Mistério revelado?

Soterrados pelo Vesúvio, pergaminhos de Herculano podem revelar um dos grandes mistérios existentes

Pergaminhos de Herculano reúnem várias centenas de manuscritos

Quando o Monte Vesúvio entrou em erupção em 79 da era comum, centenas de rolos de papiro foram sepultados e carbonizaram, preservando textos que permaneceram praticamente ilegíveis por séculos. Agora, pesquisadores descobriram que um rastro de chumbo na tinta antiga pode indicar quais desses pergaminhos podem ser lidos com tecnologia de raios X.

Os pergaminhos de Herculano reúnem várias centenas de manuscritos, desenterrados em 1752 de uma vila próxima a Nápoles. Eles formam a única biblioteca intacta conhecida da Antiguidade clássica. A maior parte do que foi lido até agora é filosofia epicurista, em boa parte escrita por um autor chamado Philodemus.

Esses pergaminhos diferem de outros textos da Antiguidade: não chegaram até nós por meio de cópias feitas por monges durante a Idade Média.

O desafio de ler tinta antiga

Pesquisadores antigos destruíram muitos rolos ao tentar abri-los, e centenas foram desenroladas, mas outras centenas permaneceram enroladas e não lidas. Raios X seriam a ferramenta óbvia — e funcionaram uma vez, quando aprendizado de máquina treinado em varreduras com raios X permitiu a uma equipe ler parte de um rolo carbonizado sem abri-lo.

O problema está na tinta, e escritores romanos a faziam de fuligem e carvão. Uma letra e o papel abaixo dela agora são ambos carbono, então um ponto com tinta produz a mesma imagem de raios X que um espaço em branco.

Essa dificuldade fez com que a varredura de pergaminhos selados consumisse tempo escasso e caro em aceleradores de partículas.

Chumbo na tinta abre novo caminho

Uma análise feita em 2016 de dois fragmentos de Herculano identificou chumbo nas próprias letras — aproximadamente 84 microgramas por centímetro quadrado na peça maior e cerca de 16 na menor. Pesquisadores também encontraram chumbo em tinta preta e vermelha em papiros egípcios da era romana.

A origem do metal ainda não é completamente compreendida — pode ter vindo da própria tinta ou de um aditivo usado para secar a escrita.

Para fins de imagem, a origem não importa, e chumbo é muito mais denso que carbono e bloqueia muito mais um feixe de raios X do que o papiro faz. Essa propriedade oferece uma solução: verificar um rolo de papiro selado quanto à presença de chumbo por fora, depois gastar tempo de varredura apenas nos que o contêm.

Testes com pergaminhos modernos

Uma equipe liderada por Douglas Seiler, vinculado à UC Berkeley, desenvolveu pergaminhos de teste para validar esse método. Nenhum dos rolos testados era antigo; todos foram construídos em laboratório para esse fim. A equipe comprou folhas de papiro egípcio moderno com cerca de 10 metros de comprimento e escreveu nelas com um estilo de junco.

A tinta inicial era um pigmento de carbono japonês que não continha chumbo mensurável.

Nitrato de chumbo foi adicionado em seguida, e a tinta engrossou imediatamente, adquirindo uma consistência semelhante à de iogurte levemente diluído. Para calibrar a quantidade exata, a equipe desenhou linhas em um quadrado de papiro de 15 por 15 centímetros até cobri-lo quase totalmente de tinta, e depois, pesou o recipiente.

O quadrado tinha absorvido cerca de um décimo de uma colher de chá de tinta — o suficiente para reconstruir uma receita que correspondesse ao fragmento antigo.

Os pergaminhos foram então colocados em uma caixa de aço semi-selada dentro de um forno. O objetivo era replicar o calor da própria erupção — uma faixa de 400 a 900 graus Celsius.

Depois de carbonizados, os pergaminhos de teste foram analisados com um scanner portátil capaz de detectar o chumbo. O resultado validou a abordagem para pergaminhos genuínos do Vesúvio sem risco de danificá-los.

