Cidades

Cidades

"Quando cheguei, a gente só podia trabalhar no trânsito, as mulheres lutaram muito para mudar isso"

Neidy Nunes Barbosa Centurião, primeira mulher a comandar a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, conta como foi a sua trajetória na corporação até se tornar coronel da instituição

Continue lendo...

Neidy Nunes Barbosa Centurião tem feito história na Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS). Depois de ter sido a primeira mulher a se tornar coronel da corporação, em 2020, a militar assumiu o comando da PMMS no ano passado, em virtude do afastamento do comandante-geral da instituição, coronel Renato dos Anjos Garnes, que sofreu um acidente. A gestão foi de cerca de 60 dias, mas foi a primeira vez que uma mulher assumiu o posto no Estado.

Entrevistada desta semana, Neidy conta como decidiu seguir a carreira militar, quando ainda poucas mulheres seguiam o mesmo caminho na corporação. A militar revela ainda que entrou com 17 anos, logo após passar em um concurso, e precisou sair de casa antes de atingir a maioridade, a fim de fazer o curso de oficial da Polícia Militar, que na época só era feito em São Paulo. Confira a seguir.

_

Por que a senhora decidiu entrar para a Polícia Militar? Em que ano foi isso?

Eu estava terminando o terceiro ano do Colegial na época. 

O pai de uma amiga, que era tenente do Exército, chegou e falou: “Olha, está aberto o concurso da PM para oficial. Você não gostaria de fazer? É um concurso, é legal”. “Morro de medo da polícia, como é que eu vou ser policial? Como é que eu vou fazer um negócio desse?”, respondi.

“Não menina, vai, é porque você não conhece, você vai aprender o que a polícia faz, vai aprender o trabalho, vai aprender as técnicas, a parte operacional e tal, fica tranquila. Sem contar que eles vão te formar em um nível superior. Quando você voltar de lá, já tem um trabalho, já tem uma garantia, e aí você faz o que você quiser”, ele me disse. Então, eu entrei para a polícia meio que buscando um emprego, uma estabilidade, com 17 anos. Isso foi em fevereiro de 1994.

O concurso foi no ano anterior, e eu passei. Assumi em 1994, fui para São Paulo, fiz academia lá, mais quatro anos [de estudo], até porque não tínhamos ainda academia por aqui [em MS]. Voltei aspirante, trabalhei no trânsito, trabalhei em Corumbá e em Dourados.

Sou natural de Coxim, nasci ribeirinha lá, mas aos sete anos fui morar com os meus pais em Costa Rica. A gente foi lidar com a pecuária leiteira. E sou a única [militar] na família, tanto por parte de pai quanto de mãe. As únicas coisas de militarismo que eu ouvia falar era de quando meu pai servia no Exército, só isso. Eu ficava encantada com aquilo, com a maneabilidade, com a sobrevivência e com a superação.
 
Seu pai deu apoio quando a senhora decidiu entrar para a PM?

Ele achou estranho, porque eu tinha só 17 anos, ia embora para São Paulo com aquela idade. Mas por ser uma carreira militar, por ser em um colégio militar e por eu já conhecer um pouco do que era o militarismo do Exército, [ele] sabia que tinha uma certa segurança. Aí fui para São Paulo, me apaixonei pela PM perdidamente. Entrei aqui [na PMMS] como um trampolim e estou até hoje.

A senhora faz parte de uma corporação formada em sua maioria por homens. Como foi no começo da sua carreira militar?

Eu tenho como característica uma resiliência muito grande nas coisas, e isso acho que meu pai me ensinou desde berço, de que tudo o que eu quisesse teria que lutar muito para conseguir, que eu não ia conseguir de graça. Quando me apaixonei pela PM, 
não existia a possibilidade de fazer outra coisa. Então, eu precisava arrumar estratégias e métodos de como me aproximar desse público, que era um público masculino.

