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Devedor contumaz, concorrência desleal e a memória constitucional dos poderes excepcionais

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A história constitucional ensina que os maiores riscos ao Estado de Direito raramente se apresentam sob a forma de rupturas explícitas. Com mais frequência, surgem por deslocamentos graduais de competências, legitimados por boas intenções e finalidades aparentemente incontestáveis.

Em “Estado de Exceção”, Giorgio Agamben recorda que a experiência da Constituição de Weimar não foi a de um colapso repentino da ordem jurídica, mas a de sua corrosão interna, pela normalização de instrumentos excepcionais previstos no próprio texto constitucional.

O art. 48 da Constituição alemã de 1919 conferia ao presidente do Reich poderes amplos para suspender direitos fundamentais e governar por decretos em nome da segurança e da ordem pública. A cláusula emergencial, concebida como exceção, converteu-se progressivamente em técnica ordinária de governo.
Como observa Agamben, a ascensão de Adolf Hitler não se explica sem esse processo prévio: o poder não foi tomado à margem da Constituição, mas exercido por meio de dispositivos que já haviam deslocado o centro decisório e esvaziado os mecanismos de controle democrático.

A lição não está na equiparação de contextos históricos incomparáveis, mas no alerta estrutural: quando funções sensíveis são concentradas em um único polo institucional, em nome da urgência ou da eficiência, o risco não é o abuso episódico, mas a reconfiguração silenciosa do sistema de garantias.

É à luz dessa memória constitucional que se deve examinar o tratamento conferido ao chamado devedor contumaz. A repressão a práticas empresariais estruturadas para não pagar tributos encontra fundamento legítimo na proteção da concorrência leal. Não há dúvida de que a inadimplência organizada pode gerar vantagens competitivas artificiais e comprometer a ordem econômica. Essa preocupação é real e constitucionalmente relevante.

O problema surge quando o combate à concorrência desleal é deslocado para um órgão que não detém competência institucional para realizar esse juízo. O art. 16 da Lei Complementar nº 225/2026 atribui à Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil a caracterização do devedor contumaz, sua inclusão em cadastros próprios e a divulgação dessa condição, com efeitos que extrapolam a esfera estritamente tributária. Trata-se, na prática, de um juízo com inequívoca natureza concorrencial.

A Receita Federal pode, e deve, atuar como órgão fiscalizador e acusador, produzindo informações, reunindo provas, levantando indícios e apontando estruturas artificiais de inadimplência. Contudo, a avaliação sobre desequilíbrio concorrencial, abuso de poder econômico ou concorrência desleal pertence ao âmbito do Cade, instituição constitucionalmente vocacionada à defesa da ordem econômica. Transferir esse juízo para a autoridade fiscal significa confundir funções e concentrar poderes que, em um Estado de Direito, devem permanecer separados.

Essa preocupação se intensifica no contexto brasileiro, marcado por elevada carga tributária, complexidade normativa e histórica tensão entre Fisco e contribuinte. A administração tributária atua, por desenho institucional, com foco na fiscalização e na arrecadação, o que naturalmente condiciona sua perspectiva e seus critérios de atuação. Não é desejável que o mesmo órgão responsável por autuar e cobrar tributos detenha, simultaneamente, o poder de qualificar condutas como concorrência desleal, com relevantes efeitos econômicos e reputacionais.

É importante reconhecer, ainda, que há setores específicos da economia nos quais práticas ilícitas estruturadas são historicamente recorrentes, como ocorre, por exemplo, nos segmentos de combustíveis e de produtos fumígenos, marcados por falsificação, contrabando e esquemas organizados de evasão fiscal. Nesses contextos, pode haver espaço para instrumentos normativos mais rigorosos, desenhados a partir de suas peculiaridades e riscos próprios.

O que não se mostra constitucionalmente adequado é converter uma legislação pensada para enfrentar delinquência econômica setorial em um regime geral e indistinto, aplicável a todos os contribuintes, independentemente de contexto, setor ou grau de risco. A generalização de mecanismos excepcionais, concebidos para situações-limite, é precisamente o movimento que a experiência constitucional recomenda evitar.

Ainda assim, mesmo nesses setores sensíveis, não se pode prescindir do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa e de um procedimento administrativo e judicial plenamente controlável. O combate a ilícitos graves não autoriza atalhos institucionais nem a supressão de garantias constitucionais mínimas.

A advertência histórica não é retórica. Assim como na experiência de Weimar, na Alemanha, o risco não está na existência de instrumentos jurídicos fortes, mas na sua utilização fora de um arranjo institucional equilibrado. O modelo adequado é o da separação funcional: a Receita identifica e provoca; o Cade analisa e decide.

Fora disso, corre-se o risco de normalizar um deslocamento de competências que, embora formalmente legal, enfraquece os controles e tensiona os limites constitucionais do sistema.

Cláudio Humberto

"O tarifaço vai destruir quem alimenta o Brasil"

Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência, sobre crise com EUA e China

16/07/2026 07h00

Cláudio Humberto

Cláudio Humberto

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Vieira já ignorou convocação da Câmara três vezes

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, é reincidente no desrespeito aos deputados que representam o povo no Legislativo; já ignorou três convocações da Câmara em ocasiões diferentes.