Por que o chumbo funciona melhor que o carbono aos raios X

A tinta romana era feita de fuligem e carvão, ambos carbono. Quando o papiro carboniza na erupção, a letra e o papel viram praticamente a mesma coisa aos olhos do raio X — carbono em ambos os casos. É como tentar enxergar uma nuvem branca contra um céu branco.

O chumbo funciona porque é muito mais denso que o carbono e bloqueia muito mais um feixe de raios X. Enquanto a letra de carbono não gera diferença visual entre tinta e papel, uma letra com chumbo cria um contraste claro que a máquina consegue captar.

Como identificar se um pergaminho selado vale a pena escanear

  • Passar um scanner portátil sobre a superfície externa do pergaminho selado, sem precisar abri-lo
  • O scanner detecta a presença de chumbo nas letras através da camada de papiro carbonizado
  • Se o chumbo for encontrado em vários pontos ao longo do rolo, ele será candidato à varredura com raios X
  • Reservar o tempo escasso e caro de varredura apenas para os pergaminhos que passaram no teste de chumbo
  • Evitar gastar recursos em rolos que não contêm chumbo, que provavelmente não renderão texto legível

Por que esses pergaminhos são únicos na história

Quase tudo que conhecemos da antiguidade clássica chegou até nós porque alguém o recopiou à mão — frequentemente monges durante a Idade Média. Os pergaminhos de Herculano são diferentes: eles são a única biblioteca intacta conhecida da antiguidade que sobreviveu sem passar pela tradição de cópia manual.

Foram enterrados e preservados pela erupção do Vesúvio de forma acidental, congelando textos em sua forma original. A maior parte do que foi lido até agora é filosofia epicurista, grande parte escrita por Philodemus, mas centenas de rolos. Ainda permanecem enrolados e ilegíveis — um arquivo praticamente intocado da vida antiga à espera de acesso.

Repercussão

Terremoto revela algo inesperado sobre o interior da Terra e muda o que cientistas sabiam

Tremor modificou para sempre o que a ciência sabia sobre estrutura do planeta

13/10/2026 09h01

Imagem gerada por inteligência artificial

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Há 117 anos, um tremor sísmico nos Bálcãs revelou uma fronteira oculta sob a superfície terrestre e modificou para sempre o que a ciência sabia sobre a estrutura interna do nosso planeta.

O evento, registrado em 8 de outubro de 1909 na região do vale do rio Kupa, próximo à atual Croácia, se tornou uma chave para desvendar os mistérios das profundezas. Investigar as camadas profundas representa um dos maiores desafios da ciência moderna.

Enquanto naves espaciais já ultrapassaram os limites do Sistema Solar, as escavações mais profundas realizadas pela humanidade atingiram apenas pouco mais de 12 km na crosta terrestre.

Sem acesso direto às regiões mais distantes, pesquisadores dependem de técnicas indiretas — especialmente da análise de ondas sísmicas — para mapear estruturas localizadas a dezenas, centenas ou até milhares de quilômetros abaixo da superfície.

As camadas do mundo em que vivemos

O interior do nosso mundo funciona como um ovo cozido, a casca fina corresponde à crosta, a clara representa o denso manto, e a gema é o núcleo, localizado a mais de seis mil quilômetros de profundidade. Essa comparação simples ilustra como o planeta está dividido em regiões com propriedades e composições completamente diferentes.

Quando o cientista croata Andrija Mohorovičić analisou o terremoto de 1909, observou algo extraordinário nas ondas sísmicas geradas pelo tremor: elas aceleravam de forma abrupta quando atingiam uma profundidade específica no subsolo. Essa aceleração inesperada marcava a passagem de uma camada para outra — a fronteira entre a crosta e o manto.

A descoberta recebeu o nome de Descontinuidade de Mohorovičić, embora os cientistas a chamem simplesmente de Moho.

