Reflexão

Nobel de Literatura alerta: avanço da IA pode criar meritocracias implacáveis

O escritor já havia explorado essas questões em obras anteriores.

Kazuo Ishiguro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2017. A Academia Sueca reconheceu a força emocional de suas novelas e sua capacidade de explorar a fragilidade de nossa relação com o mundo.

Nascido em Nagasaki em 1954 e radicado no Reino Unido desde a infância, o escritor já havia explorado essas questões em obras anteriores. Em seu discurso de aceitação, fez um alerta que parecia distante à época: o impacto da inteligência artificial nas sociedades futuras.

Em seu pronunciamento, Ishiguro reconheceu que novas tecnologias — como a edição genética CRISPR, avanços em inteligência artificial e robótica — trariam benefícios e poderiam salvar vidas. Mas alertou que esses mesmos avanços poderiam instaurar meritocracias implacáveis semelhantes ao apartheid e desencadear desemprego em massa, que atingiria até as atuais elites profissionais.

A questão central era quem se beneficiaria dessas transformações e quem ficaria para trás.

A ficção como espelho das preocupações reais

As inquietações que ele levou ao palco do Nobel encontraram corpo literário em suas obras. Já em "Os restos do dia" e "Nunca me abandones" (2005), Ishiguro havia explorado dilemas de subordinação e utilidade. Neste último, o autor retratou jovens num internado onde uma aparência de normalidade ocultava destinos subordinados às necessidades médicas da sociedade.

Cada personagem tornava impossível vê-los como meras engrenagens — a ficção humanizava o dilema que o próprio discurso do Prêmio havia anunciado.

Com Klara e o Sol, lançado em 2021, Ishiguro continuou a exploração desse território. O romance segue uma Amiga Artificial que aguarda numa loja por alguém que a compre para acompanhar uma família, permitindo ao leitor examinar sentimentos humanos pela perspectiva de uma máquina.

Por meio de amizades, memórias e vínculos afetivos, os personagens exploram a questão central: o que nos torna humanos quando a tecnologia passa a ocupar espaços antes exclusivos da intimidade e dos cuidados?

Tecnologia nos espaços do cotidiano

Sua obra não separa o avanço científico de suas consequências humanas e sociais. Ishiguro não questionava se a tecnologia chegaria, mas que contribuição a literatura poderia oferecer, além de perspectiva e nuance emocional, aos conflitos que surgiriam durante a adaptação das sociedades a essas mudanças.

Naquele discurso, Ishiguro perguntava que papel a literatura — e ele próprio, como escritor — poderia desempenhar. Além de oferecer perspectiva e nuances emocionais às lutas e guerras que surgiriam enquanto as sociedades se adaptassem a essas mudanças.

Hoje, aquela questão permanece aberta e urgente: a inteligência artificial já não é uma ficção científica distante, mas uma realidade presente em cada novo modelo lançado no mercado.

As preocupações que Ishiguro plantou há quase uma década — sobre meritocracias brutais. Exclusão em massa e a redefinição do que nos torna humanos — agora ecoam com a velocidade da própria tecnologia que temia. Sua obra e seu alerta se tornam cada vez mais necessários para compreender o presente.

Como a máquina literária humaniza a tecnologia

Quando Ishiguro coloca uma inteligência artificial como narradora de "Klara e o Sol", ele inverte a perspectiva usual sobre a tecnologia. Em vez de explicar como a máquina funciona, o romance a usa para examinar sentimentos humanos profundos: nossa necessidade de sermos vistos e compreendidos. Nosso instinto de proteger quem amamos e nossa consciência da morte.

A perspectiva de Klara força o leitor a questionar o que define a humanidade. Já que a máquina demonstra capacidades de cuidado e compreensão que desafiam a suposição de que essas qualidades pertencem exclusivamente aos humanos.

Reflexão

Marco Aurélio: "Nada acontece a ninguém que não possa, por sua natureza, suportar"

A frase resume um dos pilares da filosofia estoica.

02/11/2026 08h59

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O imperador romano Marco Aurélio registrou em Meditações uma reflexão que ainda repercute: ninguém enfrenta nada que, por sua natureza, não possa suportar. A frase resume um dos pilares da filosofia estoica: a convicção de que a força interior nos capacita a enfrentar o que não controlamos.

Perdas inesperadas, decepções pessoais, doenças e mudanças bruscas de circunstâncias testam nossa estabilidade todos os dias. Para Marco Aurélio, porém, essas dificuldades não eram erros do universo — eram parte inevitável da existência humana, e nossa reação a elas é o que realmente importa.

