Reflexão

Robin Williams: 'Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão'

A origem da fala está ligada à reputação de Eça de Queiroz.

Uma frase que circula há anos nas redes sociais atribui a Eça de Queiroz uma comparação mordaz entre políticos e fraldas. O escritor português teria dito que ambos "Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.". No entanto, essa citação é falsa e não tem sustentação factual.

A origem do boato está ligada à reputação de Eça como crítico da política portuguesa. Entre 1.871 e 1.872, ele e Ramalho Ortigão publicaram As Farpas, uma série de crónicas que atacavam a era oitocentista sob vários ângulos — política, religião e sociedade.

Essas publicações, depois reunidas em livro, alcançaram grande circulação e mantêm leitores até hoje precisamente por sua irreverência contra a classe dirigente.

Não é de Eça, mas circula mesmo assim

Plataformas de verificação de fatos já investigaram essa atribuição, e a citação não pertence ao autor de Os Maias. Ela também foi creditada a Mark Twain e Benjamin Franklin, além de vários outros escritores, músicos e atores — um padrão típico de frases órfãs que ganham corpo nas redes sociais.

O primeiro lugar onde essa frase aparece documentado é no filme "O Homem do Ano", em que o ator Robin Williams a profere em seu discurso de aceitação do prêmio: "Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão."

Por que Eça vira referência

A confusão não surge por acaso. Pesquisadores tentaram rastrear o surgimento dessa citação e encontraram pistas apenas a partir dos anos 80 e 90, sem qualquer evidência de que Twain, Franklin ou Queiroz tenham proferido a frase.

O que explica a persistência da atribuição a Eça é a sintonia entre o tom da frase e a obra do escritor português. Conforme avaliou a socióloga Maria Filomena Mónica, As Farpas nasceram "da raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851". Essa frustração com a política ecoa precisamente quando há descontentamento generalizado com dirigentes, tornando plausível aos olhos dos leitores que Eça tenha dito algo assim.

Mensagens desse tipo são compartilhadas justamente quando a população sente raiva e despeito em relação à classe política, criando um ambiente perfeito para que atribuições falsas se propaguem. Citações órfãs deste género circulam especialmente quando há insatisfação generalizada da população em relação aos dirigentes do país.

Se Robin Williams disse a frase no cinema, então não é totalmente falsa?

Não é bem assim. Robin Williams pronunciou a frase no filme "O Homem do Ano", mas até ele deixou claro no diálogo que se tratava de uma "Lembrem-se disto, senhoras e senhores. É uma frase antiga, anónima – que os políticos são muito parecidos a fraldas. Devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão. Lembrem-se disso da próxima vez que forem votar.". Ou seja, o ator não estava reivindicando autoria — estava apenas citando algo que circulava sem dono definido. O problema surge quando essa frase de origem desconhecida é posteriormente atribuída a Eça de Queiroz, Mark Twain ou Benjamin Franklin, criando uma falsa impressão de que um desses autores a proferiu em algum momento de suas vidas. A fonte real é desconhecida; o filme é apenas um dos lugares onde ela apareceu documentada.

Citação histórica

Jorge Luis Borges: "Não odeies o teu inimigo, teu ódio nunca será melhor do que a tua paz"

A máxima resume o custo psicológico do ressentimento.

30/10/2026 14h18

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A reflexão de que quem nutre ódio por alguém se transforma em prisioneiro desse outro circula há anos atribuída ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Quanto mais intensa a hostilidade, mais o suposto inimigo passa a governar o pensamento e as reações de quem o detesta.

A máxima resume o custo psicológico do ressentimento, e ao contrário de uma discordância ou aversão momentânea, o ódio persistente se instala na consciência e molda o cotidiano. Cada gesto ou palavra do outro passa a funcionar como gatilho para emoções intensas.

O preço da hostilidade estruturada

Quando alguém dedica energia mental ao ódio, a pessoa odiada ocupa espaço desproporcional em sua vida. Cada ação do suposto adversário ganha peso exagerado, como se um fio invisível ligasse os dois. Nesse estado, quem odeia não age conforme a própria vontade, mas reage ao que o outro provoca.

Essa dinâmica enfraquece a autonomia: as decisões passam a girar em torno da hostilidade, não da liberdade de escolha. A pessoa se torna dependente das atitudes alheias para definir o humor, as reações e até os planos.