Uma ferramenta para explorar o invisível

Para o físico e astrofísico Thiago Maia, especialista em fenômenos naturais e integrante da Declaração Climática Mundial no Brasil. O achado revolucionou a geofísica ao demonstrar que tremores funcionavam como ferramenta de investigação indireta do subsolo.

A descoberta da Moho revelou, conforme Maia explicou ao Olhar Digital, camadas internas da Terra com propriedades distintas. Especialmente uma mudança marcante entre a crosta e o manto, abrindo caminhos para estudar o interior do planeta sem precisar perfurá-lo.

A diferença detectada nas ondas sísmicas revelava mudanças de densidade entre as camadas. A maioria dos pesquisadores atribui essa alteração na velocidade das ondas à transição entre tipos de rocha: a crosta, formada por materiais distintos do manto mais denso e rico em peridotito.

Conforme informou Maia, a profundidade dessa descontinuidade varia conforme a localização geográfica: sob os oceanos, situa-se a aproximadamente 6 km de distância, enquanto sob continentes essa espessura alcança até 35 quilômetros.

O que permanece desconhecido após 100 anos

Mais de 100 anos após a descoberta inicial, essa fronteira invisível continua sendo essencial para entender como o nosso mundo funciona internamente.

A importância da Moho reside no fato de que, apesar de a humanidade nunca ter perfurado diretamente até o manto em seu estado natural. As ondas sísmicas geradas por terremotos atravessam o planeta inteiro, permitindo mapear estruturas internas invisíveis aos nossos olhos.

Maia ressalva, porém, que a Moho não deve ser entendida simplesmente como uma parede física perfeitamente definida. Ao atravessar camadas internas com propriedades distintas, as ondas sísmicas revelam uma descontinuidade que a caracteriza fundamentalmente.

Aquele tremor de 1909, um evento potencialmente destrutivo, tornou-se ferramenta de conhecimento — demonstrando como a natureza, em seus fenômenos mais violentos, pode revelar os maiores segredos da estrutura terrestre.

Por que as ondas sísmicas mudam de velocidade na Moho

Quando uma onda sísmica viaja pelo interior da Terra, ela se comporta como a luz passando por materiais diferentes — muda de velocidade dependendo do que atravessa. Na Moho, essa mudança é brusca porque marca a transição entre dois tipos de rocha com densidades completamente distintas. A crosta, camada superior, é formada por rochas mais leves. Já o manto, logo abaixo, é composto por rochas muito mais densas e ricas em minerais como peridotito, olivina e piroxênios. Essa diferença de densidade faz as ondas acelerarem de forma repentina quando passam de uma camada para a outra — é como se entrassem em um material mais compacto e "denso demais" para atravessar na mesma velocidade anterior.

O que a descoberta da Moho significa para nosso conhecimento do planeta

A Moho transformou a geofísica porque provou que não precisamos perfurar o planeta para conhecê-lo. Antes dessa descoberta, os cientistas tinham pouca certeza sobre o que existia abaixo de alguns quilômetros de profundidade. Agora, usando terremotos como ferramentas naturais de investigação, conseguimos mapear estruturas a dezenas, centenas e até milhares de quilômetros de distância. Isso significa que a gente pode estudar o interior da Terra de forma indireta, usando apenas os dados que as ondas sísmicas nos trazem — sem precisar de máquinas perfurando o solo durante décadas.

Quando a Moho não funciona como uma parede bem definida

Muitas pessoas imaginam a Moho como uma fronteira perfeita, uma linha clara separando duas camadas distintas — algo como uma parede em uma casa. Mas a realidade é mais complexa. A Moho não é uma camada física sólida com espessura uniforme. Sua profundidade varia bastante conforme a localização geográfica: nos oceanos fica próxima a apenas 6 quilômetros da superfície, enquanto sob os continentes pode atingir até 35 quilômetros, e sob cordilheiras chega a 70 quilômetros. Além disso, a transição entre a crosta e o manto não acontece instantaneamente — é mais uma zona de mudança onde as propriedades das rochas vão se alterando gradualmente. O que define a Moho é justamente esse comportamento que as ondas sísmicas revelam, e não uma estrutura física bem demarcada.

