Alvos da Operação Buraco sem Fim, que descobriu esquema nos contratos de manutenção asfáltica, continuam na cadeia
A Operação Buraco sem Fim, que descobriu um esquema milionário nos contratos de tapa-buraco em Campo Grande, completou uma semana e seus sete alvos continuam atrás das grades, incluindo o “barão” do serviço e o ex-secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos Rudi Fiorese.
Na quarta-feira, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio de investigação liderada pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), desmantelou suposta quadrilha que agia na Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep).
Um levantamento do órgão indicou que, entre 2018 e 2025, a empresa investigada acumulou contratos e aditivos que somam o montante de R$ 113,7 milhões.
Na sexta-feira, o desembargador Zaloar Murat Martins de Souza, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), negou o pedido de liberdade feito pela defesa de Mehdi Talayeh, Rudi Fiorese e Edivaldo Aquino Pereira.
Em sua decisão, o desembargador afirmou que, diante das funções de cada um dos citados no esquema, há elementos para manter as prisões preventivas.
“Observa-se que a autoridade coatora apontou elementos concretos extraídos da investigação para justificar a decretação da prisão preventiva, especialmente a gravidade concreta das condutas imputadas, a complexidade do suposto esquema criminoso, a permanência temporal das práticas investigadas e o elevado prejuízo causado ao erário”, disse.
Além dos três, Fernando de Souza Oliveira (ex-servidor), Erick Antônio Valadão Ferreira de Paula (ex-servidor), Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa (dono da Construtora Rial, empresa que foi alvo da investigação) e Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa (empresário e pai do proprietário da empresa).
Vale destacar que a Sisep está sem comando oficial desde o dia 1º de abril, quando Marcelo Miglioli foi exonerado para disputar as eleições deste ano.
De acordo com a prefeita, o sucessor deverá ser o secretário-adjunto Paulo Eduardo Cançado Soares, mas, até o momento, sua nomeação não foi publicada de forma definitiva.
RELATOS
A Construtora Rial, pivô do escândalo, é responsável pelo tapa-buraco de quatro das sete regiões da cidade: Anhanduizinho, Bandeira, Imbirussu e Segredo. Somando o valor original desses contratos e seus aditivos, a parceria atual entre a empresa e a Sisep soma R$ 114.608.571,16.
Sebastião Lázaro, de 46 anos, mora no Bairro Rouxinóis, na região Bandeira, há quase quatro décadas. Em conversa com o Correio do Estado, ele revelou que já teve prejuízo com seu carro em função dos buracos na área e disse que nunca tinha visto o asfalto da cidade em uma situação tão drástica. Além disso, criticou o esquema milionário de desvio dos contratos de tapa-buraco.
“A situação está feia porque não são só os buracos, é o carro e a moto que quebra, é o ciclista que cai. É muito complicado porque, além de ter os buracos, eles cobram da gente o licenciamento, dizem que é para manter as vias pavimentadas e a gente paga. Se tiver um documento atrasado, eles vêm e levam seu carro, mas a obrigação deles de tapar buraco, de manter as vias certinhas, não existe”, lamentou.
“Os caras não tampavam o buraco e roubavam o nosso dinheiro. Foi um sucesso prender os vagabundos e bandidos, porque, quando chega o seu carro estragado ou atrasado, você se torna um bandido, você se torna uma pessoa irregular na sociedade. E, nesse caso, é o poder público que está responsável”, afirmou o morador.
Mário Benites, de 62 anos, mora na região Anhanduizinho, mais especificamente no Bairro Aero Rancho, desde 2005.
Ele também relatou à reportagem que há muito tempo não observa a empresa na localidade para tapar os buracos e acredita que a situação chegou a este ponto em razão da continuidade do estado de abandono desde gestões passadas.
“Nessa região a gente percebe que está faltando assistência para nós. Acho que depende das administrações dos prefeitos, e isso vai acumulando. Tem um acúmulo de problema que vai indo até chegar num ponto que não dá mais. E a gente cuida na frente da casa o que pode”, comentou.
Na região Imbirussu, na Vila Popular, mora o aposentado Manoel Gomes, que também concordou com os outros dois relatos de que os buracos estão “pipocando” na Capital.
Ele disse que, recentemente, contou em uma rua do bairro 39 buracos em apenas 100 metros de asfalto.
“Eu acho que não tem nem dois meses que fizeram a recapagem aqui. Outro dia, eu fiz uma pesquisa aqui e consegui contar, de uma esquina à outra, 39 buracos. Um buraco desse tamanho não se cria do dia para a noite. Agora, se tiver uma manutenção constante, ele não vai chegar nesse ponto. E não é só uma rua, todas as ruas para baixo estão assim também, desse mesmo jeito”, explicou.