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A pátria das chuteiras cor-de-rosa

Perdemos para um time fraco de bola e forte de porte físico, o time de "cintura dura" europeu que costumávamos pôr na roda

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Na Copa do Catar, eu me permiti colocar a colher no assunto da eliminação da seleção do Tite para a Croácia. Na época, até a monja Cohen deixou seus ares de santidade para esculhambar o Tite, que não colocou o Neymar para bater o primeiro pênalti, na fatídica disputa que nos mandou para casa.

Agora, quatro anos depois, vou meter a minha colher de psiquiatra e psicoterapeuta no angu de mais um vexame para nossa coleção. Perdemos para um time fraco de bola e forte de porte físico. O time de “cintura dura” europeu que costumávamos pôr na roda.

Jogamos fechadinhos, sem posse de bola, como faria o Grêmio Votuporanguense (com todo respeito). E tomamos dois gols na hora que o Ancelotti destruiu o time com a entrada do Neymar. Isso culminando quatro anos de caos, incompetência e mau caratismo que caracteriza nossos dirigentes e CBF.

O time não jogou com os quatro técnicos que teve. Carlo Ancelotti veio com a banca de técnico mais vitorioso da história. Foi para o Carnaval, cantou o hino a plenos pulmões, fez propaganda de cerveja, e o time continuou sem alma, sem pegada, sem ideia de jogo.

Nós brasileiros, com nosso rodrigueano complexo de vira-latas, olhamos para o Carletto e balbuciamos: “Yes, Buana”, e engolimos a convocação com escolhas absurdas e o encaixe de Neymar na vaga de João Pedro, do Chelsea, em muito melhor forma.

Oramos para o time ir ganhando corpo na competição, como foi em 2002. Depois de suar sangue para bater o Japão, perdemos, pela quarta vez, para um europeu na quinta partida da Copa. Mais vira-latas do que nunca.

As pessoas levantam a voz para insultar os jogadores, milionários e que se formam desde cedo no futebol europeu.

Temos, não por acaso, um técnico europeu. Os puristas bradam que perdemos nossa alma brasileira, robotizados pelos esquemas e regras que extinguem a nossa criatividade. E esse debate é mais antigo do que se pensa.

Ganhamos a nossa primeira copa em 1958, depois de duas copas traumáticas: a de 50, que perdemos em casa, e de 54, que perdemos para a melhor Hungria de todos os tempos. Houve um zum-zum racista na CBD que os atletas brasileiros eram mais fracos psicologicamente que os europeus.

Sobretudo, os negros. Escalamos um time só de brancos. Que, obviamente, não funcionou. Os líderes do grupo encostaram no técnico e a seleção mudou de rumo, colocando Didi, Vavá e dois meninos promissores, chamados Garrincha e Pelé. Esse time ganhou a Copa enfileirando goleadas. Surgia aí a “magia brasileira”.

O Brasil entrou no mapa do imaginário mundial com aquela seleção, e o Pelé, depois chamado de Rei, acabou virando o símbolo daquele país jovem e desconhecido, que engatinhava para acertar o passo com o mundo industrial.

Ganhamos três copas e levamos para casa a taça Jules Rimet. Viramos “a pátria de chuteiras”. Nossa identidade e autoestima dependia, e depende, dos nossos poucos heróis. Nossos heróis agora nós vemos pela TV, pois vão embora cedo e se desenvolvem no exterior.

Acho que a nossa principal desadaptação não é de jogar do “jeito brasileiro”, mas de se adaptar à bagunça e aos desmandos da CBF. E, de um sujeito oculto, quem manda no futebol brasileiro: os empresários.

Dito tudo isso, vou falar das “vantagens” da nossa derrota: voltamos para nossa vida comum, os escândalos voltam a ser comentados, e deixamos de procurar por heróis e vilões para exercer o heroísmo onde isso é necessário, que é o de enfrentar os boletos e a luta do nosso dia a dia.

Não precisamos ligar nossa identidade às chuteiras cor-de-rosa que foram moda nessa Copa, usada pela maioria de nossos jogadores. Podemos gostar ou não da cor, ou ter saudade das chuteiras pretas, mas isso não é mais o assunto mais importante.

Nosso viralatismo precisa deixar todos os setores de nossa sociedade e, sobretudo, nosso imaginário. Somos um povo trabalhador que aprende, todo dia, tentando sobreviver ao caos que serve a interesses antigos e ainda predominantes em nosso meio.

Podemos nos orgulhar de trabalharmos duro e construir nossa vida todo dia. Estamos cada vez mais distantes das chuteiras cor-de-rosa e da camisa amarela como única fonte de identidade. Ou de orgulho. Nossa derrota pode ter sido, então, uma libertação.

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A eliminação do Brasil na Copa e o Enem

Um aluno que deseja uma vaga em uma universidade pelo Enem pode estar treinando errado

14/07/2026 07h45

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Se o resultado de um jogo de futebol fosse determinado por uma metodologia como a do Enem, o Brasil perderia para a Noruega por um placar ainda mais desagradável. Motivo? Incoerência.

A TRI, metodologia adotada para contar pontos na prova, premia mais quem sabe o que está fazendo, quem domina o jogo porque treinou para ele. O futebol contemporâneo está assim também.

Um aluno que deseja uma vaga em uma universidade pelo Enem e estuda para verificar se um texto literário é “cultista” ou “conceptista” e para classificar um único verbo de uma frase como “oração subordinada substantiva completiva nominal reduzida de infinitivo” está treinando errado.

Pode até acertar questões que porventura cobrarem isso, mas esses conteúdos, se forem cobrados assim, farão parte de questões difíceis (bem difíceis) de duas habilidades: a 16 e a 18.

