Colunistas

CLÁUDIO HUMBERTO

"Não teria a menor possibilidade de ser assinado pelo presidente"

Jurista Ives Gandra Filho acredita que a minuta de decreto de estado de defesa encontrada com Anderson Torres seria rejeitada por Jair Bolsonaro

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Protestos no Peru matam 50 e não são ‘terrorismo’

É no mínimo curiosa a falta de adjetivos criativos em torno do noticiário, no Brasil, sobre os protestos políticos violentos no Peru. Manifestantes de esquerda pedem a dissolução do Congresso, além da soltura do ex-presidente Pedro Castillo, preso por tentar um golpe de Estado no fim de 2022.

Os protestos peruanos que provocaram quase 50 mortes não são coisa de “golpistas” ou “terroristas”, nas manchetes brasileiras. Bem ao contrário das alusões ao badernaço do dia (8) em Brasília, sem mortes.

Autoritarismo à espreita

No Peru, como em qualquer democracia, protestos saem do controle, mas o desafio é não permitir que sejam pretexto para surtos autoritários.

Contra a morte de 3 curdos

No Natal, atos em Paris contra a morte de 3 curdos feriram centenas, com vandalismo, incêndios. Não se falou em “terrorismo”, lá e nem aqui.

Pretexto para vingança

O vandalismo em Brasília foi inaceitável e os responsáveis devem ser punidos, mas seu uso oportunista tem servido a vinganças e retaliações.

Escalada autoritária

O direito à livre manifestação, inclusive de ideias, é valor inegociável na democracia, mas no Brasil tem sido relativizado sem freios ou oposição.

Restrição à reunião pública foi pilar do AI-5

O Ato Institucional nº5 (AI-5) é unanimidade entre juristas e historiadores como o mais duro golpe da ditadura contra direitos fundamentais no Brasil. Marcou o início dos anos de chumbo e serviu como pilar da legislação autoritária do regime militar.

A primeira ordem do AI-5 foi dissolver o Congresso, e deu ao presidente da República o poder de intervenção nos governos estaduais e de cassar os direitos de cidadãos

Lembrar é preciso

Como descreveu Elio Gaspari no magnífico "A Ditadura Escancarada" (ed. Intrínseca, SP, 592 pp., 2014), o AI-5 oficializou a ditadura no Brasil.

Soa familiar?

Com o AI-5, o governo pode restringir manifestações e reuniões públicas, impor censura prévia à imprensa e às artes e confiscar bens por decreto.

Outra semelhança

Um cacoete da ditadura era se referir a opositores como “subversivos” ou “terroristas”, com o intuito de endurecer medidas repressivas.

Sempre foi assim

No Ato Institucional nº 5, a ditadura militar no Brasil chamou a dissolução do Congresso Nacional de “recesso decretado” e a cassação de direitos políticos de cidadãos e representantes eleitos era apenas “suspensão”.

Outra culatra

Além de provar que Lula foi o presidente que mais gastou com cartões corporativos na História, a quebra do sigilo dos cartões da Presidência revelou que o “golpista” Michel Temer (MDB) foi quem menos gastou.

Era só boataria

Pouco fez o caríssimo aparato policial exibido para proteger os Três Poderes na quarta-feira (11), que sumiu no domingo (8). Foram viaturas, centenas de homens e helicópteros para monitorar... dois manifestantes.

Segundas intenções

O PT pernambucano tenta as pazes com PSB local e, por que não, levar uns cargos na Prefeitura de João Campos. O último azedume entre as siglas teve Marília Arraes, ex-PT, como pivô. Foi nas eleições estaduais.

Vida curta

O pedido de prisão por “omissão” que o deputado federal eleito Nikolas Ferreira (PL-MG) pediu contra o ministro Flávio Dino não rendeu. Bateu na mesa do ministro Alexandre de Moraes (STF) e foi direto ao arquivo.

Apoio público

Ibaneis Rocha vê crescer o apoio entre servidores e políticos. São várias as correntes e publicações em defesa do governador do DF. O deputado distrital Roberio Negreiros (PSD) foi um que saiu em defesa de Ibaneis.

Tom ameno (e tardio)

O ex-presidente Bolsonaro voltou às redes sociais para comemorar o resultado oficial de que a inflação no Brasil fechou 2022, pela primeira vez na História, abaixo da inflação dos EUA e da zona do Euro.