Minha estratégia foi o cuidar, porque era algo que eles [homens] sentiam falta na instituição, mas sem deixar de ser operacional, de ir para as operações, de estar com eles. 

Mas eu estava sempre olhando e cuidando da parte da relação pessoal, de incentivá-los, de trabalhar [junto], até [no sentido] de orientação.

Você acha que isso ajudou a criar uma relação de respeito?

Acredito que sim, até porque em todas as falas, inclusive as que eu ouço deles, têm esse lado carinhoso que eles têm comigo, e eu sinto o carinho deles comigo dessa forma. Tem o respeito, sim, tem o respeito pela hierarquia, mas também de irmandade, de parceira.
 
Recorda-se de algum episódio em que tenha sentindo tratamento diferente por ser mulher, tanto na corporação quanto nas pessoas na rua?

Onde eu enfrentava mais dificuldade não era com o público interno da instituição, não, com os policiais, mas na atuação fora da corporação, quando a gente estava em operação. Éramos poucas mulheres ali, de fato, fazendo as abordagens. E via de regra, se você está em uma abordagem [policial], em um local de conflito [com algum suspeito], já existe toda aquela parte do alcoolismo envolvido, isto é, do cara estar alterado. Então, ele [o sujeito abordado], claro, não queria obedecer uma “baixinha”.

São vários pontos que posso destacar que existiam por a gente ser mulher. Vai ser homenageada? É porque é mulher, porque precisa fazer política. Por que é subcomandante? É que o governo precisa fazer política. “Ter uma mulher faz bem para a política”, coisas do tipo. Mas por um outro lado, a gente vai com o tempo conquistando espaço e prova sem briga. No meu caso, até porque a minha escolha foi a de lutar sem briga, por ter demonstrado competência de trabalho.

É claro que é uma devoção, uma dedicação muito grande, mas nada que fosse escrachado que é porque você é mulher. Você consegue sentir, mas sem conseguir provar, percebe nas entrelinhas o que está acontecendo. No meu caso, eu optei por também estar nas entrelinhas fazendo demonstrações e provando de outras formas com muito cuidado.

Eu tenho muito orgulho de dizer que as minhas promoções foram por merecimento. Tenho todas as medalhas da Polícia Militar conquistadas e me orgulho de tê-las e de poder ostentá-las no meu peito.

Como foi a evolução da carreira da senhora?

Quando cheguei aqui, a gente [mulher] só podia trabalhar no trânsito. Podia trabalhar no trânsito ou no administrativo. Sempre tive o desejo de estar na rua, só que eu detestava o trânsito.

Logo depois disso, as políticas internas foram mudando. As mulheres lutaram muito por isso. As que estavam na minha frente, elas lutaram muito. Após um ano e pouquinho no trânsito, aí fui para a Cavalaria, que estava sendo montada aqui em Campo Grande, daí fomos ajudar a montar a Cavalaria de Dourados também, depois. E aí voltei de Dourados.

Trabalhei no 1º Batalhão, na área central de Campo Grande, fiquei lá por um bom período. Depois voltei para o trânsito a convite, fiquei uns dois anos lá, e aí fui ser subcomandante de Corumbá, em 2005. Em 2008, voltei de Corumbá já como capitã, vim trabalhar no gabinete de assistente do comandante-geral. O chefe na época era o coronel David, e aí vim trabalhar com ele.

Fiquei aqui até 2011, trabalhei na PM, daí eu fui trabalhar como subcomandante em 2012, eu fui subcomandante do Batalhão Rodoviário.

No Batalhão Rodoviário, fiquei por uns dois anos, quase três anos, e fui convidada para comandar a Cavalaria. Então voltei para a Cavalaria e fiquei quatro anos. E aí fui para a Policlínica, fiquei dois anos, tudo em Campo Grande.

E aí fui para a Comunicação, fiquei lá um ano e pouquinho. Depois vim para ser assistente do gabinete do comandante-geral como tenente-coronel, até fui promovida a coronel, em 2020, e, no ano passado, vim assumir o subcomando da PM.

