Política

ENTREVISTA

'O PMDB deve começar a repudiar algumas predileções do petismo', diz Fábio Trad

'O PMDB deve começar a repudiar algumas predileções do petismo', diz Fábio Trad

MILENA CRESTANI

23/03/2014 - 18h30
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A tensa relação entre PT e PMDB, aliados em nível nacional e rivais históricos em Mato Grosso do Sul, é um dos temas desta entrevista com o deputado federal Fábio Trad (PMDB). Atualmente, há um inconformismo dentro do partido que não concorda com algumas preferências do governo petista, e muitos políticos já não se sentem representados pela cúpula. Segundo o parlamentar, há clara divergência entre as ideologias, o que gera uma percepção de que o PT tem pelo PMDB apenas apreço pela quantidade de tempo na TV. Saindo do tensionamento no campo político, Fábio Trad tem se destacado em seu mandato, como um dos campeões de presença nas sessões da Câmara e pela presidência da comissão do novo Código de Processo Civil, considerado o projeto mais importante da legislatura.

O senhor foi considerado pelo DIAP como o mais atuante deputado federal de MS e um dos campeões de presença nas sessões da Câmara dos Deputados, no ano passado. Como destaca o trabalho que está executando?

Vou às sessões porque devo, posso – Deus me dá a graça da saúde – e gosto. Acho que exercer um mandato compreende a vigilância permanente dos temas debatidos e votados no Parlamento. São projetos que têm a força de mudar a vida das pessoas. Estar presente nas sessões é a única forma de atuar para mudar os rumos de discussões, influenciando na votação. Meu trabalho parlamentar busca espaços políticos para aprovar projetos que melhorem a vida dos meus semelhantes. Sem esse objetivo, parece-me que a política não tem sentido algum.

Quais atividades desenvolvidas o credenciam para concorrer novamente ao cargo de deputado federal?

Procuro me afastar deste raso consequencialismo, porque reduz a dimensão política do trabalho parlamentar. Se eu reduzisse o mandato à preocupação obsessiva com a reeleição, perderia a autonomia para atuar de acordo com meus princípios e convicções, e passaria a dialogar com o oportunismo. Meu foco está em contribuir modestamente com o resgate da credibilidade da política por meio do trabalho parlamentar, com resultados efetivos na vida das pessoas. Muitas leis aprovadas para as quais contribui com meu esforço e dedicação já estão em vigor, beneficiando milhões de brasileiros. Isto é o que importa.

Em fevereiro, o senhor assumiu a vice-presidência da Comissão de Constituição e Justiça, considerada a mais importante da Casa. Quais são os principais desafios nesta função?

O principal desafio é o tempo. Este ano é atípico (Copa e eleições), por isso defendo posição mais proativa e audaciosa da comissão, para intensificar uma pauta arrojada de votações de projetos que, aprovados, melhorem a vida das pessoas. Tem um vasto campo temático para explorar na CCJ a fim de atender às demandas da população. Temos que trafegar por este caminho. Lembro-me que, quando assumi a presidência da comissão do novo Código de Processo Civil, muita gente dizia que eu não conseguiria fazer o projeto andar porque ele é muito complexo, extenso e atinge muitos interesses poderosos. Graças às bênçãos divinas, tive a felicidade de conseguir sensibilizar o colégio de líderes e o presidente Henrique Alves para a magnitude do projeto e, hoje, ele é considerado o principal projeto de lei de toda a legislatura.

Recentemente, o PMDB declarou posição de independência em relação ao governo federal. Esse posicionamento já está definido?

A aliança nacional entre PT e PMDB precisa ser constantemente discutida para reavaliações de sua qualidade política. Sempre considerei que aliança política é comunhão de poder e compartilhamento de responsabilidades. Há momentos em que o PMDB precisa frear as pretensões hegemônicas decorrentes da vocação monopolista do “petismo” para que a democracia seja garantida pelo equilíbrio das forças políticas. Mas o problema maior é a falta de sinergia ideológica entre os partidos que se agrava com o acirramento das disputas eleitorais em vários Estados da Federação. Há, igualmente, uma forte percepção de que o PT tem pelo PMDB apenas apreço por sua quantidade de tempo na TV e não por sua expressão ideológica.