Inquietação financeira

A Ibovespa fechou a sexta-feira, 13, em queda. Somou-se a desconfiança que investidores têm de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda ao rombo de R$ 20 bilhões nas contas das lojas Americanas.

Perguntar não é golpe

As restrições ao direito de reunião irão incluir a posse de autoridades do governo Lula com direito a discurso inflamado de ministro do STF?

PODER SEM PUDOR

Inocêncio, o cangaceiro

Baixou o espírito de Lampião em Inocêncio Oliveira, sertanejo de Serra Talhada (PE) como o célebre cangaceiro. Então primeiro vice-presidente da Câmara, ele chegou ao plenário quando a sessão era presidida por João Caldas (PL-AL), que ficou enrolando e não lhe passou o lugar.

Inocêncio nem se intimidou com a transmissão da TV Câmara, ao vivo: “Ou você sai daí agora ou vai sair debaixo de porrada!”. A turma do “deixa disso” entrou em ação, levando Inocêncio para tomar chá de maracujá, enquanto outros retiravam Caldas da cadeira da presidência.

Escreva a legenda aqui

CLAÚDIO HUMBERTO

"O supermercado virou o retrato do fracasso de Lula."

Senador Rogerio Marinho (PL-RN), sobre a inflação que corrói a renda do brasileiro

22/07/2026 07h00

Cláudio Humberto

Cláudio Humberto

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PT quer usar Ciro para blindar Jaques Wagner

Petistas sabem que a investigação envolvendo o Banco Master e Jaques Wagner vai ser tema central na campanha, mas não esperavam que a intimação ao ex-líder de Lula para explicar à Polícia Federal a confusão, em 7 de agosto, seria só dois dias após o prazo para convenções partidárias. No PT, a esperança é de que a situação de Ciro Nogueira (PP-PI) seja pior do que a do senador baiano e já que ele foi ministro de Jair Bolsonaro, a ideia é que a relação enrole a oposição no escândalo.

Menos pior

A aposta no PT é que o escândalo do Master é pluripartidário e não deve sequestrar o noticiário. A estratégia, por ora, é foco no tarifaço.

Filme queimado

A preocupação é tentar preservar o palanque de Lula na Bahia e evitar o climão na convenção do PT baiano, marcada para 1º de agosto. 

O pai é outro

O senador do Piauí é o autor do que ficou conhecido como “Emenda Master”, por beneficiar os negócios de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

PT gostou

Entre a batida da PF na casa de Wagner e o depoimento, haverá hiato de cerca de dois meses e meio, tempo longo neste tipo de investigação.

Só China e Canadá mantêm retaliação aos EUA

A ideia defendida por setores do governo Lula e do PT de aplicar tarifas retaliatórias contra os Estados Unidos foi rejeitada mundo afora. Apenas dois países mantêm sanções tarifárias em retaliação à taxação americana: a China, única economia do mundo capaz de encarar os EUA, e o vizinho americano Canadá, que voltou a ser alvo do governo Donald Trump e sofreu nova rodada de tarifas, assim como o Brasil. Todos os outros países (e até blocos) desistiram da ideia de jerico.

Futuro vislumbrado

A nova rodada de tarifas de 50% dos EUA sobre produtos canadenses foi classificada como “reciprocidade” pelo governo americano.

Nem em bloco

Na União Europeia, por exemplo, tarifas retaliatórias foram sugeridas e ameaçadas, mas a negociação com os EUA prevaleceu.

Nem os grandes

A Índia chegou a considerar a retaliação, voltou atrás após negociar. Japão, Reino Unido, Coreia do Sul e até o México não retaliaram.

Tá valendo

Entra em vigor, nesta quarta-feira (22), o tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros que entram por lá. Com a medida, apenas a China é mais taxada do que o Brasil pelos EUA.

A ver

Nova pesquisa nacional Datafolha para presidente será divulgada na sexta-feira (24). É a primeira desde o anúncio do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, que vai premiar o instituto que mais acerta.

Nenhuma conexão?

A Polícia Federal anunciou que decidiu demitir Eduardo Bolsonaro por “abandono de cargo” menos de 24h depois da decisão do governo dos EUA de conceder residência permanente (green card) ao ex-deputado.

Caiado à frente

Levantamento Realtime Bigdata (BR-05864/2024), divulgado nessa terça-feira (21), mostra apenas um candidato numericamente à frente de Lula (PT) em um eventual segundo turno: Ronaldo Caiado (PSD).

