Quem corre atrás de um objetivo com ansiedade demais costuma ignorar o que acontece no caminho. Foi exatamente isso que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard apontou numa de suas reflexões mais citadas até hoje. Ele afirmou que a maioria das pessoas persegue o prazer com tanta pressa que, nessa correria, acaba deixando-o passar sem perceber.
A frase resume um comportamento que atravessa gerações: a dificuldade de viver o processo sem já estar pensando no resultado final. A obsessão por alcançar objetivos pode, ironicamente, afastar a pessoa deles e levá-la a um estado de desespero total.
A armadilha da pressa pelo resultado
Buscar prosperidade e realização faz parte da natureza humana, e ninguém se esforçaria tanto se não houvesse uma recompensa de satisfação no fim do esforço.
O problema surge quando essa busca vira obsessão e a pessoa perde a paciência com as etapas intermediárias, transformando o caminho que deveria trazer plenitude em seu oposto: a sensação de estar sempre atrasado, sempre insatisfeito, mesmo quando os resultados aparecem.
Kierkegaard via nisso um erro de atitude diante da vida, não um problema de falta de esforço. A busca imediata por satisfação costuma ser justamente o passo errado na senda para alcançar os próprios propósitos, porque desperdiça o que deveria ser vivido com presença.
O valor de apreciar cada etapa
O percurso até uma meta é longo e, em muitos casos, cansativo, mas isso não significa que precise ser vivido apenas como sofrimento. Há paradas nesse trajeto que merecem atenção, porque são elas que tornam o processo suportável e até memorável — momentos que, com o tempo, ganham peso diferente na memória.
Essa ideia aparece também no pensamento de outros filósofos. Demócrito defendia que a verdadeira discrição está em não sofrer pelo que falta, mas em alegrar-se com o que já se tem — um raciocínio que complementa diretamente o alerta sobre a pressa.
Lao Tsé, criador do taoísmo, explorava esse caminho ao distinguir entre conhecer os outros, marca do erudito, e conhecer a si mesmo, característica do verdadeiro sábio.
Quando o olhar volta para trás
Com o tempo, as etapas que pareciam apenas obstáculos tendem a ganhar outro peso na memória. É comum olhar para trás e sentir afeto justamente pelos momentos que, na época, exigiam mais paciência e geravam mais dúvida — descoberta que raramente ocorre a quem viveu aqueles dias apenas na pressa.
Bertrand Russell também tocou nesse tema ao observar, conforme informou o El Confidencial, que parte das dificuldades do mundo vem de pessoas seguras demais e inteligentes cheias de dúvidas — um lembrete de que a certeza apressada raramente combina com reflexão verdadeira.
Desacelerar o passo, nesse sentido, pode ser o único jeito de realmente alcançar o que se busca, porque o próprio caminho é onde a vida acontece.
O que Kierkegaard criticava antes de falar sobre a pressa
Por trás da reflexão de Kierkegaard sobre aproveitar o caminho estava uma crítica muito maior: ele se opunha frontalmente aos filósofos de sua época que viam a vida como um sistema abstrato e perfeito. Para esses pensadores, o importante era a lógica geral, não a vida real de pessoas reais vivendo suas escolhas todos os dias. Kierkegaard virou o jogo: para ele, o que importa é exatamente isso — como cada indivíduo vive sua vida concreta, singular, com suas dúvidas e decisões pessoais.
Essa preocupação com o indivíduo como pessoa e não como número em um sistema maior permeia toda sua obra. Ele acreditava que você não pode entender a vida humana apenas olhando para fórmulas; precisa viver, escolher, sofrer, duvidar. É por isso que sua crítica à pressa faz tanto sentido: quando você corre atrás do resultado final sem viver as etapas, está justamente ignorando a única coisa que realmente importa — sua existência única e pessoal.


