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Por que estamos pagando para fazer amigos?

Empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez

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Em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo e, com a aproximação da data, uma pergunta incômoda começa a ecoar nos debates sobre o comportamento contemporâneo: você pagaria para fazer amigos? A maioria das pessoas certamente de pronto diria que não, mas essa resposta tem funcionado apenas na teoria, pois já tem quem lucre com esse novo nicho de mercado.

Nos Estados Unidos, esse fenômeno vem ganhando força, e o cenário é alarmante. Segundo informações do Magnet ABA Therapy, um a cada cinco adultos americanos apresenta um estado mental de solidão crônica.

Globalmente, a geração Z é a mais afetada, com 24% das pessoas de 15 anos ou mais relatando sentimentos significativos de solidão. Diante desse deserto afetivo, o mercado encontrou uma oportunidade: a criação da chamada “economia da conexão”.

Hoje, empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez. Há clubes privados que oferecem uma verdadeira “curadoria” de amizades.

E se você pensa que isso é uma realidade apenas para quem mora fora do Brasil, está enganado.

Em Curitiba, por exemplo, já se multiplicam anúncios de aplicativos com convites como “jantares com desconhecidos” ou “transforme desconhecidos em amigos” – iniciativas desenhadas para ajudar pessoas a romperem o isolamento e a construírem novos laços.

Mas como chegamos a esse ponto? Culpar a pandemia, as telas ou o home office é a saída mais fácil, mas a verdade é mais profunda. Estamos imersos em uma cultura que estimula o sujeito a se desvincular do coletivo.

Sob a ilusão de que “você pode ser o que quiser” e amparados pela promessa de felicidade imediata que vem em cápsula, desaprendemos a conviver e criamos uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração.

Afinal, fazer amigos de verdade exige paciência, concessões e o risco de se machucar, habilidades que fomos desaprendendo a usar em nossa busca por uma vida sem atritos. Assim, o efeito colateral tem sido nos isolarmos em nossas próprias bolhas de autossuficiência.

É aí que a lógica do mercado entra: se você não tem tempo ou habilidade para cultivar laços organicamente, o sistema monetiza essa carência, transformando a vulnerabilidade humana em mais um serviço por assinatura.

O problema é que, ao fazer a amizade seguir a lógica mercantil, passamos a tratá-la sob a regra do descarte: “se der problema”, eu simplesmente cancelo.

O resultado são relações voláteis, sem consistência e sem capacidade de superar dificuldades, o oposto da real condição humana, que é caótica e imperfeita, mas profundamente viva e transformadora.

Ao terceirizarmos nossa sociabilidade para algoritmos e jantares pagos, estamos anestesiando o sintoma sem curar a doença. Estamos trocando o calor do afeto espontâneo pela conveniência de um produto com garantia de satisfação.

Se o afeto vira mercadoria, o outro deixa de ser um igual para se tornar um bem de consumo.

Diante desse cenário em que até o carinho tem preço e a solidão virou modelo de negócios, resta uma última e incômoda reflexão: se passarmos a pagar para que as pessoas nos ouçam e nos aceitem, o que nos garante que o que estamos comprando é mesmo amizade, e não apenas o fim temporário da nossa solidão?

ARTIGOS

Como as canetas emagrecedoras estão transformando a economia

Os medicamentos estão provocando mudanças de comportamento que começam a repercutir em diversos setores da economia

18/07/2026 07h45

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Durante décadas, a economia foi construída sobre um pressuposto simples: quanto maior o desejo, maior o consumo. Empresas aperfeiçoaram estratégias para estimular a compra, criar recorrência e transformar impulsos em receita.

Agora, pela primeira vez, uma inovação farmacêutica começa a desafiar essa lógica em escala global.

A ascensão dos agonistas de GLP-1, classe de medicamentos que inclui Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já ultrapassou o debate sobre emagrecimento.

Ao reduzir significativamente o chamado food noise, o ruído mental associado ao desejo constante por comida, esses medicamentos estão provocando mudanças de comportamento que começam a repercutir em diversos setores da economia.

Os números ajudam a explicar o fenômeno. Nos Estados Unidos, estudos mostram que lares com, pelo menos, um usuário de GLP-1 reduziram seus gastos com supermercado em até 8,2%, enquanto o consumo de salgadinhos e alimentos ultraprocessados caiu cerca de 11%.

Não se trata apenas da troca de um produto por outro. Em muitos casos, o impulso para consumir simplesmente diminuiu.

Os reflexos já são percebidos em diferentes mercados. A KPMG estima que a indústria de alimentos e bebidas dos Estados Unidos pode deixar de movimentar cerca de US$ 100 bilhões até 2030. Ao mesmo tempo, empresas ligadas à produção desses medicamentos registram crescimento acelerado.

A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk chegou a atingir um valor de mercado superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de seu país de origem, tornando-se um símbolo dessa transformação.

Mas, talvez, o aspecto mais relevante dessa mudança não esteja na alimentação. O que chama a atenção é a possibilidade de redução de diversos comportamentos impulsivos

Pesquisas indicam que os medicamentos também podem influenciar mecanismos de recompensa ligados ao consumo de álcool, apostas e compras compulsivas. Se essa tendência se consolidar, o impacto econômico poderá ser ainda mais amplo do que se imaginava inicialmente.

Na saúde, os resultados também começam a redesenhar projeções de longo prazo. O estudo Select, publicado no New England Journal of Medicine, demonstrou que a semaglutida reduz em 20% o risco de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e mortes por causas cardiovasculares.

