“Rashomon” (1950), um dos destaques da filmografia do japonês Akira Kurosawa (1910-1998), mais do que um dos grandes filmes de seu país de origem, também é considerado uma obra-prima do cinema universal.
O enredo do filme, lembrando o que faria Nelson Pereira dos Santos na década seguinte, a partir do texto de Nelson Rodrigues em “Boca de Ouro”, gira em torno de diferentes versões para um crime.
Mais do que o tema de superfície que faz a história andar, como ocorre em outros de seus filmes, Kurosawa demarca a sua autoria e originalidade pelo modo conciso, sensível e sempre surpreendente de manejar os elementos da narrativa, valorizando a expressão e a humanidade de personagens – ou, de modo geral, das tomadas – em composições e cortes de ritmo próprio, permeados de poesia.
Se você já assistiu, que tal conhecer o trabalho da diretora Kinuyo Tanaka (1909-1977), outro grande nome do cinema japonês, mas bem menos conhecido que o mestre Kurosawa? Ela foi revelada, nos anos 1940, por Kenji Mizoguchi (1898-1956), outro gênio das imagens da Terra do Sol Nascente, antes de passar a dirigir os próprios filmes.
Mas tem também outra pérola mais recente do Japão, “Drive My Car” (2021), de Ryusuke Hamaguchi, premiado em Cannes e no Globo de Ouro, além de vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. Ou, do território europeu, o engajado e certeiro “Pão e Rosas”, do britânico Ken Loach, outra fera do cinema de arte.
Tudo isso de graça e depois de duas outras sessões cinco estrelas realizadas ontem, com a projeção de duas obras expressivas do cinema brasileiro contemporâneo: “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, e “Sertânia” (2019), de Geraldo Sarno.
QUASE FESTIVAL
A lista acima é um apanhado do que diferentes cineclubes de Campo Grande andam aprontando para o deleite dos cinéfilos, uma programação afiada, em que não faltam saborosos comentários e debates após cada exibição, e que transforma a seleção de títulos em um quase festival aleatório e espontâneo.
Em tempo: Transcine, Cinecafé e outros cineclubes dos mais ativos da Capital sequer apresentaram munição de suas curadorias para esses dias, o que, certamente, abrilhantaria o tapete vermelho da semana. Confira detalhes do festival surpresa que ilumina as telas da cidade até sábado. E aproveite!
NO MIS
Em parceria com o curso de Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), o Museu da Imagem e do Som (MIS) realiza, hoje e amanhã, às 19h, a exibição e o debate de “Para Sempre Uma Mulher”, de Kinuyo Tanaka, e “Drive My Car”, de Ryusuke Hamaguchi.
Junho é o mês alusivo à imigração japonesa no Brasil, e a efeméride, entre outros eventos, ganha sessões temáticas anuais no MIS. Neste ano, a mostra homenageia dois criadores que representam diferentes gerações – e facetas – da cinematografia nipônica.
A curadoria estará a cargo de Júlio Bezerra (UFMS) e Celso Higa (IHGMS). O evento faz parte da retomada do CineMIS, sendo direcionado para acadêmicos, cinéfilos e pessoas interessadas no assunto. A edição vai contar com debate e com a presença dos curadores e pesquisadores.
O projeto CineMIS volta ao formato presencial, trazendo para exibição importantes obras com curadoria, mediação e debate com antigos e novos parceiros. “O projeto teve início em 2014 e volta agora ao formato presencial apresentando duas exibições nesta edição: um filme clássico e outro contemporâneo, produzidos no Japão, por importantes diretores, sobre questões de gênero e de relacionamentos”, diz o material de divulgação.
Em “Para Sempre Uma Mulher”, Fumiko vive um casamento infeliz em Hokkaido, norte do Japão. O seu único consolo são os seus dois filhos e um clube de poesia que revela ser a sua principal escapatória, permitindo visitas à cidade.
É no clube que ela encontra Taku Hori, marido da sua amiga Kinuko. Como Fumiko, o homem escreve poemas. Fumiko sente-se cada vez mais atraída por ele, porém é diagnosticada com câncer de mama. Enquanto os seus poemas são publicados, ela se sujeita a passar por uma mastectomia. A jovem mulher descobre, então, a paixão por um jornalista que vem visitá-la no hospital.
