Os próximos anos do transporte coletivo de Campo Grande serão decididos nos próximos dias. A afirmação pode parecer exagerada, mas não é.
A mudança no controle do Consórcio Guaicurus, agora sob o comando do grupo HP, de Goiânia, abre uma nova fase para um serviço que há anos acumula reclamações, perda de passageiros e sucessivos conflitos entre concessionária, prefeitura e usuários.
É justamente nesse momento que serão tomadas as decisões capazes de determinar se a Capital finalmente terá um sistema de transporte digno ou se apenas prolongará problemas antigos.
Reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado mostra que o modelo usado pelo novo controlador passa pela prorrogação antecipada do contrato de concessão, atualmente válido até 2032.
A extensão, que pode alcançar mais duas décadas, serviria de garantia para a realização de investimentos na renovação da frota, na melhoria dos terminais e na modernização do sistema.
Trata-se de um mecanismo que, quando bem estruturado, pode representar uma alternativa para destravar investimentos privados.
Entretanto, uma prorrogação contratual dessa magnitude não pode ser tratada como mera formalidade administrativa.
Ao contrário, exige máxima transparência, estudos técnicos consistentes e ampla fiscalização dos órgãos de controle. Ministério Público, Tribunal de Contas, Câmara Municipal, prefeitura e a própria sociedade precisam acompanhar atentamente a modelagem que vier a ser proposta.
O contrato que será desenhado agora influenciará diretamente a qualidade do serviço prestado por décadas.
Mais importante do que ampliar o prazo da concessão é definir, com precisão, quais investimentos serão obrigatórios, quais metas deverão ser cumpridas e quais penalidades serão aplicadas em caso de descumprimento.
A experiência demonstra que contratos bem elaborados reduzem conflitos futuros e oferecem maior segurança tanto para o poder público quanto para a concessionária.
Mas, acima de tudo, garantem previsibilidade ao usuário, que é quem sustenta o sistema diariamente.
Não há dúvida de que o transporte coletivo de Campo Grande precisa mudar. O passageiro convive há anos com ônibus envelhecidos, atrasos frequentes, lotação, redução de linhas e perda da qualidade do serviço.
A insatisfação é evidente e ajuda a explicar a queda contínua no número de usuários, que migraram para motocicletas, automóveis ou aplicativos de transporte. Recuperar essa confiança será um dos maiores desafios da nova gestão.
Mas a cidade também não pode repetir os erros do passado. Quando o contrato atualmente em vigor foi assinado, pouco mais de uma década atrás, o discurso também era de modernização, eficiência e melhoria contínua.
Agora, Campo Grande recebe uma segunda oportunidade. Ela não deve ser desperdiçada. Se a prorrogação contratual vier acompanhada de regras claras, metas rigorosas, fiscalização permanente e investimentos efetivos, poderá marcar o início de uma nova fase para a mobilidade urbana.


