Artigos e Opinião

OPINIÃO

Débora Morales: "Viés algorítmico na interpretação de dados"

Mestra em Engenharia de Produção e graduada em Estatística e Economia

Redação

17/08/2019 - 02h00
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Todos os dias, bilhões de pessoas interagem com interfaces que as ajudam a acessar informações e tomar decisões. À medida que quantidades crescentes de dados se tornam disponíveis, algoritmos baseados em big data são difundidos em todos os aspectos da vida cotidiana.

Muitas decisões são tomadas usando modelos preditivos baseados em dados, por exemplo: precificação e recomendações personalizadas, pontuação de crédito, seleção automatizada de currículos de candidatos a emprego, perfis de possíveis suspeitos pela polícia e muitos outros.

A coleta maciça e automatizada de dados ocorre como consequência dos rastros digitais onipresentes que todos geramos em nossas vidas. A disponibilidade de tal riqueza de dados torna sua publicação e análise altamente desejáveis para uma variedade de propósitos. No entanto, existem pelo menos duas ameaças potenciais para indivíduos cujas informações são publicadas: invasão de privacidade e potencial de discriminação.

A invasão de privacidade ocorre quando os valores dos atributos sensíveis publicados podem ser vinculados a indivíduos (ou empresas) específicos. Discriminação é o tratamento injusto ou desigual dado a pessoas com base em membros de uma categoria, grupo ou minoria, sem considerar as características individuais.

Usualmente, as técnicas algorítmicas eliminam os vieses humanos no processo de tomada de decisão, mas um algoritmo é tão bom quanto os dados com os quais trabalha. E a discriminação pode resultar do treinamento de modelos de mineração de dados (por exemplo, classificadores) que são tendenciosos contra certos grupos protegidos (etnia, gênero, religião, preferências políticas, etc.).

Modelos preditivos podem discriminar, mesmo que o processo de computação seja justo e bem-intencionado. Isso ocorre porque a maioria dos métodos é baseada em suposições de que os dados históricos então corretos e representam bem a população – o chamado viés algorítmico.

Os esforços para garantir a privacidade levaram ao desenvolvimento do controle estatístico de divulgação e mineração de dados preservados. Diferentes modelos e suas variações foram propostos para proteger contra diferentes tipos de ataques, entre eles: k-Anonymity, l-diversity, t-closenees.

A questão da discriminação é considerada a partir de uma perspectiva de mineração de dados, mais precisamente em duas direções: descoberta da discriminação e prevenção da discriminação.

A descoberta visa encontrar padrões discriminatórios usando métodos de mineração de dados. Essa abordagem tipicamente minera as regras de associação e classificação dos dados e, em seguida, avalia essas regras em termos de discriminação potencial.

Uma abordagem estatística mais tradicional para a descoberta de discriminação geralmente ajusta um modelo de regressão aos dados, incluindo os recursos protegidos (como gênero, raça, etc.), e analisa a magnitude e significância estatística dos coeficientes de regressão nos atributos. Se esses coeficientes parecerem significativos, a discriminação será sinalizada.

A prevenção da discriminação desenvolve algoritmos que produzem modelos preditivos, garantindo que esses modelos sejam livres de discriminação. O objetivo é ter um modelo (regra de decisão) que obedeça às restrições de não discriminação.

Sendo assim, à medida que os algoritmos se tornam mais comuns na implementação de sistemas tecnológicos, estudar o mundo significa estudar algoritmos. O viés pode abranger uma grande variedade de investigações e questões com importantes implicações de interesse público que demandam escrutínio algorítmico.

Descobrir como os algoritmos se comportam pode levar a uma discussão difícil, mas importante: como nós, a sociedade, queremos que esses algoritmos se comportem?

Editorial

Que a campanha fortaleça a democracia

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade

17/08/2026 07h10

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Foi dada neste domingo a largada oficial para a campanha eleitoral, período que se estenderá até o dia 2 de outubro, dois dias antes da votação do primeiro turno, marcada para o dia 4 de outubro, um domingo. A partir de agora, candidatos, partidos e eleitores entram em uma etapa decisiva do processo democrático, na qual propostas, ideias e projetos para o País deverão estar no centro do debate.

O que se espera destas eleições, acima de tudo, é que todos os candidatos joguem limpo. A disputa pelo voto não pode ser transformada em uma guerra de ataques, mentiras, manipulações ou acusações sem fundamento.

A democracia pressupõe divergência, mas também exige respeito às regras e ao eleitor. Para garantir que isso aconteça, estará presente a Justiça Eleitoral, responsável por fiscalizar o cumprimento da legislação. Mas há outro personagem igualmente importante nesse processo: o próprio eleitor.

É também pela manifestação do eleitor, nas urnas e ao longo da campanha, que se estabelece o limite para determinados comportamentos políticos. Cabe à sociedade rejeitar a desinformação, a baixaria e as tentativas de transformar a eleição em um espetáculo de agressões, com um olhar atento para o universo digital. O voto consciente é uma das principais ferramentas de que dispõe o cidadão para influenciar os rumos do País.

Por isso, o período de campanha eleitoral é importante. Mais do que uma sucessão de eventos, discursos e propagandas, trata-se de uma oportunidade para que o Brasil amadureça e, quem sabe, faça as pazes com a política.

Não é uma tarefa simples. Nas últimas décadas, sucessivos escândalos de corrupção, promessas não cumpridas e a desconexão de parte dos políticos com a realidade da população contribuíram para desgastar a imagem da atividade política.

