Artigos e Opinião

EDITORIAL

Tarifas, política e competitividade

A medida pode acelerar uma tendência já em curso: a aproximação maior com mercados asiáticos e a consolidação de MS como um dos mais importantes polos exportadores do País

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A decisão do governo dos Estados Unidos de impor novas tarifas a produtos brasileiros foi recebida com apreensão por diferentes setores da economia nacional. Afinal, trata-se da maior potência econômica do planeta e de um dos principais mercados consumidores do mundo.

Entretanto, como mostra reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado, os efeitos práticos da medida em Mato Grosso do Sul tendem a ser bastante limitados.

Isso porque a maior parte dos produtos que sustentam a pauta de exportações sul-mato-grossense ficou fora da sobretaxação anunciada pelo governo de Donald Trump.

Os principais itens exportados pelo Estado, como carne bovina, celulose e minerais, não foram alcançados pela medida. Em relação a commodities agrícolas como soja e milho, o cenário também é diferente daquele observado em outros segmentos.

Os Estados Unidos, em muitos casos, não são grandes compradores desses produtos brasileiros porque são concorrentes diretos na produção e na comercialização internacional. Em outras palavras, a demanda norte-americana por boa parte do que Mato Grosso do Sul produz já é naturalmente reduzida.

Isso não significa, contudo, que o episódio deva ser tratado com indiferença. O tarifaço evidencia como disputas políticas podem ultrapassar as fronteiras domésticas e contaminar relações diplomáticas e comerciais construídas ao longo de décadas.

Quando interesses partidários passam a influenciar decisões de política externa, perde-se previsibilidade, um dos pilares fundamentais para quem produz, investe e comercializa em escala global.

Os reflexos, portanto, são muito mais geopolíticos do que econômicos para Mato Grosso do Sul. Ao endurecer sua posição em relação ao Brasil, Washington acaba contribuindo para aprofundar um movimento que já vinha ocorrendo naturalmente: o fortalecimento da relação comercial brasileira com a China.

Hoje, o gigante asiático já responde por mais da metade das exportações sul-mato-grossenses e tende a ampliar ainda mais sua participação, consolidando-se como principal destino da produção estadual.

Números recentes demonstram essa realidade. No mês passado, Mato Grosso do Sul registrou o maior valor exportado de sua história, superando US$ 1,2 bilhão.

Grande parte desse montante teve como destino o mercado chinês, especialmente embarques de soja, enquanto celulose e carne bovina aparecem logo na sequência entre os produtos mais relevantes da pauta exportadora.

Mais do que revelar uma mudança de eixo no comércio internacional, esses resultados comprovam a crescente competitividade da economia sul-mato-grossense.

O Estado se consolidou como fornecedor estratégico de alimentos, fibras e matérias-primas para o mercado global, apoiado em ganhos de produtividade, expansão industrial e investimentos em logística e processamento.

A principal lição desse episódio é que mercados internacionais dificilmente permanecem estáticos. Barreiras surgem, governos mudam e disputas políticas se intensificam.

Estados e empresas que conseguem diversificar seus parceiros comerciais e ampliar sua competitividade se tornam menos vulneráveis às turbulências externas. Mato Grosso do Sul demonstra estar seguindo esse caminho.

ARTIGOS

Como o El Niño e as barreiras protecionistas interferem na pecuária moderna

Intensificar a expansão sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo na pecuária

09/09/2026 07h25

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Estamos prestes a iniciar uma das estações de monta mais desafiadoras da nossa história. O pecuarista que encarar esse momento apenas como mais um ciclo reprodutivo corre o risco de ver sua margem operacional evaporar nos próximos dois anos.

Em Mato Grosso do Sul, a pecuária tem sofrido forte pressão de outras culturas: a rápida expansão da soja, das florestas plantadas e da citricultura reduz as áreas de pastagens disponíveis, forçando-nos a intensificar cada vez mais a produção.

Porém, intensificar sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo.

Para enfrentar esse cenário complexo, agravado pelas previsões de calor severo e chuvas irregulares ocasionados pelo El Niño, apresentamos três quebras de paradigma imprescindíveis para o sucesso da safra 2026/2027:

Primeiramente, a matriz vazia não é necessariamente apenas um indicativo de falha reprodutiva, lembre-se que ela é uma importante fonte de receita para o criador de bezerros.

Tradicionalmente, o produtor hesita em descartar fêmeas falhas, carregando-as na esperança de um resultado tardio. Mas a matemática é implacável, matrizes vazias inflam a taxa de lotação da fazenda, porém não ajudam a pagar as contas.