Um filósofo que governou o Império

Nascido em Roma em 121 d.C., Marco Aurélio governou o Império Romano de 161 a 180 e se tornou um dos principais imperadores da dinastia dos Antoninos. Dedicou-se ao conhecimento, à ética e à reflexão pessoal e abraçou a filosofia estoica desde jovem.

Durante seu reinado, Marco Aurélio enfrentou conflitos militares nas fronteiras, tensões políticas internas e uma epidemia devastadora que afetou gravemente a população romana. Essas adversidades moldaram sua convicção de que o ser humano deve lidar com a incerteza e a adversidade com sabedoria e razão.

Meditações: reflexões nascidas na adversidade

Durante esses anos turbulentos, Marco Aurélio escreveu Meditações, uma coleção de reflexões pessoais que não pretendia publicar. O texto explora a morte, o dever, a conduta humana e a necessidade de manter o equilíbrio diante dos acontecimentos externos.

O imperador usava a escrita como prática de autodisciplina, lembrando a si mesmo como deveria se comportar diante das dificuldades. A frase central — "A ninguém ocorre nada que por sua natureza não possa suportar" — aparece no livro V da obra, num trecho dedicado à forma como as pessoas enfrentam a adversidade.

Seu significado está ligado à confiança que os estoicos depositavam na capacidade racional humana: a convicção de que todo indivíduo possui recursos internos suficientes para suportar aquilo que a vida coloca em seu caminho.

O pensamento estoico além do sofrimento

Seu pensamento não buscava eliminar o sofrimento, mas ensinar a conviver com ele, mantendo a serenidade e a capacidade de agir com clareza. Para Marco Aurélio, as dificuldades faziam parte da existência, mas a resposta a elas poderia fazer diferença na vida de cada pessoa e no mundo ao seu redor.

A filosofia estoica que Marco Aurélio praticava defendia a virtude, a razão e o domínio das próprias ações como alicerces de uma vida bem vivida. Essa abordagem permitiu que o imperador enfrentasse os desafios de seu reinado não como vítima das circunstâncias, mas como alguém capaz de transformar a adversidade em oportunidade de crescimento pessoal e sabedoria.

Como a mente controla a resposta à adversidade

Segundo o estoicismo, o sofrimento não vem do acontecimento em si, mas da forma como a pessoa o interpreta. Se alguém perde algo valioso, a dor inicial é natural, mas o prolongamento desse sofrimento depende de como avalia o que aconteceu.

Marco Aurélio ensinava que essa avaliação está sob o controle de cada pessoa, que pode mudá-la a qualquer momento ao refletir sobre seus princípios e alterar sua perspectiva.

Essa separação entre o evento e sua interpretação é o núcleo do método estoico. O obstáculo externo existe, mas também existe a capacidade de agir e manter o propósito moral diante dele. É essa capacidade que realmente importa, e ao distinguir as duas coisas, a pessoa passa a controlar o que lhe pertence: suas decisões, seus juízos e suas ações.

Quando o estoicismo contemporâneo distorce a mensagem original

Filósofos como Aldo Dinucci alertam que a releitura pop do estoicismo muitas vezes o transforma em receita de produtividade e sucesso individual — uma interpretação que não era a intenção original. Na Antiguidade, o estoicismo buscava fundamentalmente a reintegração do ser humano com a natureza, não a sobrevivência em ambientes hostis como o trabalho corporativo moderno.

Quando aplicado apenas como ferramenta de resiliência pessoal contra adversidades, perde-se o contexto de busca por virtude e harmonia que Marco Aurélio realmente valorizava.

Além disso, a ideia de "aceitar o que não pode controlar" não significa conformismo passivo ou resignação — uma confusão frequente. O estoicismo convida você a lutar pelas mudanças que pode alcançar, sem se prender ao resultado. Ignorar essa nuance cria uma versão diluída da filosofia, onde a pessoa abandona responsabilidades reais sob o pretexto de "não controlar tudo".

Se o estoicismo era uma filosofia da Antiguidade, por que Marco Aurélio é tão popular entre coaches e empresários de hoje?

Marco Aurélio se tornou popular porque seus ensinamentos respondem ao individualismo e à busca por formas de lidar com o caos. Hoje, muitos enfrentam ambientes hostis — no trabalho, nas redes sociais e diante da incerteza econômica —, e o estoicismo oferece uma estratégia prática: reconhecer o que não se controla.

Concentrar-se no que se pode controlar e manter a integridade moral. Essa abordagem é fácil de traduzir em dicas de autoajuda. Segundo especialistas, porém, a popularização frequentemente ignora a busca original da filosofia por virtude e harmonia com a natureza e a transforma em manual de produtividade.