Na sua avaliação, qual deve ser a principal consequência de eventual ruptura da aliança com o PT, principalmente nas eleições deste ano?

Não acredito, por enquanto, em ruptura, porque ainda prevalecem no PMDB forças que preferem a zona de conforto do poder ao fortalecimento substantivo do partido enquanto expressão ideológica. Porém, focos de inconformismo dentro do partido são cada vez mais numerosos e protagonizados por uma nova geração de políticos, que não se sentem representados pela cúpula. Tenho a impressão de que um processo de transformação ocorre nas entranhas do PMDB e, em breve, novas forças passarão a ditar os rumos do partido.

O PMDB caminha para formalizar quais alianças no pleito deste ano?

Defendo um diálogo com as forças ideológicas do centro. Acho que o PMDB precisa ter coragem para abrir novos horizontes políticos. O PT e o governo federal têm virtudes, mas o “petismo”, que é diferente, precisa ouvir algumas verdades do PMDB se quiser, de fato, que a aliança seja honesta politicamente. Acho que o PMDB deve começar por repudiar expressamente algumas claras predileções do “petismo” reveladas, por exemplo, na leniência com o desrespeito ao direito de propriedade, na afrouxada postura de combate ao crime, na anêmica disposição de fortalecer e valorizar as carreiras de estado, na dúbia política em relação à repressão ao uso e comércio de drogas, no confuso posicionamento em relação à Cuba e Venezuela, na tímida defesa dos valores centrais da família, enfim, muitos pontos que tensionam a relação com o PT e precisam ser postos na mesa. O PMDB tem que abrir o jogo e falar abertamente com o PT a respeito destes focos de tensão. Não aceito chamar de casamento uma relação entre quem não dialoga durante o dia e à noite dorme em quartos separados.

O PT declarou que deve mesmo unir-se ao PSDB nas eleições. O PMDB ainda mantém interesse em aliar-se aos tucanos?

Nos anos em que PMDB e PSDB se uniram, viu-se progresso, harmonia e crescimento na administração. Milhares de pessoas foram beneficiadas com a aliança entre PMDB e PSDB. Campo Grande é prova desta afirmação. Acho que a união entre PMDB e PSDB seria mais respeitosa com a história dos dois partidos e mais coerente no plano ideológico, mas não me cabe dizer o que o PSDB deve ou não fazer. Posso e devo constatar, porém, que, na Câmara e no Senado, PT e PSDB não se misturam, vivem às turras e divergem em quase todos os temas, inclusive aos sábados, domingos, feriados e dias santos. Água e óleo.

Como avalia os acontecimentos recentes em Campo Grande, que resultaram na cassação do prefeito Alcides Bernal?

Não tenho razões para descrer do juízo político dos vereadores e vereadoras do SDD, PSDB, PSD, PSB, PT do B, PSC, PMDB, DEM, PR, PSL, PRB e do próprio PP que, por maioria absoluta, concluíram que houve infrações administrativas graves. Sobre a postura política do ex-prefeito, parece-me que errou na estratégia política de governar sozinho. Ganhar sozinho é possível; governar sozinho, não. Não se governa humilhando e aviltando o Legislativo, porque o centro nervoso da política reside no Parlamento, que é a base sobre a qual se erige todo o edifício do sistema governamental. Acredito que um mandato se constrói todos os dias em um esforço permanente para a sua legitimação. Sem diálogo, não se faz governo e só governa quem respeita a política. 

Eleições 2026

Aldeia de MS declara apoio a Lula e veta campanha de Flávio Bolsonaro

Vice-cacique Ester Salina afirma que decisão foi tomada pela comunidade para defender direitos indígenas e o território

10/10/2026 16h15

Aldeia  Pirajuí, em Paranhos

Aldeia Pirajuí, em Paranhos Arquivo Pessoal

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A comunidade indígena da Aldeia Pirajuí, em Paranhos, localizada a 465 km de Campo Grande, decidiu apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2026 e orientou apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) a não entrarem na reserva para fazer campanha eleitoral. Segundo a vice-cacique Ester Salina, a decisão foi tomada pelos próprios moradores, com o objetivo de defender os direitos dos povos indígenas e o território tradicional.

