Artigos e Opinião

EDITORIAL

Combate à corrupção fortalece instituições

A sociedade não ganha quando a corrupção permanece escondida, ganha quando ela é revelada, investigada e julgada dentro das regras do Estado de Direito

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O trabalho de investigação dos órgãos de controle e de persecução penal é um dos instrumentos mais importantes para preservar o dinheiro público e fortalecer a confiança da sociedade nas instituições.

Nesta edição, o Correio do Estado apresenta novos detalhes da Operação Gutenberg, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que apontam possível expansão de um esquema de corrupção descoberto em Mato Grosso do Sul para outros estados brasileiros.

Se confirmadas, as evidências mostram que a atuação do grupo ultrapassou as fronteiras estaduais e passou a reproduzir um modelo de negócios baseado na fraude e no desvio de recursos públicos.

As investigações indicam que empresas ligadas à editora responsável pela comercialização de livros paradidáticos teriam utilizado contratos firmados sem licitação para vender obras cujos direitos autorais sequer lhes pertenciam.

Tratava-se de materiais disponíveis no mercado, mas apresentados aos gestores públicos como se fossem exclusivos, justificando contratações milionárias por inexigibilidade de licitação. O que já era grave em Mato Grosso do Sul pode ter sido replicado em municípios de outros estados.

A reportagem também revela que operadores do esquema mantinham contato com diversos agentes políticos de Mato Grosso do Sul.

É importante fazer uma distinção indispensável: manter relacionamento com políticos não constitui crime, ao contrário, o exercício da atividade política pressupõe diálogo permanente com lideranças, empresários, entidades e cidadãos.

A representação política se faz justamente por meio dessas relações institucionais e pessoais.

O que desperta atenção, porém, é o contexto em que esses contatos aparecem. Quando conversas e aproximações surgem no curso de uma investigação sobre corrupção, passam a ser elementos que merecem análise criteriosa dos órgãos responsáveis.

Isso não significa atribuir culpa a quem quer que seja, mas reconhecer que as circunstâncias exigem transparência, apuração rigorosa e respeito ao devido processo legal. Julgamentos precipitados são tão nocivos quanto a omissão diante de indícios consistentes.

A Operação Gutenberg cumpre um papel que vai além da responsabilização criminal de eventuais envolvidos.

Ela contribui para moralizar a gestão do orçamento público, desestimula práticas ilícitas e envia uma mensagem clara aos que pretendem enriquecer à custa dos cofres públicos: há instituições capazes de investigar, reunir provas e levar os fatos ao conhecimento da Justiça.

Quanto maior a percepção de que a corrupção será descoberta, menor tende a ser o incentivo para sua prática.

O fortalecimento das instituições depende justamente dessa capacidade de investigar sem distinções e sem receio das consequências políticas. Se outros esquemas semelhantes existirem, é desejável que também venham à tona.

A sociedade não ganha quando a corrupção permanece escondida, ganha quando ela é revelada, investigada e julgada. A transparência e a fiscalização não enfraquecem o poder público, ao contrário, são elas que conferem legitimidade às instituições e reforçam a confiança do cidadão na democracia.

ARTIGOS

A pátria das chuteiras cor-de-rosa

Perdemos para um time fraco de bola e forte de porte físico, o time de "cintura dura" europeu que costumávamos pôr na roda

15/07/2026 07h30

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Na Copa do Catar, eu me permiti colocar a colher no assunto da eliminação da seleção do Tite para a Croácia. Na época, até a monja Cohen deixou seus ares de santidade para esculhambar o Tite, que não colocou o Neymar para bater o primeiro pênalti, na fatídica disputa que nos mandou para casa.

Agora, quatro anos depois, vou meter a minha colher de psiquiatra e psicoterapeuta no angu de mais um vexame para nossa coleção. Perdemos para um time fraco de bola e forte de porte físico. O time de “cintura dura” europeu que costumávamos pôr na roda.

Jogamos fechadinhos, sem posse de bola, como faria o Grêmio Votuporanguense (com todo respeito). E tomamos dois gols na hora que o Ancelotti destruiu o time com a entrada do Neymar. Isso culminando quatro anos de caos, incompetência e mau caratismo que caracteriza nossos dirigentes e CBF.

O time não jogou com os quatro técnicos que teve. Carlo Ancelotti veio com a banca de técnico mais vitorioso da história. Foi para o Carnaval, cantou o hino a plenos pulmões, fez propaganda de cerveja, e o time continuou sem alma, sem pegada, sem ideia de jogo.

Nós brasileiros, com nosso rodrigueano complexo de vira-latas, olhamos para o Carletto e balbuciamos: “Yes, Buana”, e engolimos a convocação com escolhas absurdas e o encaixe de Neymar na vaga de João Pedro, do Chelsea, em muito melhor forma.

Oramos para o time ir ganhando corpo na competição, como foi em 2002. Depois de suar sangue para bater o Japão, perdemos, pela quarta vez, para um europeu na quinta partida da Copa. Mais vira-latas do que nunca.

As pessoas levantam a voz para insultar os jogadores, milionários e que se formam desde cedo no futebol europeu.

Temos, não por acaso, um técnico europeu. Os puristas bradam que perdemos nossa alma brasileira, robotizados pelos esquemas e regras que extinguem a nossa criatividade. E esse debate é mais antigo do que se pensa.

Ganhamos a nossa primeira copa em 1958, depois de duas copas traumáticas: a de 50, que perdemos em casa, e de 54, que perdemos para a melhor Hungria de todos os tempos. Houve um zum-zum racista na CBD que os atletas brasileiros eram mais fracos psicologicamente que os europeus.

