Viktor Frankl, psiquiatra e neurologista austríaco, criador da logoterapia e autor de "Em Busca de Sentido", resumiu sua visão sobre propósito e bem-estar numa frase: quando alguém não encontra um sentido profundo para a existência, acaba se distraindo com o prazer.
Essa afirmação resume décadas de reflexão de Frankl sobre o que leva as pessoas a seguir em frente diante das dificuldades. O psiquiatra construiu essa visão a partir da experiência como médico e do período em que esteve preso em campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
A partir dessa visão, Frankl criou uma teoria que coloca a busca por significado no centro da motivação humana, antes da busca por prazer ou poder.
O que a frase de Frankl quer dizer
Na visão do psiquiatra, ter um motivo para viver não exige felicidade constante nem ausência de problemas. O essencial é identificar quais atividades, vínculos ou valores dão significado à vida, mesmo em momentos adversos.
Para Frankl, o bem-estar não se resume a sentir-se bem num instante específico. Ele também envolve encontrar razões para levantar todos os dias, assumir responsabilidades e se dedicar a algo que vá além da satisfação imediata.
Quando essa direção não existe, segundo o psiquiatra, a pessoa tende a preencher o vazio com estímulos passageiros que não resolvem a falta de rumo.
Como funciona a logoterapia
A logoterapia é a abordagem psicoterapêutica criada por Frankl, baseada na ideia de que a procura por sentido é uma das principais forças que movem o ser humano. Esse sentido não precisa ser igual para todas as pessoas, nem permanecer o mesmo ao longo da vida.
Mesmo em circunstâncias adversas, a proposta de Frankl é que cada indivíduo pode escolher que atitude tomar e que significado atribuir à própria experiência. Essa liberdade de interpretação, para ele, é o que resta mesmo quando as condições externas não podem ser mudadas.
Caminhos para encontrar um propósito
O pensamento de Frankl ajuda a pensar na ligação entre escolhas do dia a dia e o sentido da vida. Reconhecer quais atividades geram envolvimento real é um primeiro passo: há diferença entre o que apenas entretém e o que traz sensação de realização.
Cuidar dos laços pessoais, estabelecer metas concretas e enxergar valor nas responsabilidades cotidianas — trabalho, cuidado com outras pessoas, tarefas do dia a dia — também fazem parte desse caminho. Refletir sobre experiências difíceis, sem minimizar o sofrimento, permite identificar o que ainda está ao alcance de cada decisão.
A frase de Frankl continua sendo citada porque toca num ponto simples: prazer e sentido não são a mesma coisa, e confundir os dois tende a deixar a sensação de vazio intacta.
A escolha do sentido como ato de resistência espiritual
A história de Julio Gartner, sobrevivente de cinco campos de concentração, ilustra como Frankl aplicava sua teoria. Depois de sair dos campos tomado pela raiva da morte dos pais, Gartner precisou escolher entre deixar que a revolta consumisse sua vida e buscar um significado para seguir adiante.
Ele decidiu dedicar-se a divulgar as lições do Holocausto para impedir que a história se repetisse. A decisão não eliminou sua dor nem a memória do horror. Mas transformou a dor em propósito e mostrou que a liberdade de escolher o significado permanecia intacta mesmo depois de perder tudo.
Quando a capacidade de encontrar sentido fica temporariamente adormecida
Frankl observou um fenômeno importante entre prisioneiros recém-libertados: muitos deles perdiam temporariamente a capacidade de aproveitar a vida e sentir prazer, mesmo após conquistarem a liberdade. Flores, gentileza e a sensação de estar livre pareciam irreais.
Esse estado de dormência mental mostra que simplesmente remover as dificuldades externas não restaura automaticamente o sentido — às vezes a mente precisa de tempo para reconectar-se com o significado após vivenciar condições extremamente desumanizadoras.
É possível ter uma vida com sentido diante de problemas graves?
Sim, e essa é a essência da visão de Frankl. Ele demonstrou que o sentido não depende da ausência de dificuldades nem de felicidade constante. Mesmo diante de uma doença incurável ou de perdas irreversíveis, a pessoa ainda pode escolher como enfrentar a situação e encontrar significado naquilo que está ao alcance.
O sentido pode existir no modo como uma pessoa enfrenta o problema, não apenas na sua resolução.


