Artigos e Opinião

Editorial

Amigo de uma vida no mundo dos políticos

Será que algum político realmente acreditava que Vorcaro e Ciro Nogueira eram realmente apenas amigos?

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Desde que veio a público a declaração de Daniel Vorcaro classificando o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, como “um grande amigo de vida”, estava claro, até para alguém que não é especialista em entender o mundo da política, que esta amizade não era gratuita.

A prova disso tinha sido a tentativa do senador do Piauí de emplacar um projeto que elevava de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra de algum banco.

Mesmo assim, a classe política continuava fazendo de conta que Vorcaro tinha feito aquelas declarações porque realmente nutria um afeto genuíno e ímpar pelo político. As aplicações financeiras bilionárias de fundos públicos no Master feitas por Rio de Janeiro, Amapá, Amazonas e até Campo Grande, neste caso, haviam sido mera coincidência. 

O partido que ele comanda recebeu uma infinidade de filiações, como se realmente fosse o arauto do “Deus, pátria e família”. O pré-candidato à Presidência deste mesmo grupo continuou cortejando-o para ser seu vice, e Nogueira, aparentemente, levou adiante sua vida como se realmente fosse um dos melhores líderes dos chamados homens de bem. 

Se as declarações do ex-banqueiro Vorcaro, que vieram a público em meados de novembro do ano passado, não significaram nada de relevante ou intrigante para todos esses políticos, que mais do que ninguém conhecem os bastidores e sabem que neste mundo em que vivem não existe amizade gratuita, então, só restam algumas conclusões: ou são muito ingênuos, ou são muito néscios (para não usar o termo burros), ou acreditaram que alguém “passaria pano”, ou tinham explícito interesse em tirar alguma vantagem dessas amizades que um dos mais influentes políticos da atualidade conseguia angariar. 

Criminalmente, a operação da Polícia Federal (PF) que encontrou batom nas mais diferentes vestimentas do senador significa pouco. Até um possível julgamento em última instância, ele continua sendo inocente.

Politicamente, porém, as revelações de que esta “amizade de uma vida” custava supostos R$ 500 mil por mês provocou abalos até agora imensuráveis. Prova deste abalo é o silêncio em uma era em que as redes sociais são palanques extremamente estridentes.

Em Mato Grosso do Sul, deputados, senadores, prefeitos e até governador literalmente fugiram do assunto. Em outras situações, inclusive quando foi encontrado um saco de lixo cheio de cédulas no quarto do líder do PL na Câmara, ele veio a público para se defender e aliados seus transformaram-no em vítima de perseguição política. Desta vez, porém, nem essa alegação está sendo utilizada. 

É bem possível e provável que os dados sobre o senador estivessem nas mãos da PF há semanas ou meses e só vieram a público como forma de reação à derrota imposta ao presidente Lula no Senado na semana anterior, quando seu indicado ao Supremo

Tribunal Federal (STF) foi rejeitado pela maioria. Na guerra política, todos os ataques e contra-ataques tendem a ser friamente calculados, até mesmo quando partem da Polícia Federal. Mas, ao contrário do que ocorre atualmente com o STF, as investidas da PF ainda são passíveis de credibilidade.

No entanto, ela só continuará vigorosa se as próximas revelações bombásticas não vieram com cara nem de ataque e muito menos de contra-ataque. Pelo menos alguma instituição precisa ficar fora dessa guerra, embora essa crença possa se parecer com a mais infantil ingenuidade. 

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ARTIGOS

Por que estamos pagando para fazer amigos?

Empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez

20/07/2026 07h45

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Em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo e, com a aproximação da data, uma pergunta incômoda começa a ecoar nos debates sobre o comportamento contemporâneo: você pagaria para fazer amigos? A maioria das pessoas certamente de pronto diria que não, mas essa resposta tem funcionado apenas na teoria, pois já tem quem lucre com esse novo nicho de mercado.

Nos Estados Unidos, esse fenômeno vem ganhando força, e o cenário é alarmante. Segundo informações do Magnet ABA Therapy, um a cada cinco adultos americanos apresenta um estado mental de solidão crônica.

Globalmente, a geração Z é a mais afetada, com 24% das pessoas de 15 anos ou mais relatando sentimentos significativos de solidão. Diante desse deserto afetivo, o mercado encontrou uma oportunidade: a criação da chamada “economia da conexão”.

Hoje, empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez. Há clubes privados que oferecem uma verdadeira “curadoria” de amizades.

E se você pensa que isso é uma realidade apenas para quem mora fora do Brasil, está enganado.

Em Curitiba, por exemplo, já se multiplicam anúncios de aplicativos com convites como “jantares com desconhecidos” ou “transforme desconhecidos em amigos” – iniciativas desenhadas para ajudar pessoas a romperem o isolamento e a construírem novos laços.