Como a senhora vê as tentativas para trazer igualdade de gênero à sociedade como um todo, não só na polícia, mas nas empresas, e as políticas de empoderamento feminino?

Eu acredito, como sou mais velhinha, que houve muitas mudanças. Houve, sim, bastante empoderamento feminino. Nós temos vários casos, e no Estado isso é garantido, nos cargos do Estado a igualdade é plena. Agora, na sociedade civil, no emprego civil, ainda existem dificuldades.

Veja bem, é muito mais simples você controlar e, assertivamente, colocar uma política que possa funcionar dentro do Estado, dentro das instituições, onde têm regramentos, como é o caso da Polícia Militar, regramento firmes e que ambos os sexos vão ter de cumprir, vão ser cobrados. Então, não vai ter como ter a desigualdade ou a diferença.

Sempre temos como melhorar. Sempre temos o que melhorar em todos os aspectos, tanto de legislação quanto de fazimento. Nós temos, por exemplo, institucionalmente, ao longo dos anos, sempre dado oportunidades para mulheres comandarem a instituição.

Nós temos, em Campo Grande, a comandante do 1º Batalhão, que é o mais antigo do Estado, a tenente-coronel Kátia. E nas Moreninhas nós temos outra mulher comandando também, que é uma companhia. Maracaju é uma mulher comandando, Fátima do Sul é uma mulher comandando. De forma que isso tem se tornado normal dentro da instituição, ao passo que antes não havia essa leitura. 

E as meninas lutam todos os dias para provar, para garantir, para conseguir subir mesmo na carreira.
 
Na sua visão, o que ainda falta evoluir para que as mulheres tenham, de fato, igualdade salarial e de tratamento?

Na polícia, a igualdade salarial é ok, já é uma realidade. A gente compete com os homens com objetividade.

Eu, por exemplo, fui promovida na frente de alguns colegas de turma. Então, isso também é normal dentro da instituição, mas, via de regra, são obedecidos todos os ditames legais aqui dentro. A gente tem de fazer a nossa parte também enquanto mulheres, nada vai ser de graça.

Agora, na sociedade, é uma mudança social, uma mudança de comportamento, de pensamento, de filosofia, e isso ainda, eu acredito, pelo que a gente tem visto, vai demorar um pouco para ser plena, como a gente vê em outros países. É muito difícil dizer que também só o Estado, só nós que lutamos é que vamos conseguir fazer com que isso [a mudança] aconteça.

A senhora foi comandante-geral da PM em MS, a primeira mulher a chefiar a corporação. Como a senhora se sentiu com esse feito? Espera que um dia outra mulher possa comandar a polícia?

Com certeza [outras mulheres devem assumir], nós temos inúmeras mulheres com grande competência dentro da instituição.

Vai acontecer brevemente, logo, logo teremos grandes conquistas dentro da instituição. Nós temos tenentes-coronéis excelentes, muito capacitadas e se tornarão coronéis em um período de três anos.

No meu caso, foi uma conquista muito grande, de verdade. Eu me preparei, mas eu não esperava que fosse acontecer. Me surpreendeu porque eu era subcomandante, é claro que eu fui comandante por um período, em decorrência do afastamento, mas continuei, estive lá, firme e forte.

Nas instituições, e principalmente na Polícia Militar, onde a gente comanda, ou seja, manda junto, nós temos um grupo de coronéis muito colaborativo, um grupo de coronéis muito parceiros, temos 30 anos juntos. E nesse momento difícil de comando, para qualquer um, o trabalho em equipe é fundamental. A conversa entre si e as decisões tomadas em conjunto fazem com que a gente erre menos, que a gente dê melhor encaminhamento para a instituição.

Então, foi uma oportunidade maravilhosa que eu sinceramente só tenho a agradecer a todos que colaboraram com isso, independentemente de ser soldado, coronel ou sargento, cada um no seu caminho.