Já pesquisas recentes publicadas na Nature Medicine apontam associações positivas em dezenas de condições de saúde. A consequência potencial é uma redução expressiva de internações, tratamentos de alta complexidade e custos assistenciais, beneficiando tanto sistemas públicos quanto operadoras privadas.

No Brasil, a adoção dessas terapias avança rapidamente. O País já supera a média global de utilização, com cerca de 5,5% da população fazendo uso de alguma caneta emagrecedora. O mercado movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões por ano e deve continuar crescendo nos próximos anos.

Essa transformação também cria oportunidades. Com perdas de peso que frequentemente variam entre 15% e 20% ao longo do tratamento, o setor de vestuário já observa mudanças no comportamento dos consumidores.

O banco Bernstein projeta uma injeção de até US$ 13 bilhões anuais na indústria da moda norte-americana, impulsionada pela necessidade de renovação do guarda-roupa. Algumas marcas já relatam alterações no mix de tamanhos e no perfil de consumo de seus clientes.

O segmento de bem-estar segue a mesma direção. Academias, programas de atividade física, produtos voltados à saúde e marcas esportivas tendem a se beneficiar de consumidores cada vez mais engajados na manutenção dos resultados obtidos com o tratamento.

No Brasil, o crescimento consistente das redes de academias e da moda esportiva reforça essa tendência.

Por aqui, um dos marcos mais importantes pode acontecer com o avanço dos genéricos e similares da semaglutida, após a quebra de patente. A ampliação do acesso tem potencial para acelerar ainda mais a adoção desses tratamentos, tornando seus efeitos econômicos mais visíveis e abrangentes.

O desafio para as empresas será compreender um consumidor diferente daquele que dominou as últimas décadas.

Se parte do crescimento econômico recente foi sustentada pela lógica do excesso, com mais estímulos, mais consumo e mais recorrência, a era dos GLP-1 aponta para um cenário em que a decisão de compra tende a se tornar mais seletiva e racional.

A discussão sobre esses medicamentos, portanto, vai muito além da saúde ou da estética, pois sinaliza uma mudança profunda no comportamento humano.

Se o século 20 foi marcado pela expansão do consumo, os próximos anos podem ser definidos pela capacidade de escolher melhor o que realmente merece a nossa atenção, o nosso tempo e o nosso dinheiro.

Para as empresas, o desafio deixa de ser o de estimular o desejo a qualquer custo e passa a ser construir relevância genuína.

EDITORIAL

A leitura continua insubstituível

Em tempos de muita informação e escassez de reflexão, ler continua sendo uma das formas mais eficazes de formar cidadãos livres para um mundo cada vez mais complexo

18/07/2026 07h15

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A educação acompanha as transformações da sociedade. E deve acompanhá-las. A sanção da nova lei estadual que amplia e atualiza os temas a serem trabalhados no planejamento pedagógico das escolas de Mato Grosso do Sul segue justamente essa lógica.

Ao incorporar conteúdos como empreendedorismo, educação financeira, cidadania e outros assuntos contemporâneos, o Estado busca aproximar o ambiente escolar das exigências de um mundo em constante mudança. Uma modernização necessária e bem-vinda.

A escola não pode permanecer presa a um currículo que ignore as competências atualmente exigidas para a vida em sociedade e para o mercado de trabalho.

Formar cidadãos conscientes sobre finanças pessoais, estimular a cultura empreendedora e fortalecer valores cívicos significa preparar as novas gerações para desafios que extrapolam o conteúdo tradicional das disciplinas. A atualização curricular, portanto, representa um avanço.

Mas, nenhuma inovação pedagógica produzirá os resultados esperados se não houver um esforço igualmente consistente para recuperar um hábito que vem sendo gradativamente abandonado: a leitura. É nesse ponto que reside um dos maiores desafios da educação contemporânea.

Os meios digitais transformaram profundamente a forma como consumimos informação. Vídeos curtos, redes sociais e aplicativos de mensagens passaram a disputar – e muitas vezes a substituir – o tempo antes dedicado aos livros, jornais e demais textos.

Não se trata de negar a importância das novas tecnologias, que oferecem inúmeras oportunidades de aprendizado.

O problema surge quando elas passam a ocupar quase todo o espaço da atenção, reduzindo a disposição para atividades que exigem maior concentração e reflexão. Ler demanda tempo, disciplina e esforço intelectual. Exatamente por isso seus benefícios são tão profundos e duradouros.

A leitura obriga o cérebro a construir imagens, interpretar contextos, estabelecer relações entre ideias e desenvolver argumentos.

Quem lê com frequência amplia o vocabulário, organiza melhor o pensamento, fortalece a memória e desenvolve maior capacidade de análise crítica. São habilidades indispensáveis em qualquer profissão e, sobretudo, para o exercício pleno da cidadania.

O desenvolvimento humano sempre esteve ligado à capacidade de enfrentar desafios intelectuais cada vez mais complexos.

Das grandes descobertas científicas às inovações tecnológicas, passando pelas conquistas sociais e democráticas, tudo começou pela circulação de ideias registradas em livros, documentos e pesquisas.

O conhecimento acumulado pela humanidade jamais teria alcançado o estágio atual sem a leitura como o principal instrumento de transmissão e construção do saber.

Modernizar o currículo escolar é um passo importante. Mas será insuficiente se não vier acompanhado do fortalecimento da cultura da leitura dentro e fora das salas de aula. Cabe às escolas incentivar esse hábito, e cabe às famílias cultivá-lo desde a infância.

Em tempos de excesso de informações e escassez de reflexão, ler continua sendo uma das formas mais eficazes de formar cidadãos livres, críticos e preparados para compreender um mundo cada vez mais complexo.

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