Tragédia

Alpinista sobe montanha de 3.960 metros, manda mensagem à família e despenca pouco depois

Queda aconteceu em uma região montanhosa remota e perigosa

13/10/2026 08h39

Foto: Baraa Obied/Pexels

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Brian Seibert, um alpinista de 53 anos da Califórnia, chegou ao cume do Monte Morgan, que tem cerca de 3.960 metros, na noite de um domingo (4 de outubro) e logo enviou uma mensagem de texto aos amigos para celebrar a conquista. Poucas horas depois, ele despencou de uma altura que socorristas descreveram como "incompatível com a sobrevivência".

A queda ocorreu em uma região montanhosa remota e perigosa, onde o terreno acidentado retardou o trabalho das equipes de busca. O corpo de Seibert permaneceu no local por mais de 72 horas e foi recuperado na quarta-feira (7 de outubro). A demora refletiu a dificuldade de acesso à área onde ele caiu.

O resgate em terreno hostil

A Equipe de Busca e Salvamento do Gabinete do Xerife do Condado de Mono recebeu um chamado na segunda-feira (5 de outubro). Depois que Brian não retornou no horário esperado, por volta das 23h30, os socorristas começaram a rastrear o alpinista pela rota de descida e localizaram pegadas e dados de geolocalização de seu celular.

O corpo foi avistado por homens em helicóptero antes do resgate. O local onde o corpo foi encontrado ficava a aproximadamente 3.800 metros de altura e apresentava obstáculos severos que impediram o acesso rápido por terra. Um helicóptero especializado foi necessário para retirar o corpo do penhasco na base do Grand Central Couloir, uma formação geológica da montanha.

Despedida registrada no topo

Antes da queda, Seibert assinou o livro de registro localizado no cume do Monte Morgan. A prática é comum entre alpinistas para documentar suas ascensões. A mensagem que enviou aos amigos após atingir o pico seria seu último contato antes do acidente.

A ex-esposa de Brian, Sundi Reince, expressou publicamente sua gratidão pelas operações de resgate, destacando que mantinha uma forte amizade com o ex-marido apesar do divórcio. Seus filhos acompanharam as buscas com ansiedade e agradeceram aos voluntários e autoridades pelo empenho em localizar o corpo.

Como o terreno remoto atrasa o resgate em montanhas

Em uma área montanhosa remota, a dificuldade não está apenas em encontrar a pessoa, mas em chegar até ela. No caso de Brian Seibert, o corpo permaneceu no local por mais de 72 horas porque o terreno acidentado, a cerca de 3.800 metros de altura, impedia o acesso por terra.

As equipes de resgate rastrearam pegadas e dados de geolocalização do celular para localizar o corpo. Mesmo depois de avistá-lo do helicóptero, precisaram de uma aeronave especializada para removê-lo do penhasco.

Isso significa que em resgates montanhosos remotos, o tempo entre localizar alguém e recuperá-la pode ser muito maior do que em áreas urbanas. A topografia hostil — formações como o Grand Central Couloir — não apenas dificulta o deslocamento, mas também exige equipamento especializado e helicópteros que nem sempre estão imediatamente disponíveis.

Quando o rastreamento por celular pode não ser suficiente

Os socorristas localizaram Brian com dados de geolocalização do celular e pegadas na rota de descida. Mesmo assim, o corpo só foi avistado por helicóptero. A geolocalização não levou diretamente até ele porque, em terrenos remotos e acidentados, um sinal de GPS pode indicar uma área geral, mas não garante que os resgatistas consigam chegar a pé ao ponto exato.

Especialmente se o local estiver em um penhasco ou formação rochosa instável. Por isso, dados de celular são uma ferramenta importante, mas, em ambientes montanhosos hostis, podem ser apenas o primeiro passo. A confirmação visual feita por helicóptero é necessária para localizar com precisão o ponto onde a pessoa está.

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