"Ladeira do Porto Acima..." reúne pesquisa, história, patrimônio e identidade cultural para revelar um capítulo ainda pouco conhecido da arquitetura sul-mato-grossense; lançamento acontece hoje, em Campo Grande
Quando se fala em patrimônio arquitetônico de Corumbá, é comum que as primeiras imagens remetidas à memória coletiva sejam os casarões históricos, as fachadas neoclássicas do Porto Geral e os edifícios erguidos durante o auge econômico da navegação fluvial no fim do século 19.
No entanto, existe uma outra cidade construída ao longo do século 20, marcada pelas linhas retas, pelos volumes geométricos e pelos princípios da arquitetura moderna, que permanece pouco conhecida, pouco estudada e, principalmente, pouco protegida.
É justamente esse patrimônio que ganha protagonismo em “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura Moderna e Memória de Corumbá”, livro do arquiteto e urbanista corumbaense Bosco Delvizio, que será lançado hoje, às 19h, na Casa de Cultura, em Campo Grande, com entrada gratuita.
A publicação, realizada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Mato Grosso do Sul (IAB-MS), com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU-MS) e selo da Life Editora, é fruto de uma adaptação da dissertação de mestrado desenvolvida por Delvizio na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em 2004.
Mais do que uma revisão acadêmica, a obra transforma uma extensa pesquisa em um convite para revisitar Corumbá por meio de suas edificações e compreender como a arquitetura também constrói memória, identidade e pertencimento.
Natural de Corumbá, Bosco Delvizio, hoje aos 72 anos, acumula quase cinco décadas de atuação profissional.
Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro (RJ), iniciou a carreira participando de projetos imobiliários e institucionais na capital fluminense antes de retornar a Mato Grosso do Sul.
Em Campo Grande, atuou na administração pública, na iniciativa privada, em entidades profissionais e também como professor universitário, sempre mantendo vivo o interesse pela cidade onde nasceu.
Segundo o autor, publicar o livro representa um compromisso pessoal com sua terra natal.
“A realização e a publicação do livro, decorrente do desenvolvimento em versão adaptada da minha pesquisa de mestrado, me leva a compreender que, muito mais que uma escolha, esse trabalho se revela como meu compromisso em destacar a importância do rico e desconhecido patrimônio arquitetônico de minha cidade natal, especialmente centrado na produção da arquitetura moderna”, afirma.
ALÉM DOS CASARÕES
Sem a intenção de realizar um inventário completo das construções existentes em Corumbá, Delvizio seleciona edifícios que ajudam a compreender as transformações urbanas do município ao longo do século 20.
O objetivo é mostrar que a história arquitetônica da Cidade Branca não terminou com o período áureo da navegação fluvial.
Pelo contrário, ela continuou sendo escrita por arquitetos e engenheiros que trouxeram novas linguagens estéticas, novos conceitos construtivos e uma visão moderna para os espaços públicos e privados.
A pesquisa analisou 15 edificações representativas, organizadas em três grandes grupos: arquitetura neoclássica, art déco e arquitetura moderna.
A escolha foi proposital, permitindo estabelecer um contraste entre diferentes estilos para compreender como os próprios moradores reconhecem – ou deixam de reconhecer – o valor patrimonial de cada um deles.
Ao longo do estudo, Delvizio entrevistou cerca de 200 corumbaenses, de diferentes idades e perfis, numa espécie de consulta pública sobre o patrimônio arquitetônico da cidade.
O levantamento investigou o conhecimento da população sobre os edifícios históricos, sua importância cultural e o grau de identificação dos moradores com essas construções.
O resultado revelou que a arquitetura neoclássica continua sendo a mais valorizada pelos entrevistados.
Entretanto, também evidenciou que existe um importante conjunto de edifícios modernos praticamente invisível para boa parte da população, apesar de seu enorme valor histórico.
“Corumbá conta com um acervo histórico e cultural representativo da arquitetura moderna, mas sem proteção legal”, alerta o arquiteto.