No ano passado a gente tirou esses números excelentes para a população. Nós batemos os números de 2022, que eram números que a gente, por serem da época de pandemia, não imaginava que pudesse conseguir. A gente foi lá, conseguiu e deu conta, por meio de várias nuances, várias estratégias e muito trabalho.

Como a senhora vê o sempre grande número de mulheres que sofre violência doméstica? Que orientações a senhora dá para quem estiver nesta situação?

Eu oriento que continue a denunciar. Nós temos, estatisticamente, que as mulheres que denunciam até podem ser vítimas novamente, mas são pouquíssimas as que morrem. 

Para as que não denunciam e continuam no anonimato, que continuam submissas àquela violência, as agressões só tendem a crescer.

Então, que elas tenham coragem e denunciem. Não temos de ter vergonha dos números de denúncia. No ano passado, aumentou o número de denúncias, em consequência, diminuiu em 22% o número de feminicídios.

_

Perfil

Neidy Nunes Barbosa Centurião

Ingressou na Polícia Militar em 1994, depois de passar no concurso público de 1993 para oficial da instituição. Comandou 
a Companhia de Trânsito, o Policiamento Montado, o 1° Batalhão da Capital, a Comunicação Social e a Cavalaria da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS), o Batalhão Rodoviário e o Subcomando da PMMS em Corumbá.

Assine o Correio do Estado

ELEIÇÕES 2026

População tem menos de 20 dias para regularizar título de eleitor

A Justiça Eleitoral de Mato Grosso do Sul intensificou o atendimento ao público e realizará um "mutirão" em finais de semana e feriado até o dia 6 de maio

18/04/2026 18h30

Eleitores têm até o dia 6 de maio para tirar o título de eleitor

Eleitores têm até o dia 6 de maio para tirar o título de eleitor Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Continue Lendo...

A contar a partir de hoje, sábado (18), a população apta a votar nas Eleições 2026 têm até 6 de maio para tirar o título de eleitor, atualizar dados cadastrais, transferir o domicílio eleitoral ou regularizar pendências na Justiça Eleitoral, de acordo com o calendário eleitoral deste ano.

Após esta data, ou seja, a partir de 7 de maio, o cadastro eleitoral estará fechado para o recebimento de novas requisições referentes ao pleito, marcado para 4 de outubro (1º turno). A medida cumpre, assim, a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), que estabelece o fechamento do cadastro 150 dias antes do pleito.

Além de não poder votar, quem estiver com o título cancelado ou irregular pode enfrentar outras restrições previstas em lei.

Segundo dados divulgados pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MS),  aproximadamente 79,2 mil sul-mato-grossenses estão com o título irregular e correm o risco de não votar nestas eleições até o último dia 6, quando ainda restavam 30 dias para o término do prazo. Vale ressaltar que este número atualiza diariamente e que os números são aproximados.

Quem precisa tirar o título?

O voto é obrigatório para quem tem acima de 18 anos de idade. É facultativo para pessoas analfabetas, maiores de 70 anos e jovens de 16 e 17 anos. Estrangeiros e cidadãos em serviço militar obrigatório não podem se alistar para votar.

Como posso solicitar o título de eleitor?

Veja as formas de solicitação:

- Autoatendimento Eleitoral: disponível no Portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
- Cidadão pode ir a um cartório eleitoral ou postos de atendimento da Justiça Eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alerta que aqueles que optarem pelo atendimento on-line precisam ir a um cartório ou posto de atendimento para a coleta da biometria.  

Confira os documentos necessários para tirar o título: 

  1. Documento oficial de identificação com foto (carteira de identidade, carteira de trabalho ou passaporte);
  2. Comprovante de residência recente;
  3. Comprovante de quitação do serviço militar para homens que completam 19 anos no ano do alistamento.
  4. É importante que o documento de identificação permita a comprovação da nacionalidade brasileira e contenha foto.

