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Nas ruas, a defesa da dignidade

Ainda persistem, na sociedade, estigmas e preconceitos em relação à população em situação de rua, frequentemente tratada de forma reducionista, em vez do reconhecimento deste grupo como sujeitos de direitos

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O crescimento da população em situação de rua no Brasil expressa a realidade social das cidades contemporâneas.

Levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base no Cadastro Único, indica que o País ultrapassou 365 mil pessoas nessa condição entre o fim de 2025 e o início deste ano, mantendo uma trajetória de alta nos últimos anos.

Entre 2018 e 2023, o número de registros praticamente dobrou, superando 221 mil pessoas, em mais de 40% dos municípios brasileiros.

Mais do que números, estamos diante de vidas. E a forma como a sociedade olha para essas vidas diz muito sobre o projeto de cidade que estamos construindo.

Ainda persistem, na sociedade, estigmas e preconceitos em relação à população em situação de rua, frequentemente tratada de forma reducionista, em vez do reconhecimento deste grupo como sujeitos de direitos.

Essa ótica, por vezes naturalizada, acaba influenciando práticas institucionais e respostas públicas que priorizam o afastamento, o controle ou a invisibilização, em detrimento da construção de alternativas efetivas.

Longe de ser resultado de escolhas individuais, a vida nas ruas expressa uma profunda violação de direitos, vinculada à desigualdade estrutural e à precarização das condições de vida. Enfrentar essa realidade exige mais do que gestão urbana: exige compromisso ético com a dignidade humana.

É nesse cenário que a atuação de assistentes sociais se torna fundamental, não somente na garantia de acesso a direitos, mas também na construção de leituras críticas da realidade e de respostas comprometidas com a vida das pessoas.

Orientado pela Política Nacional para a População em Situação de Rua (Decreto nº 7.053/2009), o trabalho profissional parte do reconhecimento desse grupo social como sujeito de direitos, com histórias, demandas e potencialidades que precisam ser compreendidas em sua complexidade.

Na prática, assistentes sociais atuam diretamente nos territórios, em serviços como Centros POP, Creas e equipes de Consultório na Rua. Mais do que encaminhamentos pontuais, sua atuação deve se fundamentar na escuta qualificada, na construção de vínculos e no acompanhamento continuado.

O diálogo é elemento central desse trabalho: é por meio dele que emergem demandas reais (muitas vezes invisibilizadas) relacionadas com a documentação, a saúde, a renda, a moradia e a reconstrução de relações familiares e comunitárias.

Atuar com compromisso técnico e ético é reconhecer o outro em sua condição humana, romper com a invisibilidade e construir caminhos possíveis.

Diante de práticas higienistas, remoções forçadas e da criminalização da pobreza, o Serviço Social se posiciona de forma firme na defesa da dignidade de toda a população.

Enfrentar a realidade das ruas exige mais do que respostas rápidas: exige compromisso com a vida e com transformações concretas. O Serviço Social trilha esse caminho todos os dias, por meio de trabalho técnico e qualificado, da atuação crítica e da construção de alternativas.

Fica o convite à sociedade: romper com respostas simplificadas e excludentes e assumir um compromisso real com as vidas e a justiça social.

Artigo

A Copa do Mundo e geopolítica

A realidade, porém, conta outra história. A Copa nunca foi apenas um torneio de futebol assim como as Olimpíadas

29/06/2026 07h30

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À medida que a Copa do Mundo de deste ano começa a mobilizar torcedores ao redor do mundo, muitos insistem em repetir uma frase bastante conhecida: esporte e política não se misturam.

A realidade, porém, conta outra história. A Copa nunca foi apenas um torneio de futebol – assim como as Olimpíadas.

Ela é também um fenômeno político, econômico e geopolítico, capaz de reverberar tensões internacionais, disputas de poder e transformações globais.

Os acontecimentos das últimas semanas deixam isso evidente. Os Estados Unidos, uma das três sedes do torneio, adotaram políticas migratórias que já afetam diretamente a competição.

Integrantes da delegação iraniana enfrentaram dificuldades para obter vistos, parte da equipe precisou transferir sua base para o México e autoridades esportivas do país denunciaram tratamento discriminatório.

Ao mesmo tempo, torcedores e oficiais de diferentes nacionalidades relataram obstáculos para ingressar em território norte-americano, transformando um evento esportivo em mais um capítulo dos debates sobre fronteiras, segurança internacional e soberania.

O caso iraniano é particularmente simbólico. Num momento de forte tensão entre Washington e Teerã, o simples deslocamento de jogadores, dirigentes e torcedores tornou-se uma questão diplomática.

O futebol, nesse contexto, deixa de ser apenas entretenimento para se tornar um espaço em que rivalidades internacionais continuam negociadas.

Mas a relação entre Copa do Mundo e geopolítica vai muito além dos conflitos diplomáticos mais evidentes.

Em diversos momentos da história, o torneio serviu para expressar mudanças na ordem internacional.

Quando a seleção da Croácia estreou na Copa do Mundo em 1998, por exemplo, não estava apenas disputando partidas de futebol em prol do entretenimento dos torcedores.

A seleção estava simbolizando a consolidação de um novo Estado surgido após o colapso da Iugoslávia.

Da mesma forma, a participação de países recém-independentes ao longo das últimas décadas representou uma forma de reconhecimento internacional e afirmação de soberania.

Quando a Bósnia e Herzegovina disputou sua primeira Copa do Mundo, em 2014, sua participação foi celebrada não apenas como uma conquista esportiva, mas como um símbolo da reconstrução de um país que duas décadas antes havia sido devastado por uma das guerras mais violentas da Europa contemporânea.