O roteiro de “Drive My Car”, adaptado de um conto de Haruki Murakami, segue duas pessoas solitárias que encontram coragem para enfrentar o seu passado. Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) é um ator e diretor de sucesso no teatro, casado com Oto (Reika Kirishima), uma mulher muito bonita, porém também uma roteirista com muitos segredos, com quem divide sua vida, seu passado e uma colaboração artística.
Quando Oto morre repentinamente, Kafuku é deixado com muitas perguntas sem respostas de seu relacionamento com ela, além do arrependimento de nunca ter conseguido compreendê-la completamente.
Dois anos depois, ainda sem conseguir sair do luto, ele aceita dirigir uma peça no teatro de Hiroshima, embarcando em seu precioso carro Saab 900. Lá, Kafuku conhece e tem de lidar com Misaki Watari (Toko Miura), uma jovem chauffeur com quem tem de deixar o carro. Apesar de suas dúvidas iniciais, uma relação muito especial se desenvolve entre os dois.
CELSO E JÚLIO
O campo-grandense Celso Higa é engenheiro eletricista, economista e pesquisador regional associado ao Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS). Pesquisa assuntos ligados às ferrovias, à imigração japonesa e a gibis, cinema, figuras populares da cidade, MPB e outros temas.
Júlio Bezerra é professor dos cursos de Jornalismo e Audiovisual da UFMS. Doutor pela Universidade Federal Fluminense e mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Bezerra realizou pesquisa de pós-doutorado na UFRJ sobre cinema contemporâneo, fenomenologia e o corpo, com estágio na Columbia University (EUA).
Os curadores contam que receberam o convite do MIS com bastante apreço, principalmente Higa, pois o cinema sempre foi algo que ocupou espaço em sua vida em MS, “desde as sessões de cinema japonês no Santa Helena, que reuniam a comunidade nipônica que se instalou em Campo Grande”. Higa sempre se interessou pelo cinema como um contato com outras culturas e realidades, inclusive a japonesa.
NA UEMS
“Rashomon”, de Kurosawa, será exibido hoje no campus da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), às 17h, na sala S10 do bloco F. Estrelado por Toshiro Mifune, Machiko Kyo e Masayuki Mori, o filme traz, no Japão do século 19, um lenhador, um camponês e um sacerdote que se abrigam de uma forte tempestade nas ruínas do Portão de Rashomon.
O filme descreve um estupro e um assassinato a partir dos relatos de quatro testemunhas, incluindo o próprio criminoso e, por meio de um médium (Fumiko Honma), a própria vítima. O sacerdote começa a contar sobre um julgamento, no qual foi testemunha, de um bandido, Tajomaru, que estuprara uma mulher, Masako, e assassinara o marido dela, o samurai Takehiro.
No julgamento, narrado em flashback, quatro versões dão conta do ocorrido e mostram que a verdade pode não passar de uma questão de ponto de vista. O projeto de extensão da UEMS costuma realizar os debates na semana seguinte a cada exibição, sempre às quintas-feiras, também às 17h.
NO SESC CULTURA
Fechado o combo da semana, o Cineclube Sindical, da Central Única dos Trabalhadores (CUT-MS), segue com a mostra “Neoliberalismo e o Mundo do Trabalho” exibindo amanhã, às 17h30min, no cineminha do Sesc Cultura, o longa-metragem “Pão e Rosas” (2000), dirigido pelo britânico Ken Loach e com Adrien Brody (Sam Shapiro), Pilar Padilla (Maya) e Elpidia Carrillo (Rosa) no elenco.
Baseado em um episódio real que se passou em Los Angeles, em 1990, o filme trata de direitos trabalhistas e imigração. Sam é um ativista norte-americano, e Maya e Rosa duas imigrantes mexicanas que trabalham como faxineiras em um prédio comercial nos EUA.
Sam mobiliza as duas mulheres para lutarem contra os próprios patrões, o que acaba pondo em risco o emprego, a família e até mesmo o direito de permanência da dupla no país. A proposta da mostra, com mais duas sessões até o dia 30, é “por meio de documentários e ficções, seguidos de debates com especialistas”, incentivar a formação crítica de ativistas dos movimentos sociais.


Foto: Divulgação
Klisangela Vendramin - Foto: Arquivo Pessoal
Alle Nascimento - Foto: Arquivo Pessoal


