Parem todos os carros. Limpem a estrada. Não deixem sequer os bichos atravessarem de um lado para o outro. Fechem todos os buracos, retirem as pedras do caminho, os galhos caídos e os animais mortos por motoristas descuidados. Proíbam a circulação de caminhões e carretas. De bicicletas, carroças e até de pedestres também.
Os 296 quilômetros devem ser iluminados por imensos holofotes. Não poderá haver sombra alguma na estrada. Nem chuva, por favor. Nas paradas, vigiem o motorista diante do bufê: que ele coma apenas o necessário para não pesar o estômago nem sentir sono. A música, se houver, deverá tocar em volume mínimo. Nada que distraia quem está ao volante. As conversas seguirão a mesma regra.
Que o espírito de todos esteja leve. Melhor ainda se fizerem suas preces. Se dormirem, que o sono seja tranquilo e sem pesadelos. Que ninguém discuta nem faça brincadeiras que desviem a atenção dos demais. Imaginemos anjos guardando o veículo durante todo o percurso. É assim que atravesso — e suporto — as horas de agonia na estrada.
Não durmo desde a véspera da viagem, me transformo numa espécie de zumbi durante a estadia e volto um caco. Nada me comove, nada me distrai. Meus nervos não relaxam. Sou incapaz de enxergar beleza no trajeto ou entusiasmo no destino. Levo dias para recuperar o físico e a sanidade. A estrada é um sacrifício do qual fujo sempre que posso. Não me diverte, não me dá prazer. Invejo os que desfrutam do caminho e celebram a chegada. Para mim, partida e chegada são apenas extremos do mesmo caos emocional.
E não, não carrego traumas nem experiências dolorosas. Sou feita de medos ancestrais, sem causa aparente. Sempre foi assim. Desde que me entendo por gente, esses temores me acompanham. Sou como aquelas latas amarradas ao para-choque dos carros dos recém-casados. As latas sou eu: condenada a seguir o veículo aos solavancos, produzindo um ruído infernal para alegria dos noivos.
Estradas, para mim, são como fantasmas. À noite, com minha miopia, vejo-os surgir em cada curva. Durante o dia, transformam-se em monstros prontos para atacar a cada ultrapassagem. Por isso não tiro os olhos da pista, vigio cada movimento do motorista e acompanho cada manobra como quem fiscaliza um voo em turbulência. Se possível, puxo conversa para me certificar de que ele continua atento.
— Viu a curva?
— Essa ultrapassagem não está apertada demais?
— A chuva não está ficando forte?
E, por fim, a pergunta inevitável:
— Vai demorar muito para chegar?
Parem todos os carros. Construam ferrovias. Façam voltar os trens.




