Atendimento à mulher vítima de violência doméstica, sexual, psicológica, financeira ou patrimonial será corrigido, otimizado e aperfeiçoado em Mato Grosso do Sul.
Delegacia Geral de Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (DGPC-MS) criou um Grupo de Trabalho (GT) para desengavetar quase 6.000 boletins de ocorrência registrados na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM-Campo Grande) e apurar um por um, especialmente aqueles que não resultaram em instauração de procedimento ou que possuem providências pendentes.
A decisão ocorre após o feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, assassinada a facadas pelo ex-noivo, Caio Nascimento, de 47 anos, em 12 de fevereiro de 2025, no bairro São Francisco, em Campo Grande.
A medida visa agilizar e dar celeridade na apuração de crimes praticados contra a mulher. O objetivo é combater com eficiência a violência contra o público feminino e fortalecer a rede de proteção à mulher.
O GT realizará seus trabalhos na Academia de Polícia Civil Delegado Júlio César da Fonte Nogueira (Acadepol-MS), em Campo Grande.
No local, serão analisados boletins de ocorrência represados, como aqueles em que as vítimas ou autores não são encontrados no endereço e nem por telefone pela Polícia Civil, bem como desistência de representação por parte das vítimas ou ausência/inexistência de provas ou elementos comprobatórios para a instrução e andamento dos procedimentos.
Durante a apuração, serão realizados:
- Levantamento e análise dos Boletins de Ocorrência
- Identificação de casos que necessitam de reavaliação ou complementação
- Análise de procedimentos em que tenha ocorrido decadência ou prescrição
- Proposição de medidas e fluxos de trabalho para otimizar a tramitação dos procedimentos e alterações ou adequações nos protocolos existentes
- Solicitação de apoio técnico, logístico e de pessoal à DGPC
- Apresentação de relatório final com conclusões e sugestões
Ao todo, 19 delegados de polícia, dois escrivães e uma investigadora irão participar do GT.
O mutirão será coordenado pelo delegado-geral adjunto, Márcio Custódio e pela delegada de polícia Maria de Lourdes Cano, além da equipe técnica composta por 17 servidores.
O grupo de trabalho terá 90 dias para concluir os trabalhos, prazo que pode ser prorrogado pela DGPC.
Em 10 anos de funcionamento, a Casa da Mulher Brasileira emitiu quase 80.000 boletins de ocorrência.
O delegado-geral da Polícia Civil, Lupérsio Degerone Lúcio, ressaltou a importância da iniciativa em combate a violência de gênero.
"Este grupo de trabalho representa nosso compromisso em garantir um atendimento cada vez mais qualificado e eficiente às mulheres vítimas de violência. Buscamos aprimorar nossos procedimentos e fluxos de trabalho para que possamos oferecer um serviço de excelência, com a celeridade e a sensibilidade que esses casos exigem", pontuou o delegado geral.
A portaria de criação do Grupo de Trabalho foi publicada no Diário Oficial do Estado desta quinta-feira (20).
CASO VANESSA RICARTE
Jornalista, Vanessa Ricarte, de 42 anos morreu esfaqueada pelo noivo, Caio Nascimento, de 35 anos, em 12 de fevereiro de 2025, no bairro São Bento, em Campo Grande.
Ela foi socorrida e encaminhada ao Hospital Santa Casa, passou por cirurgia, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu.
Horas antes de morrer, Vanessa solicitou medida protetiva contra o autor na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM). Em seguida, voltou para casa e foi morta com golpes de faca.
De acordo com o Ministério das Mulheres, o percurso de Vanessa até sua casa não poderia ter ocorrido sem a escolta da Patrulha Maria da Penha, segundo o protocolo de avaliação de risco para mulheres em situação de violência e que orienta o atendimento na Casa da Mulher Brasileira.
O feminicídio escancara uma série de falhas do poder público de Mato Grosso do Sul no enfrentamento da violência contra mulher, mostrando que medidas precisam ser tomadas e o modelo de atendimento à mulher vítima de violência precisa ser reformulado.
Caio está preso na DEAM e diz estar "muito mal pelo que aconteceu". Caio é músico, pianista e aparenta ser um "homem de Deus" nas redes sociais, tocando e cantando músicas evangélicas.
Eles namoravam há 4 meses e moravam juntos. Ele tem passagens pela polícia por roubo, tentativa de suicídio, ameaça e violência doméstica contra a mãe, irmã e outras namoradas.
A jornalista morreu quatro dias antes de seu aniversário. Ela era assessora de imprensa do Ministério Público do Trabalho (MPT) e se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).