Mas é muito improvável que esses conteúdos caiam, mais provável é simplesmente reconhecer um jogo de palavras e notar o significado que a adição de um verbo traz para uma frase, coisas relativamente simples para quem está estudando certo.

E tem mais: muitos que estão estudando para acertar qual variante do Barroco está em um texto e classificar uma oração com nome gigantesco não conseguem acertar o que de fato se pede no Enem.

Se caírem essas quatro questões, as duas improváveis e difíceis junto com as duas fáceis, provavelmente aqueles que estão presos aos materiais tradicionais deixarão de acertar ao menos uma das fáceis e conseguirão gabaritar as improváveis.

Resultado? Incoerência pedagógica. Nota baixa pela TRI. Perdem a partida.

Algo parecido aconteceu com a seleção brasileira: errou questões fáceis e acertou algumas difíceis. Errou um pênalti aos 13 minutos, perdeu um gol cara a cara com o goleiro norueguês, não trocou passes na sua intermediária.

A Noruega acertou as fáceis (trocou bola muito bem), as medianas (soube marcar nossos jogadores) e as difíceis (conseguiu defender pênalti e outros chutes muito bem dados). Se o Brasil não errasse as fáceis, o resultado seria outro.

Agora, o que nos resta no futebol é torcer na próxima Copa. Já no Enem… Temos tempo. É hora de estudar o que cai de verdade – as habilidades cobradas na prova, e não o conteúdo tradicional escolar, que não cai nesse exame desde sua criação.

É hora, também, de usar a TRI em nosso favor. Ando afirmando: Enem é futebol de campo; vestibular tradicional, de salão. Não somos campeões no estádio, mas podemos ser na nossa vida estudantil. Bora treinar certo e, no fim, comemorar o título: aprovado.

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A sabedoria que envelhece em silêncio

Ouvir um idoso não significa apenas revisitar o passado, é compreender melhor a natureza humana

14/07/2026 07h30

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O Brasil está envelhecendo. Em poucas décadas, teremos uma das maiores populações idosas do mundo. A medicina ampliou nossa expectativa de vida, mas a sociedade ainda não aprendeu a cuidar de uma das maiores necessidades da terceira idade: a atenção, a escuta e o acolhimento emocional.

Desde muito jovem, sempre gostei da companhia dos mais velhos. Enquanto muitos da minha idade preferiam conversar apenas entre si, eu passava horas ouvindo meus avós.

Meu avô materno, Vicente, coronel do Exército e educador, e meu avô Nico, ferroviário da antiga Noroeste do Brasil, foram duas das maiores fontes de aprendizado que tive na vida.

Hoje percebo que, sem saber, eles me ensinaram muito mais do que fatos históricos. Ensinaram-me a ouvir, a refletir e a compreender que a experiência de vida é uma das formas mais valiosas de sabedoria.

Nossas conversas eram longas e sempre fascinantes. Falávamos sobre a política na época de Getúlio Vargas, sobre o regime militar, os desafios do Brasil contemporâneo, histórias da família, futebol, esporte e os inúmeros “causos” que apenas quem atravessou tantas décadas consegue narrar com riqueza de detalhes e autenticidade.

É verdade que muitas histórias se repetiam. Mas nunca enxerguei isso como repetição. Via, na verdade, a alegria estampada no rosto deles ao reviver momentos que ajudaram a construir quem eram.

E percebia que, mesmo conhecendo o desfecho de cada história, quase sempre surgia um detalhe novo, uma interpretação diferente ou uma reflexão que eu ainda não havia sido capaz de enxergar.

Com o tempo, compreendi que ouvir um idoso não significa apenas revisitar o passado. É compreender melhor a natureza humana e perceber que a história, embora nunca se repita exatamente da mesma forma, costuma seguir ciclos que atravessam gerações.

Vivemos, porém, em uma sociedade que valoriza a velocidade. Temos tempo para responder a mensagens, acompanhar redes sociais e consumir informações durante horas, mas cada vez menos disposição para simplesmente sentar ao lado de quem envelheceu e ouvir suas histórias sem olhar para o relógio.

Esse é um dos maiores desafios de uma população que envelhece rapidamente. Garantir longevidade não é suficiente, é preciso garantir pertencimento.

Nenhum exame substitui uma boa conversa. Nenhum medicamento combate a sensação de invisibilidade que muitos idosos experimentam quando deixam de ser ouvidos.

Os mais velhos carregam muito mais do que lembranças. Carregam experiências que nenhum livro ensina e que nenhuma inteligência artificial é capaz de reproduzir. São testemunhas do seu tempo e, muitas vezes, os últimos guardiões da memória de uma família, de uma comunidade e até de uma geração inteira.

Falta-nos mais paciência para ouvir e mais reconhecimento por tudo aquilo que essas pessoas construíram antes de nós. Afinal, se Deus nos conceder esse privilégio, um dia também seremos nós contando as mesmas histórias.

E, quando esse momento chegar, o que mais desejaremos provavelmente não será alguém que nos corrija ou nos apresse, mas simplesmente alguém disposto a nos ouvir.

Os jovens não imaginam o quanto podem aprender simplesmente reservando alguns minutos para conversar com seus pais, avós e familiares idosos. A assistência material é importante e, muitas vezes, indispensável.

Mas nenhuma ajuda financeira substitui a presença, a escuta atenta, o respeito e o carinho. Quem dedica alguns minutos para ouvir um idoso não está apenas oferecendo afeto, mas também recebendo uma herança invisível de experiências, valores e sabedoria construída ao longo de uma vida inteira.

Se o Brasil envelhece, é preciso que amadureça também a nossa forma de enxergar a velhice. Envelhecer é um privilégio. Garantir que cada idoso seja tratado com respeito, afeto, escuta e dignidade não é apenas um dever das famílias, mas um compromisso permanente de toda a sociedade.

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