Mutirão

Com o prazo final para regularização do título eleitoral próximo, a Justiça Eleitoral de Mato Grosso do Sul intensificou o atendimento ao público e realizará um “mutirão” em finais de semana e feriado até o dia 6 de maio, data limite para atualização cadastral de quem pretende votar no pleito geral deste ano. 

De acordo com a Portaria CRE nº 2/2026, os Cartórios Eleitorais e as Centrais de Atendimento funcionarão em regime de plantão, das 8h às 13h, no feriado de 1º de maio (Dia do Trabalhador) e nos sábados dos dias 18 e 25 de abril, além do fim de semana dos dias 2 e 3 de maio.

Em Campo Grande, o atendimento ocorre no Memorial da Cultura (antigo fórum estadual), localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, 559, região central. Durante a semana, o funcionamento segue normalmente, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

A Justiça Eleitoral reforça que o prazo para regularizar a situação do título se encerra em 6 de maio, sem previsão de extensão. A consulta da situação eleitoral pode ser feita por meio do autoatendimento disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No interior do Estado, o atendimento ocorre das 12h às 18h até o dia 27 de abril. Após essa data, o horário será ampliado para das 8h às 18h e segue até o encerramento do prazo.

Assine o Correio do Estado

OFENSIVA

Promotor não descarta ação civil pública em terceirização da Saúde na Capital

No início da semana, o Ministério Público instaurou procedimento administrativo para avaliar de perto proposta do Município em transformar unidades de saúde em Organizações Sociais

18/04/2026 17h30

O CRS Tiradentes é uma das duas unidades que a Sesau quer terceirizar

O CRS Tiradentes é uma das duas unidades que a Sesau quer terceirizar Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

Continue Lendo...

Após o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) entrar na polêmica da privatização das Unidades de Saúde de Campo Grande, o promotor responsável pelo caso não descartou ajuizamento de ação civil pública se porventura os estudos técnicos e jurídicos apresentados pelo Município não forem suficientes para justificar a proposta.

No início desta semana, o órgão fiscalizador divulgou que instaurou procedimento administrativo com o objetivo de avaliar a proposta da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) de terceirizar os Centros Regionais de Saúde (CRSs) do Aero Rancho e do Tiradentes para Organizações Sociais de Saúde (OSSs).

Ao Correio do Estado, o promotor Marcos Roberto Dietz, da 76ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, disse que, por enquanto, a entrada do Ministério Público no caso trata-se apenas de “acompanhamento de política pública, voltado à coleta de informações e à análise de sua legalidade e adequação”.

Diante disso, foram solicitados esclarecimentos à Sesau, com o objetivo de reunir elementos informativos necessários à formação da convicção ministerial, os quais ainda se encontram pendentes de resposta, especialmente após reunião realizada entre o Conselho Municipal de Saúde (CMS) e o órgão, no final do mês passado quando a proposta veio à tona.

Para o promotor, o principal ponto que precisa ser provado pela secretaria é de que o modelo proposto irá seguir a legalidade, como compatibilidade com o Sistema Único de Saúde (SUS), atuação complementar da iniciativa privada, transparência e efetiva possibilidade de fiscalização, este último que foi uma das maiores preocupações apontada pelo CMS na reunião.

Além disso, também observar se a transformação das unidades em Organizações Sociais de Saúde vai apresentar economicidade, eficiência na prestação do serviço, garantia de continuidade do atendimento e impacto positivo ao usuário, visto que se for para terceirizar os postos, é necessário ter uma melhora quando comparado com o quadro atual.

Por último, o promotor reforça que, caso persista a ausência de justificativa plausível ou se verifique que a medida é inadequada ou lesiva ao interesse público após a apresentação dos documentos, o Ministério Público pode tomar algumas medidas cabíveis, incluindo impedir que a proposta siga em frente.

