A conta não fecha. E o consumidor lembra disso toda vez que encosta o carro na bomba. Em pouco mais de um ano, o preço da gasolina nas refinarias da Petrobras só caiu. Caiu uma vez, caiu duas, caiu várias. E não se trata de uma política de repasse imediato, como ocorria no passado. A estatal demorou, inclusive, para acompanhar as oscilações do mercado internacional, justamente para evitar volatilidade excessiva e proteger o consumidor final. Ainda assim, quando os reajustes no atacado vieram, vieram para baixo.
O problema é que essa lógica deixa de vigorar antes de chegar ao posto de combustível. No varejo, a realidade é outra: preços resilientes, quase imunes às quedas do atacado. Em alguns casos, o preço da gasolina simplesmente não baixa, em outros, cai centavos irrisórios, insuficientes para refletir a redução acumulada ao longo de meses nas refinarias. O resultado é um sentimento generalizado de injustiça – e com razão.
Durante muito tempo, as suspeitas de cartel recaíam quase exclusivamente sobre os postos de combustíveis. Hoje, porém, elas avançam alguns elos na cadeia e passam a pairar também sobre as distribuidoras. O comportamento uniforme dos preços, a resistência sistemática em repassar reduções e a coincidência de margens cada vez mais elevadas alimentam a percepção de que existe, sim, algum tipo de combinação entre os grandes players do setor.
A impressão que fica é de um mercado em que, paradoxalmente, quanto mais a gasolina baixa na origem, mais aumenta a margem de quem está no meio e na ponta. Um arranjo perverso, em que o consumidor financia ganhos extras sem nenhuma contrapartida. E nessa engrenagem até mesmo a Petrobras e o governo federal acabam ficando com as mãos atadas. O discurso do livre mercado, tão celebrado, também tem seu lado sombrio: quando mal fiscalizado, ele não promove concorrência, mas favorece a formação de trustes, oligopólios e práticas abusivas.
Diante desse cenário, é inevitável perguntar: onde estão os órgãos de defesa do consumidor? Onde estão os Procons estaduais e municipais? Onde está o Ministério Público, que deveria ao menos investigar essa distorção evidente entre atacado e varejo? O silêncio institucional é tão ruidoso quanto os números que não batem.
Enquanto o preço da gasolina cai nas refinarias, ele sobe – ou insiste em não cair – nos postos. É o retrato de um mercado desequilibrado, em que o cidadão paga a conta sem explicações, sem transparência e sem proteção. Lamentável. E, pior, recorrente.

