Luiz Carlos Pais - Professor aposentado
Quando chega esse tempo seco no Centro-Oeste, é oportuno relembrar a importância de valorizar as efetivas práticas da sustentabilidade econômica, social e ambiental. O que pode ser feito pelas escolhas individuais, políticas e coletivas de cada tempo e contexto.
Com base nesse princípio, retornamos à história do velho rego-d’água que existiu, há mais de um século, em Campo Grande, atual Mato Grosso do Sul.
Antes da criação do município, pela resolução nº 225, de 26 de agosto de 1899, o velho rego-d’água foi construído pelos moradores do arraial fundado por José Antônio Pereira.
A manutenção da importante obra dependia da consciência coletiva para que a população pudesse se servir do precioso líquido. Entre os autores que escreveram, nos anos 1930, sobre essa história estava o professor e contador João Evangelista Vieira de Almeida.
Seus textos históricos eram escritos com base em memórias registradas em cadernos e papéis deixados pelo seu pai, o culto comerciante e farmacêutico prático Joaquim Vieira de Almeida, que também foi redator de vários documentos, contratos, atas, ofícios e requerimentos de interesse do povoado.
Com um metro de largura e cerca de dois quilômetros de comprimento, suas águas eram coletadas em um bosque próximo à cabeceira do Prosa, nas imediações do atual Parque das Nações Indígenas.
Acompanha a margem direita do córrego até onde ainda resiste a Cachoeirinha, hoje quase escondida entre os edifícios da região.
Desse ponto, o rego acompanha o declive do terreno no alinhamento que, anos depois, serviu de referência para o traçado da Rua 15 de Novembro. Depois de servir várias casas, as águas eram devolvidas ao Córrego Segredo, um pouco abaixo do atual Mercadão Municipal.
Emílio Garcia Barbosa, no seu livro “Esboço Histórico e Divagações sobre Campo Grande”, publicado em 1964, também descreve memórias dessa que foi uma das primeiras obras comunitárias do arraial.
Após a elevação do distrito à categoria de vila, o uso do velho rego foi regulamentado no código de postura municipal, aprovado em 23 de janeiro de 1905. Os moradores não poderiam, de forma alguma, sujar a água ou nela lavar roupas ou outros objetos de modo a prejudicar o benefício coletivo.
Quando foi aprovado o referido código, Manuel Inácio de Souza exercia o cargo de intendente-geral (prefeito) do município e ficou encarregado de mandar fiscalizar o fiel cumprimento das regras para o bom uso da principal fonte de água da população.
Os moradores que quisessem se servir do rego eram obrigados a fazer pequenos regos laterais até as suas casas, cuidando de cobri-los com madeira para não dificultar a passagem de pessoas, animais e carroças.
Nos anos seguintes, há indicações de sérios conflitos entre alguns moradores por conta do uso indevido dessa antiga benfeitoria. No fim da primeira década do século 20, depois de um acirrado debate travado pelos vereadores, foi aprovada a extinção do velho rego e o seu completo aterramento. Havia então chegado o tempo de construir a primeira rede de encanamento para captação e distribuição de água da cidade.
Mas o problema do abastecimento de água ainda persistiria por várias décadas, até chegar na Cidade Morena dos nossos dias.