“Primeiramente, nós, povos indígenas, entendemos perfeitamente que a Constituição está em risco, ao distinguir os nossos direitos dos artigos 231 e 232. Sendo assim, a nossa comunidade entendeu muito bem quais riscos estamos correndo se os nossos direitos forem engolidos”, afirmou Ester em entrevista ao Correio do Estado, neste sábado (10).

A vice-cacique disse que a posição da comunidade também considera propostas associadas ao candidato da direita e os possíveis impactos sobre os direitos indígenas, caso ele seja eleito. Ela, porém, não detalhou quais propostas motivaram a preocupação.

Em comunicado divulgado pela comunidade, a Aldeia Pirajuí declara estar “fechada com o Lula no 2º turno” e pede que pessoas interessadas em fazer campanha para Flávio Bolsonaro evitem entrar na reserva.

Aldeia  Pirajuí, em Paranhos

“Em respeito à decisão soberana da comunidade e pela segurança das pessoas que queiram fazer campanha para o 22, orientamos que evitem entrar na Reserva Indígena Aldeia Pirajuí”, diz o texto, que também solicita respeito à decisão dos moradores.

Ester ressaltou que o posicionamento não foi imposto pelas lideranças nem resultado de interferência de grupos ligados aos dois lados da disputa política. Segundo ela, a comunidade deliberou sobre o apoio e as lideranças tiveram de respeitar a escolha.

“Essa decisão foi colocada pela comunidade de Pirajuí. E nós, como liderança, tivemos que acatar a decisão da comunidade”, declarou.

A vice-cacique também negou influência externa na definição do posicionamento eleitoral. “A comunidade tem autonomia suficiente para decidirmos sem intervenção de ninguém dos dois lados. Não teve influência de ninguém, nem da direita nem da esquerda. Só estamos defendendo o nosso direito e território”, afirmou.

A orientação divulgada pela aldeia é direcionada à entrada de pessoas que pretendam fazer campanha para o candidato do PL. O comunicado não detalha como a medida será aplicada nem menciona eventuais episódios anteriores envolvendo representantes de campanhas eleitorais.

Ester acrescentou que a localização da aldeia na fronteira seca e a falta de segurança também influenciaram a decisão. Segundo ela, moradores indígenas enfrentam ameaças e intimidações durante os períodos eleitorais.

“E mais um fato importante que também influenciou a comunidade a tomar essa decisão: nossa aldeia está localizada na fronteira seca, onde não temos segurança suficiente. Nós sabemos o perigo que nossos eleitores correm a cada eleição, por meio de ameaças e intimidações dos não indígenas”, finalizou.

IMPASSE ELEITORAL

Disputas judiciais podem gerar alteração em três cadeiras da Assembleia Legislativa

Jamilson tenta validar votos no TSE, enquanto as situações de Guerreiro e Lidio podem provocar outras mudanças

10/10/2026 08h00

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A composição da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems) para a legislatura de 2027 a 2030 ainda pode sofrer alterações, em razão de questões judiciais envolvendo o deputado estadual Jamilson Name (PP), o deputado estadual eleito Ângelo Guerreiro (PSDB) e o deputado estadual reeleito Lidio Lopes (Avante).

Conforme apuração do Correio do Estado, até esta sexta-feira ainda não havia decisões que efetivassem as substituições projetadas após a eleição de domingo, porém, as disputas judiciais que podem alterar três cadeiras da Casa de Leis podem se estender além da diplomação e da posse dos deputados eleitos e reeleitos. 

Os possíveis beneficiados, porém, evitam comentar a perspectiva de assumir um mandato por decisão judicial. O vereador campo-grandense Silvio Pitu (PSDB), apontado como possível substituto de Guerreiro, afirmou que não acompanha a questão.

Já o deputado estadual Junior Mochi (MDB), que poderia conquistar uma cadeira em um cenário de anulação dos votos de Lidio por suposta compra de votos, também preferiu não se manifestar.

RECURSO NO TSE

A movimentação judicial mais concreta envolve Jamilson Name, que recebeu 35.211 votos, atualmente sub judice. Sua defesa apresentou agravo interno contra a decisão do ministro Sebastião Reis Júnior, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que indeferiu o registro de candidatura após recurso do Ministério Público Eleitoral (MPE).

Os advogados pediram urgência na análise pelo plenário, o restabelecimento do registro e o aproveitamento dos votos, além das providências necessárias para retotalização, diplomação e exercício do mandato.