Sobretudo, os negros. Escalamos um time só de brancos. Que, obviamente, não funcionou. Os líderes do grupo encostaram no técnico e a seleção mudou de rumo, colocando Didi, Vavá e dois meninos promissores, chamados Garrincha e Pelé. Esse time ganhou a Copa enfileirando goleadas. Surgia aí a “magia brasileira”.

O Brasil entrou no mapa do imaginário mundial com aquela seleção, e o Pelé, depois chamado de Rei, acabou virando o símbolo daquele país jovem e desconhecido, que engatinhava para acertar o passo com o mundo industrial.

Ganhamos três copas e levamos para casa a taça Jules Rimet. Viramos “a pátria de chuteiras”. Nossa identidade e autoestima dependia, e depende, dos nossos poucos heróis. Nossos heróis agora nós vemos pela TV, pois vão embora cedo e se desenvolvem no exterior.

Acho que a nossa principal desadaptação não é de jogar do “jeito brasileiro”, mas de se adaptar à bagunça e aos desmandos da CBF. E, de um sujeito oculto, quem manda no futebol brasileiro: os empresários.

Dito tudo isso, vou falar das “vantagens” da nossa derrota: voltamos para nossa vida comum, os escândalos voltam a ser comentados, e deixamos de procurar por heróis e vilões para exercer o heroísmo onde isso é necessário, que é o de enfrentar os boletos e a luta do nosso dia a dia.

Não precisamos ligar nossa identidade às chuteiras cor-de-rosa que foram moda nessa Copa, usada pela maioria de nossos jogadores. Podemos gostar ou não da cor, ou ter saudade das chuteiras pretas, mas isso não é mais o assunto mais importante.

Nosso viralatismo precisa deixar todos os setores de nossa sociedade e, sobretudo, nosso imaginário. Somos um povo trabalhador que aprende, todo dia, tentando sobreviver ao caos que serve a interesses antigos e ainda predominantes em nosso meio.

Podemos nos orgulhar de trabalharmos duro e construir nossa vida todo dia. Estamos cada vez mais distantes das chuteiras cor-de-rosa e da camisa amarela como única fonte de identidade. Ou de orgulho. Nossa derrota pode ter sido, então, uma libertação.

EDITORIAL

O valor do asfalto bem cuidado

O tapa-buraco, portanto, está longe de ser um detalhe administrativo. É uma política pública que influencia segurança, economia, mobilidade e bem-estar

15/07/2026 07h15

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Há temas da administração pública que costumam ser tratados como meros serviços de rotina, quando, na verdade, estão diretamente ligados à qualidade de vida, à segurança e ao respeito ao cidadão. A manutenção das vias públicas de Campo Grande, especialmente das avenidas e ruas de maior circulação, é um deles.

O estado do asfalto e da sinalização urbana não representa apenas uma questão estética ou de conforto. Trata-se de uma obrigação elementar do poder público e de um dos pilares da boa gestão.

Uma cidade depende de suas ruas para funcionar. É por elas que trabalhadores chegam ao emprego, estudantes às escolas, ambulâncias aos hospitais e mercadorias aos estabelecimentos comerciais. O próprio Estado depende dessa infraestrutura para prestar serviços e exercer seu poder de fiscalização.

Não por acaso, utiliza essas mesmas vias para monitorar o trânsito e arrecadar recursos por meio das multas aplicadas aos motoristas que descumprem a legislação.

Essa relação, porém, pressupõe uma contrapartida. Se o cidadão deve respeitar as regras de circulação e pode ser penalizado quando as infringe, é razoável esperar que o poder público também cumpra sua parte, oferecendo pavimentação adequada e sinalização clara.

Em Campo Grande, essa reciprocidade há muito deixou de existir. Buracos, remendos mal-executados, faixas apagadas e placas insuficientes transformaram a exceção em regra, expondo motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres a riscos permanentes.

Nesta edição, o Correio do Estado mostra que o Ministério Público atua em duas frentes igualmente importantes. De um lado, responsabiliza criminalmente servidores públicos e empresários suspeitos de integrar um esquema de corrupção envolvendo contratos de tapa-buraco.

De outro, cobra da administração municipal uma solução efetiva para um problema que se arrasta há anos e que afeta diariamente milhares de pessoas. Combater desvios de recursos é indispensável, mas garantir que o serviço seja prestado com eficiência é igualmente essencial.

Governar é assumir responsabilidades. Não basta apontar dificuldades financeiras ou entraves burocráticos. Cabe ao gestor público organizar prioridades e assegurar que serviços básicos funcionem adequadamente.

A negligência com a conservação das vias compromete a mobilidade, aumenta os custos de manutenção dos veículos, favorece acidentes e transmite à população a sensação de abandono.

Uma cidade bem pavimentada e corretamente sinalizada também comunica organização. Ambientes urbanos cuidados estimulam o respeito às normas, fortalecem o sentimento de pertencimento e tornam a convivência cotidiana mais agradável.

Quando o espaço público transmite ordem e funcionalidade, a qualidade de vida melhora e cresce a confiança da população nas instituições.

O tapa-buraco, portanto, está longe de ser um detalhe administrativo. É uma política pública que influencia segurança, economia, mobilidade e bem-estar. Tratar esse serviço como secundário é ignorar que a boa gestão começa justamente onde a vida das pessoas acontece todos os dias: nas ruas da cidade.

Campo Grande merece mais do que operações emergenciais. Merece planejamento, manutenção permanente e respeito ao contribuinte. Tomara que isso ocorra um dia.

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