Autores como Ryan Holiday capitalizaram essa tendência ao reinterpretar Marco Aurélio como guru do sucesso empresarial, uma leitura que desvia do sentido que o imperador dava ao próprio pensamento.

Reflexão

Viktor Frankl: "Quando falta sentido na vida, a pessoa se distrai com prazeres"

Essa afirmação resume décadas de reflexão.

02/11/2026 07h49

Foto: Reprodução

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Viktor Frankl, psiquiatra e neurologista austríaco, criador da logoterapia e autor de "Em Busca de Sentido", resumiu sua visão sobre propósito e bem-estar numa frase: quando alguém não encontra um sentido profundo para a existência, acaba se distraindo com o prazer.

Essa afirmação resume décadas de reflexão de Frankl sobre o que leva as pessoas a seguir em frente diante das dificuldades. O psiquiatra construiu essa visão a partir da experiência como médico e do período em que esteve preso em campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

A partir dessa visão, Frankl criou uma teoria que coloca a busca por significado no centro da motivação humana, antes da busca por prazer ou poder.

O que a frase de Frankl quer dizer

Na visão do psiquiatra, ter um motivo para viver não exige felicidade constante nem ausência de problemas. O essencial é identificar quais atividades, vínculos ou valores dão significado à vida, mesmo em momentos adversos.

Para Frankl, o bem-estar não se resume a sentir-se bem num instante específico. Ele também envolve encontrar razões para levantar todos os dias, assumir responsabilidades e se dedicar a algo que vá além da satisfação imediata.

Quando essa direção não existe, segundo o psiquiatra, a pessoa tende a preencher o vazio com estímulos passageiros que não resolvem a falta de rumo.

Como funciona a logoterapia

A logoterapia é a abordagem psicoterapêutica criada por Frankl, baseada na ideia de que a procura por sentido é uma das principais forças que movem o ser humano. Esse sentido não precisa ser igual para todas as pessoas, nem permanecer o mesmo ao longo da vida.

Mesmo em circunstâncias adversas, a proposta de Frankl é que cada indivíduo pode escolher que atitude tomar e que significado atribuir à própria experiência. Essa liberdade de interpretação, para ele, é o que resta mesmo quando as condições externas não podem ser mudadas.

Caminhos para encontrar um propósito

O pensamento de Frankl ajuda a pensar na ligação entre escolhas do dia a dia e o sentido da vida. Reconhecer quais atividades geram envolvimento real é um primeiro passo: há diferença entre o que apenas entretém e o que traz sensação de realização.

Cuidar dos laços pessoais, estabelecer metas concretas e enxergar valor nas responsabilidades cotidianas — trabalho, cuidado com outras pessoas, tarefas do dia a dia — também fazem parte desse caminho. Refletir sobre experiências difíceis, sem minimizar o sofrimento, permite identificar o que ainda está ao alcance de cada decisão.

A frase de Frankl continua sendo citada porque toca num ponto simples: prazer e sentido não são a mesma coisa, e confundir os dois tende a deixar a sensação de vazio intacta.

A escolha do sentido como ato de resistência espiritual

A história de Julio Gartner, sobrevivente de cinco campos de concentração, ilustra como Frankl aplicava sua teoria. Depois de sair dos campos tomado pela raiva da morte dos pais, Gartner precisou escolher entre deixar que a revolta consumisse sua vida e buscar um significado para seguir adiante.

Ele decidiu dedicar-se a divulgar as lições do Holocausto para impedir que a história se repetisse. A decisão não eliminou sua dor nem a memória do horror. Mas transformou a dor em propósito e mostrou que a liberdade de escolher o significado permanecia intacta mesmo depois de perder tudo.

Quando a capacidade de encontrar sentido fica temporariamente adormecida

Frankl observou um fenômeno importante entre prisioneiros recém-libertados: muitos deles perdiam temporariamente a capacidade de aproveitar a vida e sentir prazer, mesmo após conquistarem a liberdade. Flores, gentileza e a sensação de estar livre pareciam irreais.

Esse estado de dormência mental mostra que simplesmente remover as dificuldades externas não restaura automaticamente o sentido — às vezes a mente precisa de tempo para reconectar-se com o significado após vivenciar condições extremamente desumanizadoras.

É possível ter uma vida com sentido diante de problemas graves?

Sim, e essa é a essência da visão de Frankl. Ele demonstrou que o sentido não depende da ausência de dificuldades nem de felicidade constante. Mesmo diante de uma doença incurável ou de perdas irreversíveis, a pessoa ainda pode escolher como enfrentar a situação e encontrar significado naquilo que está ao alcance.

O sentido pode existir no modo como uma pessoa enfrenta o problema, não apenas na sua resolução.

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