A paz como ato de força interior

Manter a lucidez emocional exige renunciar ao rancor, e a paz interior não é fraqueza nem indiferença, mas a recusa em permitir que alguém domine o estado de espírito. Quando a pessoa preserva a calma diante de quem a ofendeu, recupera o controle sobre as próprias emoções e escolhas.

O ódio, por mais justificado que pareça a quem o sente, nunca restaura o que foi perdido. Apenas consome quem o carrega, e a paz preserva a clareza necessária para agir de acordo com os próprios valores, não com as provocações alheias.

A obra de Borges e suas explorações do paradoxo

Ao longo da carreira, Borges investigou paradoxos desse tipo em contos que misturam filosofia, fantasia e ficção científica. Seus textos apresentam mundos em que a lógica se inverte e as verdades habituais desmoronam.

O escritor argentino recriou o universo literário como um espaço de incerteza e ambiguidade. Em obras como "A Biblioteca de Babel", bibliotecários exploram corredores infinitos em busca de respostas e descobrem que o conhecimento total não diminui a confusão, mas a amplia.

Símbolos recorrentes na narrativa borgesiana

Em suas histórias, os labirintos representam um cosmos em que o sentido se esconde e o ser humano perambula sem saber ao certo qual é sua posição. As bibliotecas guardam toda a informação imaginável e toda ficção possível, mas nenhuma resolve o enigma de quem procura.

Borges também desafiava a percepção linear do tempo ao sugerir realidades paralelas, eternidades cíclicas e destinos alternativos. Espelhos e duplos aparecem em seus contos como metáforas de uma identidade fragmentada: a pessoa não é apenas uma, mas reúne múltiplas versões de si refletidas em superfícies que distorcem.

A ficção como ferramenta filosófica

O autor misturava intencionalmente fatos reais e invenções — referências históricas verdadeiras ao lado de livros e autores fictícios. Com isso, borrava a fronteira entre o que existe e o que nunca existiu e levava o leitor a questionar cada afirmação.

Essa ambiguidade sugere que, em um universo de incerteza e labirintos mentais, render-se à hostilidade é aceitar a prisão de uma ilusão. A reflexão sobre ódio e paz atravessa a obra de Borges e indica que a liberdade começa quando a pessoa se recusa a alimentar o ressentimento.

Como o ódio sequestra sua autonomia mental

Quando alguém alimenta ódio por outra pessoa, o alvo passa a funcionar como um controle remoto invisível de seus pensamentos e emoções. Cada movimento ou palavra do outro dispara reações automáticas: a pessoa deixa de escolher as respostas e apenas reage. É como se um fio ligasse os dois e qualquer ação de um movimentasse o outro involuntariamente.

Essa dinâmica inverte a relação de comando. Em vez de decidir como se sente e o que faz, a pessoa passa a ter o humor, as decisões e até os planos ditados pelo outro. A hostilidade persistente deixa de ser um sentimento isolado e passa a organizar a vida cotidiana, ocupando espaço desproporcional na mente e consumindo energia.

Por que Borges entendia tão bem os labirintos da mente

Borges trabalhou como bibliotecário e dirigiu a Biblioteca Nacional, experiências que o colocaram em contato permanente com a vastidão do conhecimento e com a impossibilidade de dominá-lo por completo. Essa vivência influenciou sua ficção: seus contos frequentemente retratam personagens perdidos em bibliotecas infinitas e labirintos, à procura de respostas que parecem sempre escapar.

A cegueira progressiva também moldou sua exploração simbólica da confusão mental e da perda de orientação. Sem depender da visão, Borges desenvolveu novas formas de criar símbolos literários por meio da imaginação.

Essa experiência de desorientação e busca ajudou seus escritos a expressar como a mente humana se perde em seus próprios labirintos, inclusive no labirinto criado pelo ódio e pelo ressentimento.

Ciência

Especialista em felicidade de Harvard faz alerta sobre o horário em que você acorda

As primeiras horas da manhã são decisivas para criar uma rotina.

30/10/2026 13h44

Foto: Khoa Le/Pexels

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O horário em que você se levanta determina como enfrentará o dia, segundo Arthur C. Brooks, especialista em felicidade da Universidade de Harvard, e para ele, acordar depois que o sol já aqueceu significa perder a primeira oportunidade de controlar o estado emocional e a produtividade.

A hora do despertador afeta a concentração, a criatividade e a disposição para as atividades do dia. Em entrevista ao podcast The Tim Ferriss Show, publicada em dezembro de 2025, Brooks explicou que as primeiras horas da manhã são decisivas para criar uma rotina que favoreça o bem-estar.

