As sessões de cineclube do Museu da Imagem e do Som (MIS) vêm sendo turbinadas pela parceria com alunos e professores do curso de graduação em Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
A programação é diversificada e apresenta diferentes propostas curatoriais, sempre com a missão de fazer o filme “fazer sentido” para além da superfície do entretenimento, embora, a moçada, necessariamente, não tenha nada contra uma boa distração na tela.
O filme a iluminar a tela do museu na noite de hoje, “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha, é a única produção brasileira a ter conquistado o prêmio de direção no prestigiado Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo e, certamente, a principal referência a separar o joio do trigo quando o assunto é cinema de arte.
E olha que essa conquista teve lugar em uma época bastante fértil para o lançamento de obras-primas, que não paravam de se multiplicar nos quatro cantos do mundo.
Quem assina a sessão, programada para as 19h, com entrada franca, é A Boca Filmes, um coletivo formado por ex-alunos da UFMS que, já de saída, propõe uma visada diferenciada para o clássico do cinema novo brasileiro ao exibi-lo como um dos seis filmes do cineclube temático Era Uma Vez o Faroeste.
O viés curatorial, uma vez mais, faz toda a diferença, dado o papel crucial do faroeste (western) enquanto gênero cinematográfico por excelência, fundador da linguagem estabelecida pela arte das imagens em movimento.
WESTERN À BRASILEIRA
Embora não seja novidade entre os estudiosos, tomar o filme do diretor baiano como um western à brasileira pressupõe uma relação, menos evidente para o grande público, capaz de aproximar “O Dragão” e outros enredos nacionais do que se vê nas sagas de John Ford e Howard Hawks, entre outros diretores de Hollywood.
Caberia, aqui, uma digressão sobre os códigos de representação dos filmes de cowboy e outras especificidades narrativas do estilo. Ou seja, aquilo que não pode faltar para o cotejo entre as estéticas manter a sua adesão.
“O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” poderia se chamar “Antônio das Mortes 2: A Missão”, pois seu protagonista tem o mesmo nome do errático herói que surge, pela primeira vez, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), o longa anterior de Glauber.
Interpretado nos dois trabalhos pelo ator Maurício do Valle, o personagem aparece na produção de 1969 palmilhando o desencanto com que se despede da plateia em “Deus o Diabo” após ceifar a vida de Corisco, “jurando em 10 igrejas sem santo padroeiro”.
As aspas recuperam os versos de Sérgio Ricardo na canção-tema do personagem, um “matador de cangaceiro”, como diz a letra, amargo e solitário, a cumprir lá e cá, conforme lhe encomendam, a sina da justiça sumária feita à bala, deixando um calvário de autoquestionamento, culpa e sangue que o desenrolar de “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” até ameaça estancar, com uma promessa de redenção balbuciada em alguns momentos da história, mas frustrada ao fim.
TIROS E BEIJOS
O filme tem tiros, beijos, juras de morte e uma conspiração que se orquestra procurando eliminar Coirana (Lorival Pariz), o tal último cangaceiro vivo e alvo da vez de Antônio das Mortes. Mas o conjunto dramático diverge, sobremaneira, da concatenação linear de causa e efeito da gramática legada pelo cinemão.
Os planos gerais do cenário rural, tão ao gosto do western e bem estampados pelo fotógrafo Antonio Beato, embutem, na paisagem agrária do sertão baiano, a luta pela sobrevivência ao lado das manifestações da cultura popular.
O “nacional popular”, na expressão consagrada pelas ciências sociais e por analistas da produção cultural brasileira, é chave de entrada das mais preciosas na fatura da arte engajada que ganha corpo ao longo dos anos 1960 e que encontra respaldo entre as preocupações temáticas que orientaram o cinema novo.
Visto por um lado como estamento onde reina a alienação, o povo, em outra mirada, é o berço de uma matriz genuína e potente. Suas crenças e seu modo de viver, não sem contradições, é que deveriam dotar a sociedade de uma força libertadora.
CORDEL
Cabe aos agentes conscientes da necessidade de transformação, caso de Antônio das Mortes e do professor interpretado por Othon Bastos, buscar a síntese da potência para se fincar trincheiras, montar a resistência e operar a libertação coletiva.
Neste primeiro filme em cores de Glauber Rocha, o registro do “popular”, sem abandonar, de algum modo, certa dimensão etnográfica, carnavaliza-se em vistosas hipérboles de tons e de movimentos visuais que a banda sonora – de Marlos Nobre, Sérgio Ricardo e Walter Queiroz – cadencia e orienta.
Além da vanguarda informada de Nobre, músico de formação erudita dos mais destacados, a têmpera de Ricardo e Queiroz, mergulhada em diferentes níveis do universo do “povão”, acomoda com graça “Volta por Cima”, conhecido samba de gafieira de Paulo Vanzolini, e mesmo uma versão à capella, em cena aberta, com sabor de improviso, entoada por Hugo Carvana (o delegado Matos) e Odete Lara (Laura). Mas a composição de Ricardo para Antônio das Mortes, na métrica dos repentistas, é o que sobressai na banda sonora.
De volta às apostilas, muito já se falou sobre a semelhança da caracterização de Antônio das Mortes com o Ethan (John Wayne) de “Rastros de Ódio”, dirigido por John Ford. Sim, Glauber bebeu na fonte, mas dosou com outras referências, como o romance regional brasileiro.
A meio caminho entre o rural e o urbano, a primeira e a segunda fase do cinema novo (com as devidas inflexões do período), o cordel e a ópera, a fome e o sonho, a utopia e a exasperação distópica, o longa revolve o transe criativo de 1969 para a década seguinte.
SCORSESE
Não à toa, tem em seu fã-clube nomes como Martin Scorsese. “A humanidade e a paixão do filme eram muito poderosas”, afirma o diretor de “Os Bons Companheiros” e “Taxi Driver”, que já recorreu a cenas da obra de Glauber Rocha para instruir seu elenco.
“Naquele época, a cada três dias estreava uma nova obra-prima, italiana, francesa, japonesa, coisas do mundo inteiro. E, de repente, estreia ‘O Dragão da Maldade’ e desbanca aquilo tudo. Não eram só bons filmes, estavam reinventando a linguagem cinematográfica”. Querem mais?