Ontem, o chanceler de Lula (PT) não apareceu na Comissão de Relações Exteriores para explicar suas afirmações de que a classificação pelos Estados Unidos de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas vai provocar “ação militar dos EUA em território brasileiro”.

Ignorou...

Vieira foi convocado para explicar o asilo à ex-primeira-dama do Peru (condenada por corrupção) e a posição do governo Lula sobre o Irã.

...e dane-se

O Itamaraty não deu resposta oficial à Câmara, ontem, nem explicou a falta. O órgão sugeriu nova data, o que a comissão não aceitou.

Regimento é claro

“Somente comprovação médica ou agenda previamente estabelecida são justificativas”, disse à coluna o deputado Evair de Melo (Rep-ES).

Desqualificado

“Vieira é reincidente, já pode até pedir música. Foram três faltas, o que mais uma vez o desqualifica para o cargo”, criticou Melo.

Alvo central do STF contra emendas é mesmo Motta

Investigações sobre emendas parlamentares apontam para o presidente da Câmara, Hugo Motta (PB) como alvo central, mesmo com os holofotes iniciais direcionados ao ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (MG). São umbilicalmente ligados.

A investigação indica que nenhuma das manobras atribuídas a Cunha – que não tem mandato – teria sido viável sem ordem da presidência da Câmara. Esse “aval” apontado pela Polícia Federal é o que liga o passado de Cunha ao presente de Motta. 

Pupilo fiel

Motta foi pupilo e soldado fiel de Cunha e integrou sua “tropa e choque” quando o ídolo foi presidente a Câmara entre 2015 e 2016.

Filho político

Hugo Motta é frequentemente descrito em Brasília como “cria” ou “filho político” de Cunha, alguém que ascendeu replicando do ex-presidente. 

Queda de braço

Motta reagiu fortemente à tentativa de “criminalizar a política”, segundo definiu. E promete mobilizar líderes para contestar as decisões do STF.

Ferveu

O clima esquentou entre Júlia Zanatta (PL-SC) e Maria do Rosário (PT-RS). O problema começou com uma plaquinha que a petista apareceu no Plenário, o que é proibido, e depois murmurou “nazista”. Não deu outra.

Não é comigo

A mania de Lula de terceirizar culpa pelos fiascos parece ter se espalhado entre auxiliares. O Ministério da Fazenda projeta inflação em 5,1%, acima do teto da meta. A “culpa”: El Niño e choque do petróleo.

Nunca soube

Foi clara e objetiva a resposta, ao ministro Alexandre de Moraes (STF), dos advogados de Jair Bolsonaro sobre a divulgação da carta assinada pelo ex-presidente, “jamais soube que a carta seria publicizada”.

Mauro amarelou

Mauro Vieira não deu as caras na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, que quer explicações do ministro sobre a baboseira do suposto risco de ação militar dos EUA no Brasil. A desculpa dada pelo chanceler é que estaria em reunião com Lula.

Água secou

Pipocam nas redes sociais canais secos das obras de transposição do Rio São Francisco, sempre inaugurada com pompa por Lula, atrás de votos. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) denuncia: é uma farsa.

Muito além da meta

O próprio Ministério da Fazenda de Lula aumentou para 5,1% a previsão da inflação para 2026. A meta criada pelos próprios petistas, em 2025, era de 3% com teto de 4,5%. Agora admite que vai extrapolar até o teto.

Memória curta

O ministro do STF Flávio Dino determinou que presidentes de partidos “esclareçam” se têm poder sobre emendas. À época que foi membro do Comitê Central do PCdoB, principal órgão de direção do partido comunista, as coisas deveriam funcionar de forma diferente.

PT? Tô fora

Escaldados pelo apoio ao PT em Minas Gerais, em 2018, quando o então governador Fernando Pimentel (PT) levou uma surra do estreante Romeu Zema (Novo), pré-candidatos do PSB fogem de nova aliança com o PT este ano. Se o PSB nacional intervir, deixarão o partido. 

Pensando bem...

...tem partido político que é a Argentina no Brasil.

PODER SEM PUDOR

Gargalhando por dentro

Jânio Quadros estava em campanha para presidente, em 1960, e foi a Sete Lagoas (MG) para um comício com Magalhães Pinto, que disputava o governo de Minas contra Tancredo Neves. No comício, os oradores foram recebidos com ovos e vaias.

A comitiva seguiu para uma cidade vizinha. No carro, Jânio ficou um tempão esperando que Magalhães Pinto dissesse alguma coisa.

Desconfiava que ele estava por trás das vaias e dos ovos. Até que perdeu a paciência com o impassível aliado: “Os mineiros são terríveis. Quando não riem por dentro, riem por fora”.

Cláudio Humberto

"Deixaram lulinha para ser investigado só depois das eleições."

