Uma análise de 93 países encontrou uma associação entre a presença de gatos, a exposição ao parasita Toxoplasma gondii e a felicidade nacional. Embora a maioria das pessoas associe o bem-estar a fatores econômicos e de saúde, os pesquisadores identificaram padrões que relacionam animais de estimação e infecções parasitárias à satisfação dos cidadãos.
A análise partiu de uma observação simples: se gatos reduzem a solidão e o estresse dos indivíduos, nações com mais felinos também poderiam ter populações mais felizes. Ao mesmo tempo, como o Toxoplasma gondii usa gatos para se reproduzir e se dissemina pelo ambiente, a infecção poderia seguir na direção oposta à felicidade.
Gatos e parasitas na vida das nações
Trabalhos anteriores já associavam animais de estimação à redução da solidão, ao menor estresse e à melhora do humor. Os gatos, contudo, têm um papel específico no ciclo de vida do Toxoplasma gondii: o parasita se multiplica nesses animais e chega ao ambiente pelas fezes.
Humanos podem se infectar ao consumir carne contaminada mal cozida ou pelo contato com fezes de gatos.
Na maioria das pessoas saudáveis, a infecção não provoca sintomas óbvios. Estudos anteriores, porém, associaram a exposição ao parasita a mudanças no humor, no comportamento e na saúde mental. A análise investigou, então, se nações com mais gatos poderiam ser mais felizes, enquanto a exposição ao parasita seguiria na direção oposta.
O que a comparação entre 93 Países revelou
Os pesquisadores cruzaram dados de 93 nações sobre felicidade, densidade de gatos, renda, PIB per capita, gastos com saúde e exposição ao Toxoplasma gondii. Para comparar países de tamanhos diferentes, calcularam o número de gatos por 10 mil pessoas. Os escores de felicidade vieram de médias referentes ao período de 2022 a 2024.
A exposição ao parasita foi medida por meio de anticorpos identificados em gestantes, um indicador indireto disponível de forma consistente nos 93 países estudados. Os pesquisadores usaram anticorpos IgM para identificar infecções recentes e anticorpos IgG para indicar infecções passadas, que podem resultar em uma infecção mais duradoura e inativa.
Mais gatos, maior felicidade; mais parasita, menos
Os resultados apontaram em duas direções opostas: nações com mais gatos por habitante tenderam a apresentar níveis mais altos de felicidade. Já os países com maior exposição ao Toxoplasma gondii tenderam a apresentar níveis mais baixos de satisfação.
A equipe, liderada por pesquisadores do México e de instituições internacionais, ressaltou que esses padrões aparecem no nível dos países e não comprovam o que ocorre com proprietários individuais de gatos.
"O que descobrimos é que Países com mais gatos tenderam a relatar maiores níveis de felicidade, enquanto Países com maior exposição ao Toxoplasma gondii tenderam a relatar menores níveis de felicidade," afirmaram os autores em comunicação à Earth. "Claro, essas são associações no nível de país, então não podemos dizer que ter mais gatos deixa as pessoas mais felizes ou que Toxoplasma deixa as pessoas menos felizes, mas os padrões são interessantes o suficiente para merecer investigação adicional."
Riqueza como fator explicativo
A análise também encontrou uma relação entre a presença de gatos e a riqueza: países com mais gatos por pessoa tenderam a ter renda mais alta. Maior PIB per capita e gastos maiores com saúde, e nações mais ricas também apresentaram menor exposição ao Toxoplasma gondii.
Esse achado sugere que a riqueza nacional pode explicar parte da relação observada. Tanto pela capacidade de manter mais animais de estimação quanto pelas melhores condições sanitárias, que reduzem a transmissão do parasita.
Segundo os pesquisadores, fatores econômicos explicaram 47% das variações observadas na felicidade entre os países. A densidade de gatos continuou associada de forma independente à felicidade nacional mesmo depois do controle pela riqueza. A investigação continua para entender como economia, saúde, animais de estimação e infecções parasitárias se relacionam com o bem-estar coletivo.