A defesa sustenta que a votação obtida reforça a necessidade de uma definição do colegiado, embora não substitua o exame jurídico da candidatura.

No recurso, os advogados também contestam a fundamentação utilizada para barrar o registro. Argumentam que não foi demonstrada a integração da estrutura econômica atribuída ao parlamentar à organização armada investigada em outro processo nem interferência concreta dessa estrutura nas eleições.

Se os votos de Jamilson forem validados, a projeção aponta sua entrada na lista de eleitos e a passagem do deputado estadual reeleito Marcio Fernandes (PL) à suplência.

Nesse cenário, o PL cairia de nove para oito deputados, enquanto a Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, ampliaria a bancada de quatro para cinco parlamentares.

Marcio, por sua vez, afirmou na terça-feira que considera sua eleição confirmada pelo resultado divulgado e aguarda a definição judicial. “Eu estou eleito, cabe à Justiça definir o que vai acontecer para a frente, só Deus sabe. Eu estou eleito”, declarou.

GUERREIRO E PITU

Ex-prefeito de Três Lagoas, Ângelo Guerreiro permanece com o registro de candidatura apresentado como deferido na atualização consultada.

A discussão envolve os possíveis efeitos eleitorais da condenação por improbidade administrativa relacionada a contratos de coleta de lixo durante sua gestão na prefeitura municipal.

Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) rejeitou um pedido de suspensão da candidatura, mas não resolveu o mérito de eventual inelegibilidade decorrente da condenação.

A defesa anunciou recursos contra o julgamento na Justiça estadual, alegando nulidades processuais e buscando a reforma da decisão.

A possível entrada de Pitu depende de Guerreiro ser impedido de ocupar a cadeira e de seus votos permanecerem válidos para a Federação PSDB-Cidadania. Se houver anulação da votação, os efeitos poderão alcançar a distribuição de vagas entre as legendas, exigindo outro cálculo.

Procurado para comentar o cenário, Pitu destacou o desempenho eleitoral do correligionário e lamentou que a federação não tenha conquistado mais uma cadeira. “O Ângelo Guerreiro foi muito bem votado. Não estou acompanhando isso. Prefiro não comentar. Lamento muitíssimo o PSDB não ter eleito quatro”, afirmou.

LIDIO E MOCHI

No caso de Lidio Lopes, a possibilidade de mudança está relacionada à suspeita de compra de votos envolvendo um assessor de sua equipe. O deputado negou participação e atribuiu o episódio a uma ação isolada do funcionário.

ão há decisão de cassação ou anulação de votos confirmada nas informações reunidas.

A projeção apresentada à reportagem considera que uma eventual cassação acompanhada da anulação dos votos de Lidio poderia beneficiar Junior Mochi. Nessa hipótese, o Avante perderia sua única cadeira e o MDB passaria de um para dois representantes.

A vaga, entretanto, não seria transferida automaticamente. A retirada dos votos exigiria nova totalização e recálculo da distribuição das cadeiras entre partidos e federações. Mochi evitou avaliar a possibilidade de retornar à Assembleia por esse caminho. “Não quero comentar. Essa questão cabe ao Judiciário”, disse.

PRAZOS

A diplomação e a posse não encerram, por si só, as possibilidades de mudança na Assembleia Legislativa. A legislação estabelece prazos para apresentar as contestações, mas o julgamento de uma ação proposta dentro do período permitido pode ocorrer já no mandato.

Ações de investigação judicial eleitoral por abuso de poder e representações por compra de votos podem ser apresentadas até a diplomação.

O recurso contra expedição de diploma, restrito às hipóteses legais de inelegibilidade e falta de condição de elegibilidade, tem prazo, em regra, de três dias contados da diplomação.

Já a ação de impugnação de mandato eletivo, fundamentada em abuso de poder econômico, corrupção ou fraude, pode ser proposta até 15 dias depois da diplomação. Esses prazos não representam uma data obrigatória para conclusão dos processos.

No caso de Jamilson, a discussão sobre o registro já está em andamento no TSE. Nos demais cenários, eventual alteração dependerá das medidas cabíveis, das provas e dos efeitos das decisões.

Assim, os deputados podem tomar posse e ainda enfrentar questionamentos capazes de modificar a composição da Casa ao longo da legislatura.

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