A seleção tornou-se uma representação da própria sobrevivência do Estado Bósnio e de sua busca por reconhecimento e estabilidade no cenário internacional.

Em outra dimensão, os países do Golfo transformaram o futebol numa importante ferramenta de projeção de poder. Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos passaram a investir bilhões de dólares em clubes, competições, patrocínios e grandes eventos esportivos, utilizando o esporte como instrumento de projeção global para ampliar sua influência, diversificar as economias e fortalecer a imagem internacional.

Outro exemplo pouco lembrado envolve a escolha das sedes. A disputa para sediar uma Copa do Mundo costuma mobilizar governos, empresas privadas e diplomatas durante anos. Receber o torneio significa projetar uma imagem internacional, atrair investimentos e demonstrar capacidade organizacional e de Engenharia.

Não por acaso, países emergentes frequentemente enxergam o evento como uma ferramenta de soft power, utilizando o esporte para fortalecer sua reputação global.

A geopolítica também aparece nas questões econômicas. Em números, a Copa do Mundo deste ano será a maior da história, com 48 seleções e 104 partidas. Isso envolve negociações complexas sobre infraestrutura, segurança, transporte, telecomunicações, direitos de transmissão e circulação de pessoas.

Em outras palavras, a Copa funciona como uma gigantesca operação internacional que depende da cooperação e, muitas vezes, dos conflitos entre governos, empresas e organizações multilaterais.

Mesmo temas aparentemente distantes do futebol acabam influenciando o torneio. Questões migratórias, políticas de segurança, sanções econômicas, relações diplomáticas e até debates sobre direitos humanos passaram a fazer parte da preparação para o Mundial.

Organizações internacionais já alertam para possíveis impactos das políticas de imigração, fiscalização de fronteiras e monitoramento de visitantes durante a competição.

Talvez o maior equívoco seja imaginar que a política invade o esporte. Na verdade, o esporte sempre esteve inserto na política.

Afinal, seleções representam Estados nacionais, torcedores atravessam fronteiras, governos financiam infraestrutura e organismos internacionais estabelecem regras para a realização dos torneios.

A Copa do Mundo continua um espetáculo esportivo extraordinário – não apenas para quem gosta de futebol.

Ela também funciona como uma janela privilegiada para observar o mundo. Ao acompanhar os jogos, vale a pena prestar atenção não somente no que acontece dentro dos estádios. Muitas vezes, as histórias mais reveladoras estão acontecendo nos bastidores.

E compreender essas conexões é fundamental para entender não só o futebol, mas também a dinâmica das relações internacionais no século 21.

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Editorial

A força da inteligência contra o crime

Cooperação internacional e trabalho de monitoramento permitiram uma apreensão histórica e mostram o caminho para enfraquecer o crime organizado

29/06/2026 07h15

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Nesta edição, o Correio do Estado apresenta, com exclusividade, um dos pontos centrais da investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) e pela Receita Federal, em parceria com autoridades norte-americanas, que resultou no que pode ser a maior apreensão de cocaína da história do Brasil.

A operação, realizada na semana passada em Cáceres (MT) e Corumbá, retirou de circulação uma quantidade impressionante de droga que tinha um destino bem definido: os Estados Unidos, mais precisamente a cidade de Miami, na Flórida.

A dimensão da apreensão impressiona, mas talvez mais importante do que a quantidade de entorpecentes retirada do mercado seja a forma como o resultado foi alcançado. Operações dessa magnitude não acontecem por acaso.

Elas são fruto de meses, às vezes até anos, de monitoramento, cruzamento de informações, compartilhamento de dados e acompanhamento minucioso dos passos das organizações criminosas.

O combate ao narcotráfico internacional deixou de ser uma atividade baseada apenas em barreiras físicas, patrulhamento ostensivo ou abordagens de rotina.

Hoje, as grandes vitórias contra o crime organizado são construídas principalmente nos centros de inteligência.

É ali que se identificam rotas, movimentações financeiras, conexões internacionais e estratégias utilizadas pelas quadrilhas para transportar toneladas de drogas entre continentes.

Nesse aspecto, a operação revela também uma realidade que precisa ser reconhecida. As forças de segurança da América do Sul ainda têm muito a aprender e a aperfeiçoar em cooperação com as agências norte-americanas.

A experiência acumulada pelos Estados Unidos no enfrentamento ao crime transnacional, especialmente no campo da inteligência e da integração de bancos de dados, tem produzido resultados que merecem ser observados e incorporados por seus parceiros.

O êxito da ação demonstra o valor da cooperação internacional. Quando instituições de diferentes países compartilham informações e atuam de forma coordenada, as organizações criminosas perdem uma de suas principais vantagens: a capacidade de explorar fronteiras e limitações burocráticas entre nações.

Mas a apreensão da droga não pode representar o ponto final dessa investigação. O verdadeiro sucesso será alcançado quando os responsáveis pelas cargas forem identificados, presos e condenados.

Mais importante ainda será localizar e sequestrar os bens acumulados com recursos oriundos do tráfico. Sem atingir o patrimônio das organizações criminosas, o combate ao narcotráfico permanece incompleto.

Também é necessário ampliar a participação de agências europeias nessa rede de cooperação. Afinal, uma parcela significativa da cocaína que atravessa o território brasileiro tem como destino o continente europeu.

Quanto maior for a integração entre autoridades sul-americanas, norte-americanas e europeias, maiores serão as chances de enfraquecer estruturas criminosas que operam em escala global.

Por isso, a operação merece reconhecimento. Ela comprova que inteligência, integração e cooperação continuam sendo as armas mais eficazes contra o narcotráfico.

E, mais uma vez, merece elogios o trabalho das autoridades envolvidas, que demonstraram capacidade técnica, planejamento e persistência para atingir um resultado histórico.

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