Segundo ele, as constantes transformações urbanas colocam em risco construções que representam momentos importantes da história brasileira.
NIEMEYER EM CORUMBÁ
Entre os exemplos apresentados no livro, um ocupa posição de destaque: a Escola Estadual Maria Leite, considerada a primeira obra da arquitetura moderna em Corumbá.
Projetada por Oscar Niemeyer em 1952 e inaugurada em 21 de setembro de 1954, a escola representa um marco não apenas para a cidade, mas para toda a arquitetura moderna em Mato Grosso do Sul.
Para Bosco Delvizio, trata-se de um patrimônio cuja importância ainda precisa ser mais conhecida pela sociedade.
“É necessário reconhecer e divulgar junto à população o valor representativo dessa e de tantas outras obras”, ressalta.
Casa do ex-prefeito e arquiteto José Sebastião Cândia - Foto: Bosco DelvizioDepois dela, outras obras passaram a incorporar os princípios do movimento moderno internacional, especialmente durante as décadas de 1950 e 1960. Entre elas está a antiga sede da Receita Federal, instalada na Alfândega do porto, cuja linguagem arquitetônica rompe visualmente com os edifícios históricos do século 19.
O período coincide com um momento de forte incentivo ao desenvolvimento nacional, quando o governo federal investia na modernização das cidades brasileiras e na construção de edifícios públicos alinhados aos novos conceitos arquitetônicos.
Corumbá acompanhou esse movimento graças também ao trabalho de profissionais que, após estudarem fora do Estado, retornaram para aplicar novas referências em sua cidade natal.
O ARQUITETO PREFEITO
Entre esses personagens está José Sebastião Cândia, figura de destaque na história urbana corumbaense.
Arquiteto e prefeito de Corumbá entre as décadas de 1950 e 1960, Cândia foi um dos responsáveis por introduzir a arquitetura moderna na cidade. Sua atuação administrativa caminhou lado a lado com sua produção arquitetônica, ajudando a transformar a paisagem urbana naquele período.
Edifício I.O.S.A., inaugurado em 1959, com 13 andares, foi a primeira grande obra de verticalização na cidade - Foto: Bosco DelvizioDelvizio resgata uma memória pessoal que ajuda a explicar seu fascínio pela profissão.
Quando criança, durante as aulas de desenho ministradas pelo padre Lourenço, costumava observar um homem que desenhava na escola. Algum tempo depois, ao ver uma fotografia publicada em um jornal, percebeu que aquele desenhista era também o prefeito da cidade. Era José Sebastião Cândia, autor do projeto do novo edifício de sua escola.
“Fiquei admirado ao reconhecer ele em uma foto no jornal. Na mesma pessoa, prefeito e ‘homem que desenhava’, estava lá o arquiteto José Sebastião Cândia. Quanta coisa fazia o arquiteto!”, recorda o autor.
Esse episódio se tornou uma das inspirações que o levaram a seguir a carreira de arquiteto.
A SUBIDA DA LADEIRA
O próprio título da obra carrega uma metáfora profundamente ligada à cidade.
“Ladeira do Porto Acima...” faz referência às tradicionais ladeiras que conectam o Porto Geral à parte alta de Corumbá.
Para Delvizio, subir essas ladeiras significa muito mais do que vencer um desnível físico.
“Como tantas vezes escalei as do Porto Geral de Corumbá, subir uma ladeira exige constância, fôlego e concentração, mas amplia o olhar, muda perspectivas. Trago aqui visibilidade a essa arquitetura que é vista na parte alta da cidade quando se sobe as ladeiras do porto”, pontua.
Ao revisitar essas lembranças, o arquiteto afirma reencontrar também os caminhos da própria infância.
“Hoje, com o livro em mãos, vejo atalhos da minha infância”, destaca.
SERVIÇO
Lançamento do livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura Moderna e Memória de Corumbá”
Data: hoje.
Horário: às 19h.
Local: Casa de Cultura de Campo Grande – Avenida Afonso Pena, nº 2.270, Centro.
Entrada: gratuita.