Carlos Jordy (PL-RJ) sobre PF livrar filho de Lula de indiciamento no rolo do INSS

15/07/2026 07h00

Cláudio Humberto

Cláudio Humberto

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Conselho de Ética completa 2 anos de inatividade

Já são dois anos que os senadores desfrutam da inatividade do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, ainda que sobrem escândalos tipo “emendas pix”, dinheiro na cueca ou benesses pagas pelo enrolado Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

A última sessão do colegiado foi em 9 de julho de 2024, desde então, está às moscas. A reunião, a única do ano, também foi pouco produtiva e mandou para o arquivo quatro denúncias e rejeitou outros pedidos de processo disciplinar.

Tá em casa

Os pedidos eram contra Styvenson Valentim (Pode-RN) e dois membros da comissão: Jorge Kajuru (PSB-GO) e Randolfe Rodrigues (PT-AP).

Anfitriões da PF

Na composição do conselho, nomes que já receberam visita da Polícia Federal, como Weverton (PDT-MA), alvo da Operação Sem Desconto.

Conselho Master

Também alvo recente da PF, Ciro Nogueira (PP-PI), suspeito de falcatrua com a chamada “Emenda Master”, é outro membro do conselho.

Quase parando

O histórico não ajuda. Fora a única reunião de 2024, foram duas em 2023, um hiato de quase 4 anos até outras duas sessões em 2019.

Paraná Pesquisas não teme ‘selo de acerto’ do TSE

Instituto que mais tem acertado resultados nas eleições brasileiras, o Paraná Pesquisas não tem medo do Selo de Acerto proposto pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, para homenagear os bons no serviço, em vez de punir os maus.

Vários “especialistas” criticaram a proposta, mas o presidente do Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, gosta da ideia do Selo de Acerto” ou “de Acurácia”, como prefere dizer o magistrado no linguajar do juridiquês.

Prazo é curto

Os institutos poderão apresentar até esta sexta (17) sugestões para as regras do Selo de Acerto. Não terão outra chance este ano.

Regular é preciso

Hidalgo pondera que é preciso regular para que pesquisa datada de 60 ou 90 dias antes da eleição não ser considerada na definição do Selo.

Autorregulamentação

Outra proposta que ganha corpo entre os institutos de pesquisa é a autorregulamentação do setor, como a criação do Conar na publicidade.

Em 2030 tem mais

Após o fim do jogo, Espanha finalista da Copa, a França mergulhou em profundo climão de velório, segundo brasileiros que até torciam pelos franceses, mas estavam fartos das humilhações. Nada como a derrota para restabelecer a humildade. Eles já faziam pose de campeões.

Amor paternal

O senador Rogério Marinho (PL-RN) chama de abuso e perseguição o veto as visitas de Flávio a Jair Bolsonaro. Diz que o ministro “Alexandre de Moraes tenta transformar o amor de um filho em crime político”.

Tiro no pé

Presidente do PL, Valdemar Costa Neto avalia que Flávio Bolsonaro vai subir nas próximas pesquisas de intenção de voto e diz o motivo, “As pessoas não gostam de ver um filho proibido de visitar o pai”.

Cérbero tupiniquim

Com 52,3% de reprovação, O Supremo conseguiu ser mais desaprovado do que o presidente Lula (PT), com 49,7% de reprovação. Mas fica atrás do Congresso, 67%. Os números são da Futura/Apex (BR-07294/2026).

Ajuda suprema

O páreo é duro, mas entre juiz de futebol e juiz do Supremo, fique com o segundo. Gilmar Mendes ostentou nas redes sociais as camisas que ganhou de cartolas Ferroviária de Araraquara e o Íbis Sport Club, com fama mundial que nem o STF dá jeito: é o “Pior Time do Mundo”.

Quanta ignorância

Ao acursar as primeiras-damas de não “trabalharem efetivamente”, Janja rasga a história de Ruth Cardoso, antropóloga, professora universitária, doutora pela USP e coordenadora do programa Comunidade Solidária.

Centro das informações

Rebatizado de ‘X’ por Elon Musk, o Twitter completa 20 anos nesta quarta (15). É uma das maiores redes sociais do mundo. Com mais de meio bilhão de usuários, são cerca de 5,8 mil postagens por segundo.

‘Extraordinário’ é comum

Estavam na pauta da Câmara, ontem (14), seis medidas provisórias de Lula, todas de crédito extraordinário para ministérios: de R$337 milhões para o Meio Ambiente a R$20 milhões para o Desenvolvimento Agrário.

Pensando bem...

...ética e decoro parecem mesmo que viraram só um conselho.

PODER SEM PUDOR

Lição fulminante

O então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, não hesitou quando soube da morte súbita do senador Onofre Quinan, de Goiás, e tocou o telefone para o então presidente da Casa, Antônio Carlos Magalhães, às 6h da manhã.

“Estou ligando para comunicar a morte do senador Onofre Quinan.” Na outra ponta da linha, tonto de sono, mas, já irritado, ACM devolveu: “Sim, Agaciel, e o que é que eu posso fazer?!” Agaciel Maia aprendeu que não se deve tirar um baiano da cama tão cedo.

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