A demonização da política, entretanto, não resolve o problema. Pelo contrário. É preciso reconhecer que, em uma sociedade democrática, não existe outro caminho para tentar fazer valer nossos princípios, defender nossas convicções e construir o mundo que desejamos senão por meio da própria política.

É compreensível que o cidadão esteja decepcionado. É legítimo cobrar, fiscalizar e exigir mudanças. O que não parece razoável é concluir que a política, por causa dos erros de alguns de seus representantes, seja necessariamente algo negativo.

Sem política, não há espaço institucional para o debate de ideias, para a negociação de interesses e para a construção coletiva das decisões que afetam toda a sociedade.

É verdade que existem outras formas de governo nas quais mudanças estruturais podem ocorrer sem que tenham a política democrática como ponto de partida.

Regimes autoritários podem impor transformações pela força, pela supressão de direitos e pela concentração do poder. Mas essa é outra história – e não é o caminho que uma sociedade democrática deve desejar.

O que se espera, portanto, é que esta campanha seja justa, tranquila e respeitosa; que os candidatos apresentem suas propostas, expliquem suas escolhas e aceitem o contraditório; que a Justiça Eleitoral cumpra seu papel e que os eleitores também façam a sua parte.

Artigo

Paradoxo docente: o herói com menos poderes e cada vez mais responsabilidades

No Brasil, paradoxalmente, os professores são tratados como heróis às avessas, cujos poderes foram dizimados por completo

15/08/2026 07h15

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No mês de julho deste ano, estreou o novo filme do Homem-Aranha, o herói que aprendeu, da pior maneira possível, que, com grandes poderes, adquirem-se muitas responsabilidades.

No Brasil, paradoxalmente, os professores são tratados como heróis às avessas, cujos poderes foram dizimados por completo, mas de quem se exigem crescentes e inalcançáveis responsabilidades.

O resultado é que, todos os dias, esses profissionais são atirados em ambientes degradados e violentos, com as mãos e os pés atados, sem qualquer apoio real, enquanto os verdadeiros vilões assistem a esse suplício de camarote. 

Quanto aos malfeitores, basta verificar que, nas últimas décadas, os docentes foram atacados por ambos os flancos ideológicos, interessados em controlar as escolas e dominar as mentes das novas gerações, em detrimento da alfabetização de qualidade, da promoção da leitura e da transmissão de conhecimentos poderosos, para usar uma expressão de Michael Young.

Por um lado, construiu-se o mito do professor opressor e da escola-prisão, demonizando a autoridade docente; de outro, buscou-se estigmatizar os mestres como doutrinadores, vagabundos e perversores da juventude, maculando a imagem da categoria e enfraquecendo o laço entre família e escola.

Dessa forma, houve um esvaziamento da autoridade do professor, elemento fundamental para que o ensino aconteça, como reconhecem, inclusive, estudiosos de campos diametralmente opostos, como Paulo Freire, que diz que “[...] o professor que ironiza o aluno, que o minimiza [...], tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar [...] transgride os limites fundamentalmente éticos de nossa existência”, e Inger Enkvist, a qual afirma que, seja qual for o modelo escolhido, “sem aceitar a autoridade do professor em sala de aula, é impossível obter bons resultados”.

Hoje, a liberdade de cátedra, na prática, quase inexiste na educação básica e os docentes, enfraquecidos, estão impedidos de lecionar livremente em muitas redes de ensino, agrilhoados a plataformas e materiais pré-fabricados; encontram-se também impossibilitados de avaliar, já que os resultados são revertidos à sua revelia e alunos são aprovados, diversas vezes, sem qualquer critério de aprendizagem; finalmente, o desrespeito e a violência tomaram conta de grande parte das escolas, inclusive de muitos colégios particulares, já que os professores são frequentemente desautorizados pelos pais e as escolas não têm meios eficazes de combater a indisciplina, a qual já ocupa 21% do tempo de aula, segundo dados, divulgados em 2019, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Atacado e sem poderes, o professor recebe, contraditoriamente, cada vez mais incumbências. A Lei n° 13.185/2015, por exemplo, determinou que é dever dos estabelecimentos de ensino assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e ao bullying.

Em 2018, a Lei Lucas estabeleceu a obrigatoriedade de capacitar professores em noções de primeiros socorros. Em vigor desde março, as novas diretrizes de proteção digital do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) trouxeram a obrigatoriedade de a escola promover a educação digital e midiática e garantir um ambiente virtual seguro aos alunos.

Mais recentemente, em junho, foi aprovado o Projeto de Lei n° 4.088/2023, que torna obrigatório o ensino de educação política e direitos da cidadania.

Todas essas iniciativas são importantíssimas, mas salta aos olhos a intensa transferência de responsabilidade do restante da sociedade para uma escola depauperada e para professores doentes e sobrecarregados.

Enquanto isso, 33% dos municípios não cumprem a legislação que determina o piso do magistério, mais de 50% dos professores das escolas públicas são temporários com direitos reduzidos, apenas 15,7% das escolas públicas contam com psicólogos – ainda existe a Lei n° 13.935/2019? –, e a mencionada Lei Lucas segue amplamente desrespeitada por municípios e estados. 

Professores não são heróis, mas sim profissionais que merecem respeito. Não cabe cobrar da categoria poderes extra-humanos enquanto políticos, gestores e muitos pais lavam as mãos e transferem responsabilidades.

É preciso proporcionar condições dignas de vida e de trabalho, devolver autoridade aos docentes e valorizar o conhecimento escolar, base de todas as competências e habilidades; do contrário, a profissão permanecerá eternamente inviabilizada e presa a uma teia inexpugnável de abandono e impotência, condenando o País ao eterno atraso civilizatório.

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