compartilham águas internacionais com frotas de pesca industrial que usam redes de cerco para atum e espinhéis e ficam vulneráveis a capturas acidentais. A proteção legal, portanto, só existe enquanto as raias permanecem em territórios nacionais específicos.

Ciência

Satélite russo se aproxima de outra espaçonave sem autorização e pode ter feito história

Precedente inédito no espaço

25/10/2026 08h55

Viasat lança no Brasil serviço de conexão direta do satélite ao celular

Viasat lança no Brasil serviço de conexão direta do satélite ao celular Divulgação

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Um satélite russo se aproximou de um equipamento comercial de observação da Terra operado pela empresa finlandesa-americana Iceye, em um movimento que pode ter estabelecido um precedente inédito no espaço.

O satélite Kosmos 2612 reduziu de forma abrupta sua distância até o Iceye-X36 em 15 de outubro, de 350 quilômetros para menos de 5 quilômetros já na madrugada do dia seguinte.

A aproximação chamou atenção porque o padrão observado é compatível com operações de encontro e proximidade — manobras feitas de propósito em órbita para reduzir a distância entre dois objetos. O episódio se diferencia porque não há indicação de que a empresa responsável pelo satélite comercial tivesse autorizado a manobra, segundo especialistas e empresas de monitoramento orbital.

A natureza da aproximação inédita

Jonathan McDowell, astrofísico e analista espacial, disse em uma publicação nas redes sociais que o caso pode representar a primeira vez que uma espaçonave se aproximou de outra sem consentimento prévio. A LeoLabs, empresa que rastreia lixo espacial e tráfego orbital, confirmou em comunicado que o comportamento exige acompanhamento contínuo.

Segundo a LeoLabs, o Kosmos 2.612 se aproximou a cerca de 500 metros do Iceye-X36 durante o evento, embora reconheça incerteza nas estimativas exatas de separação devido às manobras repetidas e à geometria de rastreamento complexa.

Depois da aproximação inicial, o satélite russo passou o fim de semana fazendo pequenos ajustes para manter uma posição relativa próxima ao outro equipamento, padrão que persiste sob observação.

O valor do satélite visado

O Iceye-X36 utiliza tecnologia de radar de abertura sintética, capaz de gerar imagens de alta resolução dia e noite, independentemente das condições climáticas.

Essa capacidade de monitoramento torna o satélite valioso para serviços de segurança nacional. Por isso, a constelação da Iceye presta apoio às Forças Armadas da Ucrânia com consciência situacional em prazos táticos, conforme acordo divulgado pela empresa em janeiro.

A Iceye informou que está ciente da aproximação e a monitora de perto. A empresa também afirmou que sua arquitetura de constelação foi pensada para resistir a esse tipo de evento sem perder continuidade. Um porta-voz da companhia não detalhou se o Iceye-X36 foi usado especificamente em operações militares ucranianas e não forneceu informações adicionais sobre o episódio.

Sinais anteriores e possíveis intenções

O episódio não teria sido o primeiro indício de interesse de espaçonaves militares russas pelos satélites da Iceye. Um relatório do Royal United Services Institute, instituto de pesquisa em defesa e segurança do Reino Unido, apontou em junho que quatro satélites controlados pela Rússia ajustaram suas órbitas em maio para se alinhar com o Iceye-X36.

As manobras demonstradas pelo Kosmos 2.612 poderiam ter servido para inspecionar, caracterizar, seguir ou potencialmente interferir com a espaçonave comercial. Potenciais objetivos incluem intimidação, interferência nas operações por "bloqueio" — técnica que usa ruído de rádio para impedir comunicação entre satélites — ou preparação para futuras operações contra-espaciais.

O general francês Jérôme Bellanger informou que a Rússia está expandindo seu programa de satélites caçadores co-orbitais, alguns com cargas secundárias que podem ser ejetadas.

O risco de escalada no espaço

O Center for Strategic & International Studies alertou que a atividade pode indicar o uso de armamento espacial cinético ou não cinético, ou terminar em colisão deliberada. A CNN Brasil entrou em contato com o Ministério da Defesa russo para comentar o episódio, mas não obteve resposta no momento da publicação.

Embora as capacidades demonstradas pelo Kosmos 2.612 não estabeleçam intenção hostil de forma definitiva, conforme alertou a LeoLabs, o leque de opções para proteção do satélite Iceye permanece atualmente limitado. O caso deve seguir sob observação contínua de empresas de monitoramento orbital enquanto autoridades internacionais avaliam as implicações dessa aproximação inédita para a segurança do tráfego espacial.

Como um satélite se posiciona para permanecer próximo a outro em órbita

O satélite Kosmos 2612 precisou primeiro sincronizar sua altitude com o alvo por meio de manobras com os motores. Segundo dados de monitoramento, ele alterou sua rota em 30 de setembro para chegar a uma órbita coplanar — ou seja, no mesmo plano — à do Iceye-X36.

Nessa órbita, manter-se próximo requer apenas pequenos ajustes periódicos e consome pouco combustível adicional. Isso contrasta com as mudanças orbitais iniciais, que exigem quantidade significativa de energia.

Uma vez em órbita coplanar, o satélite russo conseguiu reduzir a separação de 475 quilômetros para poucos metros em questão de dias. Esse posicionamento estratégico permite ao satélite perseguidor deslocar-se rapidamente com despesa mínima de combustível caso necessite executar operações adicionais, tornando a manobra de aproximação uma preparação eficiente para outras ações em órbita.

Por que a Rússia se aproximaria de um satélite comercial da Iceye?

As razões exatas permanecem incertas, mas especialistas listam vários objetivos potenciais. O satélite Iceye-X36 é valioso porque usa tecnologia de radar de abertura sintética capaz de gerar imagens de alta resolução dia e noite. Independentemente do clima — exatamente o tipo de capacidade que interessa a operações militares.

A constelação da Iceye tem sido usada para fornecer inteligência às Forças Armadas da Ucrânia em operações em tempo real. A aproximação russa poderia servir para inspecionar o equipamento, caracterizar suas capacidades, segui-lo, intimidar a empresa, interferir em suas comunicações através de "bloqueio" (ruído de rádio que interrompe sinais) ou simplesmente preparar-se para futuras operações contra-espaciais mais agressivas.

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