Não entra mosca

Vez ou outra o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, solta declaração que parece encomenda dos adversários. Desta vez, disse que “Flávio não estava preparado para ser candidato” quando foi escolhido pelo pai.

Fórum de Avaré

A turma da pré-campanha de Tarcísio de Freitas (Rep) mapeia quem são os prefeitos que estiveram com Fernando Haddad (PT) em Avaré (SP), no fim de maio, e se queixaram do governador de São Paulo. 

Sem resposta

Michelle Bolsonaro ainda não deu resposta se vai ou não à convenção nacional do PL que vai oficializar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. No partido, o clima é de que a presença é “improvável”.

Série de impactos

O advogado Leandro Marmo alerta que, mesmo os produtos isentos pelos EUA devem ser afetados pelo tarifaço, com alta nos custos de insumos importados e perda de competitividade para o agro brasileiro.

Pensando bem...

...o ‘calaboca já morreu’, mas é morto-vivo no período eleitoral.

PODER SEM PUDOR

Cláudio Humberto

O pistolão certo

O talentoso jornalista Mauro Santayana acabara de ser nomeado adido cultural à embaixada do Brasil em Roma, nos anos 80. Um belo cargo, no belo Palácio Doria Pamphilij, sede da nossa embaixada na Piazza Navona, centro de Roma. Um amigo encontrou Santayana e foi logo gozando: “Puxa, esse é o emprego que pedi a Deus!...”. O jornalista respondeu na bucha: “Acho que você pediu ao cara errado. Quem me nomeou foi o presidente José Sarney”.

crônica

Viagem a Bonito

21/07/2026 10h15

Arquivo

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Parem todos os carros. Limpem a estrada. Não deixem sequer os bichos atravessarem de um lado para o outro. Fechem todos os buracos, retirem as pedras do caminho, os galhos caídos e os animais mortos por motoristas descuidados. Proíbam a circulação de caminhões e carretas. De bicicletas, carroças e até de pedestres também.

Os 296 quilômetros devem ser iluminados por imensos holofotes. Não poderá haver sombra alguma na estrada. Nem chuva, por favor. Nas paradas, vigiem o motorista diante do bufê: que ele coma apenas o necessário para não pesar o estômago nem sentir sono. A música, se houver, deverá tocar em volume mínimo. Nada que distraia quem está ao volante. As conversas seguirão a mesma regra.

Que o espírito de todos esteja leve. Melhor ainda se fizerem suas preces. Se dormirem, que o sono seja tranquilo e sem pesadelos. Que ninguém discuta nem faça brincadeiras que desviem a atenção dos demais. Imaginemos anjos guardando o veículo durante todo o percurso. É assim que atravesso — e suporto — as horas de agonia na estrada.

Não durmo desde a véspera da viagem, me transformo numa espécie de zumbi durante a estadia e volto um caco. Nada me comove, nada me distrai. Meus nervos não relaxam. Sou incapaz de enxergar beleza no trajeto ou entusiasmo no destino. Levo dias para recuperar o físico e a sanidade. A estrada é um sacrifício do qual fujo sempre que posso. Não me diverte, não me dá prazer. Invejo os que desfrutam do caminho e celebram a chegada. Para mim, partida e chegada são apenas extremos do mesmo caos emocional.

E não, não carrego traumas nem experiências dolorosas. Sou feita de medos ancestrais, sem causa aparente. Sempre foi assim. Desde que me entendo por gente, esses temores me acompanham. Sou como aquelas latas amarradas ao para-choque dos carros dos recém-casados. As latas sou eu: condenada a seguir o veículo aos solavancos, produzindo um ruído infernal para alegria dos noivos.

Estradas, para mim, são como fantasmas. À noite, com minha miopia, vejo-os surgir em cada curva. Durante o dia, transformam-se em monstros prontos para atacar a cada ultrapassagem. Por isso não tiro os olhos da pista, vigio cada movimento do motorista e acompanho cada manobra como quem fiscaliza um voo em turbulência. Se possível, puxo conversa para me certificar de que ele continua atento.

— Viu a curva?

— Essa ultrapassagem não está apertada demais?

— A chuva não está ficando forte?

E, por fim, a pergunta inevitável:

— Vai demorar muito para chegar?

Parem todos os carros. Construam ferrovias. Façam voltar os trens. 

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