Mas como chegamos a esse ponto? Culpar a pandemia, as telas ou o home office é a saída mais fácil, mas a verdade é mais profunda. Estamos imersos em uma cultura que estimula o sujeito a se desvincular do coletivo.

Sob a ilusão de que “você pode ser o que quiser” e amparados pela promessa de felicidade imediata que vem em cápsula, desaprendemos a conviver e criamos uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração.

Afinal, fazer amigos de verdade exige paciência, concessões e o risco de se machucar, habilidades que fomos desaprendendo a usar em nossa busca por uma vida sem atritos. Assim, o efeito colateral tem sido nos isolarmos em nossas próprias bolhas de autossuficiência.

É aí que a lógica do mercado entra: se você não tem tempo ou habilidade para cultivar laços organicamente, o sistema monetiza essa carência, transformando a vulnerabilidade humana em mais um serviço por assinatura.

O problema é que, ao fazer a amizade seguir a lógica mercantil, passamos a tratá-la sob a regra do descarte: “se der problema”, eu simplesmente cancelo.

O resultado são relações voláteis, sem consistência e sem capacidade de superar dificuldades, o oposto da real condição humana, que é caótica e imperfeita, mas profundamente viva e transformadora.

Ao terceirizarmos nossa sociabilidade para algoritmos e jantares pagos, estamos anestesiando o sintoma sem curar a doença. Estamos trocando o calor do afeto espontâneo pela conveniência de um produto com garantia de satisfação.

Se o afeto vira mercadoria, o outro deixa de ser um igual para se tornar um bem de consumo.

Diante desse cenário em que até o carinho tem preço e a solidão virou modelo de negócios, resta uma última e incômoda reflexão: se passarmos a pagar para que as pessoas nos ouçam e nos aceitem, o que nos garante que o que estamos comprando é mesmo amizade, e não apenas o fim temporário da nossa solidão?

ARTIGOS

A odisseia eleitoral brasileira

Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento

20/07/2026 07h30

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A estreia de “A Odisseia”, adaptação do clássico de Homero, convida a refletir sobre a permanência dos grandes arquétipos da civilização ocidental. Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento.

Conceitos como democracia, política, cidadania, justiça e oikos continuam estruturando a forma como compreendemos o Estado e o exercício do poder, permitindo que a política brasileira também seja interpretada a partir de uma atualização do que vem a ser um novo épico político.

Após a prisão de Jair Bolsonaro, a direita iniciou uma longa travessia em busca de uma nova centralidade política.

Nesse percurso, Flávio Bolsonaro se tornou o personagem encarregado de conduzir essa jornada. Como Ulisses, seu desafio não consiste apenas em derrotar adversários externos, mas, sobretudo, em sobreviver às próprias tempestades internas.

A campanha atravessa disputas regionais, conflitos entre lideranças, divergências sobre candidaturas ao Senado e dificuldades para consolidar um projeto nacional unificado.

As tensões envolvendo Michelle Bolsonaro, os desgastes provocados pelas denúncias que atingiram seu entorno político e a fragmentação crescente do campo conservador funcionam como os monstros da narrativa homérica: obstáculos que retardam a chegada ao destino.

Seu maior desafio, porém, é retornar ao oikos político. Na tradição grega, o oikos não representa apenas a casa física, é o lugar da legitimidade, da autoridade reconhecida e da ordem restaurada. Enquanto Flávio enfrenta sua travessia, Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição distinta.

Diferentemente do filho de Jair Bolsonaro, que ainda percorre o caminho tortuoso da legitimidade, Lula já habita o espaço do poder. Seu maior ativo político, neste momento, talvez não seja a expansão de sua força, mas a incapacidade de seus adversários de concluir a própria jornada.

É justamente nesse ponto que a analogia com Homero revela sua principal inversão. Na epopeia, Ulisses retorna, derrota os pretendentes e restaura a ordem de Ítaca.

Na política, contudo, não existe destino garantido. Quanto mais longa se torna a travessia da direita, maiores são as possibilidades de permanência daquele que já ocupa o oikos. A demora transforma-se em vantagem estratégica para quem governa.

Essa talvez seja a principal contradição do atual cenário político brasileiro. A cultura política parece conservar uma inclinação mais favorável ao campo de centro-direita em temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e valores conservadores, entretanto, essa maioria cultural ainda não conseguiu se converter em unidade política.

A dialética se torna evidente: existe uma tese social favorável à direita, mas uma antítese produzida pela fragmentação de suas lideranças. Sem uma síntese capaz de reorganizar esse campo, o resultado tende a favorecer justamente aquele que ocupa a posição que muitos pretendem conquistar.

Talvez a principal lição de Homero permaneça atual: antes de vencer o adversário, é preciso concluir a própria viagem.

Na política, muitas vezes, o maior obstáculo não está do lado de fora, mas na incapacidade de construir unidade antes de alcançar o destino. E, enquanto a travessia continua, quem já está em casa permanece, ao menos por enquanto, senhor do próprio oikos.

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