“Inicialmente, poderá expedir recomendação administrativa. Contudo, diante de risco concreto à prestação do serviço de saúde ou da constatação de ilegalidade, é plenamente possível o ajuizamento de ação civil pública, com vistas à suspensão ou impedimento da implementação do modelo”, explica o promotor à reportagem.

Vale destacar que o procedimento administrativo ocorre paralelamente à tramitação, na Câmara Municipal, de projeto de lei que autoriza, de forma experimental e temporária, a celebração de contratos de gestão com Organizações Sociais para até duas unidades da rede municipal.

Resumo

No dia 26 de março ocorreu uma reunião entre a promotora de justiça do Núcleo de Apoio Especial à Saúde (Naes), Daniela Cristina Guiotti, e o presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS), Jader Vasconcelos, para debaterem a proposta feita pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) para mudança no modelo de gestão de algumas Unidades de Saúde da Capital.

Conforme consta na ata da reunião, a redução de custos é o principal motivo para o Município querer a mudança. “A proposta apresentada pelo gestor municipal tem como um de seus fundamentos a alegação de redução de custos, com estimativa de diminuição do valor mensal atualmente despendido (cerca de R$ 4,3 milhões) para aproximadamente R$ 3,9 milhões”, pontua.

Ainda consta no projeto a transformação das unidades CRS Coophavila II e CRS Nova Bahia em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), mas continuariam na mão do Executivo municipal. 

Contudo, para o MPMS, as propostas foram apresentadas “sem estudo técnico detalhado, parâmetros comparativos ou evidências que sustentem tal projeção”.

Há também a impressão, por parte do órgão fiscalizador e do Conselho, de que a mudança para Organização Social não vai resolver os gargalos destas respectivas Unidades de Saúde. 

Por outro lado, o novo modelo pode atrair outros problemas ou piorar os que já estão presentes nas Unidades de Saúde.

“O modelo de gestão apresenta histórico de elevação de custos ao longo da execução contratual, sobretudo por meio de sucessivos termos aditivos, o que, na prática, pode tornar o serviço mais oneroso do que a gestão pública direta”, explica.

“Ressaltou-se, ainda, que as Organizações Sociais possuem natureza jurídica de direito privado, operando sob lógica empresarial, o que pode implicar flexibilização de regras de contratação de pessoal, sem concurso público, possibilitando vínculos precários, disparidades remuneratórias e eventuais indicações políticas, em potencial afronta aos princípios da isonomia e da impessoalidade”, completa o documento.

Com a contratação de uma empresa para gerir as Unidades de Saúde, aconteceria a retirada de servidores efetivos das unidades, a dispensa de profissionais contratados e a redução da força de trabalho, “cenário que poderia gerar dependência estrutural do Município em relação à entidade privada”, de acordo com o projeto e com a reflexão do Conselho.

Por fim, foi sinalizado que os problemas apresentados recentemente na Saúde de Campo Grande são oriundos de deficiência na gestão, e não no modelo jurídico.

À exemplo, o presidente do Conselho cita irregularidades encontradas em contratos vigentes sob valor aproximado de R$ 28 milhões, especialmente no setor de limpeza, bem como ausência de insumos básicos, como papel higiênico.

Diante destes pontos e da demora da Pasta para apresentar estudos e documentos que corroborem a proposta, o MPMS decidiu instaurar o procedimento administrativo. Agora, o secretário municipal de Saúde de Campo Grande, Marcelo Vilela, terá até 15 dias úteis para prestar esclarecimentos a respeito dos fatos relatados.

Protestos

No último dia 10, profissionais de saúde e representantes da sociedade civil lotaram a Câmara Municipal para se manifestar contra a proposta do Município de entregar os CRSs do Tiradentes e do Aero Rancho às OSSs.

As críticas partiram de quase todos os segmentos que atuam nesses centros regionais: médicos, farmacêuticos, assistentes sociais, enfermeiros e técnicos de enfermagem, além de conselheiros de saúde e pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).