Criado há nove anos por Nadia Ayumi Arakaki e Bruna Vitória Borges Gasparini, perfil virou referência para quem busca restaurantes e vitrine para empreendedores da Capital
Campo Grande sempre teve na comida mais do que uma resposta para a fome. Sair para jantar, descobrir um restaurante, reunir amigos em volta da mesa ou percorrer a cidade atrás daquele prato que alguém recomendou faz parte da rotina e da memória afetiva de muita gente.
Foi observando justamente esse hábito e vivendo-o que Nadia Ayumi Arakaki, de 29 anos, e Bruna Vitória Borges Gasparini, de 30 anos, começaram a construir, há nove anos, uma das comunidades gastronômicas mais conhecidas da Capital.
O que nasceu de maneira simples, com fotos e informações sobre os lugares onde gostavam de comer, encontrou rapidamente uma necessidade que muita gente compartilhava: antes de sair de casa, o campo-grandense queria saber onde estava indo, quanto gastaria e o que encontraria no prato.
“Tem muito a ver com a própria história do Comer em CG, que também nasceu dessa vontade de saber como era o local antes mesmo de ir, quanto custa e o que tem lá”, explica Nadia em entrevista ao Correio do Estado.
A ideia era quase a de um catálogo afetivo da cidade. Aos poucos, o perfil deixou de reunir apenas as descobertas das duas amigas e passou a ajudar milhares de pessoas a decidir onde almoçar, tomar um café, comemorar, encontrar uma sobremesa diferente ou, simplesmente, experimentar algo novo.
O reconhecimento veio devagar, na mesma velocidade do crescimento orgânico da página. Primeiro, os pedidos de indicação. Depois, as mensagens. Por fim, uma frase que passou a se repetir fora das telas: “A gente sempre olha o Comer em CG antes de sair”.
Mais do que seguidores, surgiu uma nova relação entre quem procura uma experiência gastronômica e quem a oferece.
É possível acompanhar essa transformação também na interação que movimenta o perfil nas redes sociais. Nos comentários, nas mensagens e nos conteúdos compartilhados, a antiga pergunta “onde vamos comer?” ganhou uma espécie de atalho: o seguidor procura, assiste, compara, salva e decide.
A facilidade de ter, no celular, uma prévia do ambiente, do prato e do preço acabou se misturando aos próprios hábitos de Campo Grande, uma cidade que faz da gastronomia um programa, mas que, como qualquer cidade em transformação, passou a descobrir novos endereços com a velocidade de uma tela.
A força dessa ponte aparece, principalmente, do outro lado da mesa. Proprietário do Sutil Café Bar, o empresário Murilo Sutil, de 29 anos, sentiu o efeito da divulgação quase imediatamente. Segundo ele, após o primeiro vídeo publicado pela dupla, a página do estabelecimento ganhou entre 1,9 mil e 2,2 mil seguidores em apenas 24 horas.
A repercussão, no entanto, não ficou restrita ao digital. “Eu notei muita diferença no movimento, em todas as partes, tanto digital quanto presencial”, relata o empresário.
Para Murilo, o diferencial está justamente na maneira como Bruna e Ayumi conversam com o público. “Elas falam uma linguagem muito popular, conversam como amigos da gente. Conseguem transmitir o desejo em cima do produto de forma muito natural e orgânica”.
É assim que uma indicação pode se transformar em mais do que visualização. Pode levar clientes até a porta, aumentar o movimento, ampliar equipes e até ajudar um pequeno negócio a crescer.
As próprias criadoras do Comer em CG acumulam histórias assim. Entre elas, lembram de um carrinho de cachorro-quente de rua, conhecido pelo purê de batata como diferencial. “O vídeo viralizou, as filas se estenderam por semanas e os produtos passaram a esgotar antes do horário de fechamento. Hoje, o negócio tem várias unidades”, diz Bruna ao relembrar histórias que ficaram na memória e no paladar.
Também houve estabelecimentos que conseguiram ampliar o espaço e contratar mais funcionários após a repercussão dos conteúdos. A comida continua sendo o centro da história. Mas, ao redor dela, Campo Grande ganhou uma nova forma de descobrir a própria cidade.
CG EM DOBRO
A evolução seguinte nasceu da mesma pergunta que havia dado origem ao Comer em CG: como facilitar a experiência de quem quer sair e conhecer algo novo?
Se o perfil ajudava o público a descobrir onde ir, faltava criar uma vantagem para transformar aquela curiosidade em decisão.
Foi assim que surgiu o CG em Dobro, projeto separado do Comer em CG, mas que nasce da experiência construída pela dupla com sua comunidade. A ideia reúne, em um aplicativo, indicações e benefícios para que os usuários possam conhecer estabelecimentos e utilizar cupons que oferecem pratos em dobro.
Segundo o site oficial, a edição atual do tour gastronômico reúne mais de 130 cupons e prevê economia superior a R$ 5 mil em benefícios, com uso pelo aplicativo até agosto do ano que vem. A plataforma funciona com pagamento único para acesso aos cupons e validação por QR code nos estabelecimentos participantes.
A proposta resolve uma equação simples: de um lado, pessoas que querem conhecer novos lugares, mas nem sempre estão dispostas a correr o risco de gastar em uma experiência desconhecida; de outro, empresas que precisam ser descobertas.
“Os seguidores queriam conhecer lugares e ter descontos. Os estabelecimentos queriam novos clientes e movimento”, explica Bruna.
A ideia dos cupons, por si só, não é nova. A mudança está na combinação. Em vez de procurar uma promoção isolada, o usuário encontra no aplicativo uma seleção de lugares que já passaram pelo universo de indicações construído pelo Comer em CG.
“Não inventamos a roda no quesito cupom de descontos, mas aliar esses descontos às nossas indicações e credibilidade torna o CG em Dobro diferente”, avalia Bruna.
A conexão também se apoia em uma tendência que Campo Grande aprendeu a incorporar: a experiência começa antes de sair de casa. Começa na tela, na busca pelo cardápio, no vídeo de alguém provando um prato, no endereço salvo para o fim de semana.
Para os empresários, a lógica também muda. Não se trata apenas de aparecer em uma publicidade, mas de tentar transformar visibilidade em presença física. “É uma estratégia de marketing de experiência. Diferente de um outdoor ou só um vídeo, nós levamos de fato as pessoas a experimentarem o lugar”, ressalta Nadia.
Nove anos depois das primeiras publicações, o Comer em CG continua, em essência, respondendo à mesma curiosidade: o que existe de bom logo ali, talvez a poucos quilômetros de casa, que eu ainda não conheço?
A diferença é que, agora, a resposta pode caber inteira na palma da mão.
E talvez seja essa a maior transformação provocada por uma ideia tão simples. Duas amigas começaram mostrando o que comiam. No caminho, ajudaram a fazer com que mais pessoas descobrissem novos sabores, mais estabelecimentos encontrassem público e a própria cidade enxergasse, com outros olhos, a riqueza que já tinha à mesa.
Aplicativo criado em Campo Grande promete concorrer em pé de igualdade com gigantes do mundo virtual (Foto: Paulo Ribas)