Diante de pastagens castigadas pelo estresse térmico e pela degradação hídrica do El Niño, manter essa “máquina” improdutiva consumindo recursos é insustentável.

O descarte  dessas fêmeas vazias ao fim da estação de monta deve ser inegociável, trata-se de uma estratégia para gerar receita e aliviar os pastos na seca para priorizar os animais produtivos.

Em segundo vem a “guerra silenciosa” por áreas e a armadilha inflacionária do milho.  Disputamos por áreas produtivas diretamente com a agricultura e a silvicultura. Com menos espaço para a pecuária, a resposta óbvia tem sido a transição para sistemas que adotam semiconfinamento e confinamento.

Mas surge aí uma nova competição por outro recurso: o milho. A consolidação de gigantes usinas de etanol de milho no Estado estabeleceu uma demanda contínua que inflaciona o grão. Antes de confinar, o produtor deve priorizar a produção de arrobas em pastagem.

A arroba mais barata continua sendo aquela produzida a pasto.

E em terceiro, a estação de monta como uma “máquina do tempo” para o mercado de 2028. O cerco internacional se fechou. A União Europeia barrou as importações de animais que tenham consumido antimicrobianos (promotores de crescimento químicos).

Paralelamente, as cotas da China para a carne brasileira foram atingidas e o excedente será taxado em mais 55%. No bolso do produtor, a suspensão do bônus Hilton representa uma perda direta de aproximadamente R$ 6,00 por arroba do animal abatido.

Como o MS tem seu foco na produção de animais precoces e superprecoces, abatidos entre 18 meses e 24 meses, as decisões sobre o protocolo sanitário e nutricional do bezerro concebido hoje definirão a liquidez dessa safra em 2028.

Planejar o fluxo de caixa, determinar o custo real de cada arroba produzida e antecipar-se às barreiras comerciais não são mais opcionais: são condições imprescindíveis para maximizar o resultado da operação pecuária.

EDITORIAL

Caos que não pode ser normalizado

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros

09/09/2026 07h15

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Nesta edição, mais uma vez, mostramos o caos financeiro da Santa Casa de Campo Grande e suas implicações. E elas têm se agravado somadas à má gestão financeira do hospital.

Não há mais como aceitar a justificativa de que a Santa Casa é um hospital de “portas abertas” e que, por isso, os recursos públicos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nunca são suficientes para equilibrar as contas.

É evidente que pode haver insuficiência de recursos para manter uma estrutura desse porte, mas a falta de dinheiro não pode servir como explicação permanente para um cenário de desorganização financeira. Talvez faltem recursos, mas não ao ponto de justificar o caos atual.

Quando uma instituição recebe recursos públicos em valores expressivos, a sociedade tem o direito de saber como esse dinheiro é utilizado. E é justamente aí que está um dos maiores problemas da Santa Casa: falta transparência.

As contas e os contratos de terceirização não permitem compreender com clareza onde estão os custos. É preciso saber se não há situações injustas, com muita gente produzindo pouco enquanto recebe muito dinheiro.

Não se trata de acusar ninguém sem provas, mas de exigir que os números permitam afastar dúvidas. A falta de transparência abre espaço para questionamentos sobre a eficiência dos contratos e da estrutura administrativa da Santa Casa de Campo Grande. Uma gestão responsável deveria esclarecer essas questões.

Também chama atenção o peso dos juros pagos mensalmente pela instituição. São milhões de reais que deixam de ser destinados à atividade hospitalar para remunerar dívidas acumuladas. Em algum momento, é preciso atacar as causas do problema.

A Santa Casa também poderia ter mais capacidade de gerar caixa e depender menos dos repasses do SUS. Isso exigiria planejamento e revisão de despesas, processos e contratos. Aparentemente, não há um trabalho consistente nessa direção.

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros. Parte dessas dificuldades pode decorrer não apenas da falta de recursos, mas também de uma gestão que não demonstra eficiência e transparência.

A Santa Casa de Campo Grande precisa de recursos, mas precisa também de gestão. Precisa do Sistema Único de Saúde, mas deve buscar reduzir sua dependência.

E precisa, principalmente, abrir suas contas para distinguir aquilo que é efetivamente falta de dinheiro daquilo que pode ser consequência de decisões administrativas equivocadas. Sem isso, o problema continuará sendo empurrado para o futuro, enquanto a conta ficará para a sociedade.

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