A importância de acordar antes do amanhecer

Acordar cedo não significa apenas adiantar o relógio: significa ganhar tempo para cuidar do estado emocional. Brooks acordava rotineiramente às 4h30, hábito que integrava sua estratégia pessoal de bem-estar.

Essa prática se relaciona com um conceito antigo chamado Brahma Muhurta, originário da tradição védica indiana. O termo designa o período de aproximadamente uma hora e meia antes do amanhecer, historicamente considerado ideal para reflexão e concentração. Brooks usa essa ideia para explicar por que começar o dia com tempo suficiente reorganiza as atividades e melhora o controle emocional.

Como estruturar a manhã para melhorar o estado de ânimo

Levantar cedo funciona melhor quando combinado com outros hábitos, e o professor recomenda dedicar as primeiras horas do dia ao exercício físico, à reflexão e à alimentação apropriada. Manter uma rotina de sono consistente é essencial: acordar antes do amanhecer exige dormir cedo o suficiente para completar as horas necessárias.

A atividade física matinal reduz o desconforto emocional e muda a forma como você enfrenta o dia. Brooks dedicava parte da manhã ao exercício antes de iniciar as responsabilidades profissionais. Também alternava a atividade física com práticas espirituais e tarefas que exigiam foco. Organizar as primeiras horas cria uma sensação de ordem e aproveita o período de maior produtividade pessoal.

Felicidade não depende de uma única prática

Acordar cedo é uma ferramenta, não uma garantia. O especialista enfatiza que a felicidade resulta da combinação de vários hábitos cotidianos e que cada pessoa deve adaptar seus horários às suas próprias necessidades. O descanso adequado, uma rotina saudável e tempo dedicado a atividades que favorecem o bem-estar formam a base real.

A proposta não é forçar um padrão único, mas examinar como seu dia começa e se isso reflete seus objetivos. Quem dorme mal ou tem compromissos matinais pode adaptar o conceito sem acordar necessariamente na madrugada.

Por que a manhã cedo favorece a mente clara: a energia do Brahma Muhurta

Segundo a tradição védica, as primeiras horas antes do amanhecer não são apenas mais silenciosas: possuem qualidades energéticas específicas. O conceito de Brahma Muhurta descreve esse período como um momento em que o universo está em renovação. Com energias sutis e prana (força vital) mais potentes do que em qualquer outra parte do dia.

Por isso, a mente fica particularmente receptiva durante essas horas.

A prática de atividades espirituais e reflexivas nesse horário teria efeito amplificado porque aproveitaria essa concentração natural de energia criativa. Brooks usa essa explicação ancestral para mostrar por que começar o dia antes do amanhecer reorganiza não apenas o tempo, mas também o estado mental: nesse período, as capacidades de foco e clareza funcionariam naturalmente em níveis mais altos.

Posso aproveitar os benefícios sem acordar tão cedo assim?

Sim, embora Brahma Muhurta seja o período mais auspicioso — começando uma hora e 36 minutos antes do nascer do sol — o princípio central é aproveitar o tempo da manhã com calma e intenção. Se você não conseguir acordar tão cedo, o importante é dedicar as primeiras horas disponíveis do seu dia a práticas reflexivas.

Exercício físico e atividades que exigem foco, antes que as demandas profissionais tomem conta. Arthur Brooks enfatiza que a adaptação às suas necessidades pessoais é mais importante do que seguir um horário rígido que prejudique seu descanso.

A sabedoria ancestral por trás do conceito de acordar cedo

O Brahma Muhurta não é uma invenção moderna: é um conceito enraizado em tradições antigas que datam de milhares de anos e citado nos Vedas, Upanishads e outros textos sagrados do hinduísmo.

Esses textos descrevem as primeiras horas da manhã como o momento em que "os sábios despertam para a realidade atemporal" e pedem que o amanhecer conceda "discernimento e forças para buscar a sabedoria". O termo "Muhurta" significa literalmente uma divisão de tempo — especificamente um período de 48 minutos — e "Brahma" refere-se ao criador do universo na cosmologia hindu.

O significado transcultural deste horário vai além da religiosidade: representa um reconhecimento ancestral de que certos momentos do dia possuem qualidades únicas para a concentração e a criação pessoal. Ao usar este conceito, Arthur Brooks conecta recomendações científicas modernas sobre produtividade a uma tradição multissecular que já havia identificado a importância das primeiras horas da manhã para a transformação pessoal.

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