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Gastronomia Correio B+

Da cozinha à mesa: educação alimentar ajuda a transformar hábitos e valorizar a comida de verdade

Nutricionista explica como variedade, planejamento e prazer nas refeições podem fazer parte da sua rotina

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Escolher os ingredientes, descobrir novas formas de preparo e reservar tempo para uma refeição são atitudes que também ensinam a comer melhor. No Dia Mundial da Alimentação, que celebramos em 16 de outubro, Claudia Mulero, nutricionista da Água Doce Sabores do Brasil, destaca a importância da educação alimentar para aproximar o conhecimento sobre os alimentos, com as escolhas feitas todos os dias. A proposta é valorizar uma alimentação variada e possível de manter, que considere as necessidades de cada pessoa.

“Quando falamos em educação alimentar, precisamos mostrar como esse conhecimento chega ao prato. Esse processo precisa considerar as preferências, as condições de acesso e a cultura de cada família. O prazer em comer e a valorização das receitas regionais são parte desse cuidado”, explica Claudia.

A discussão envolve tanto a composição das refeições quanto a relação construída com a comida. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, orienta que alimentos in natura e minimamente processados sejam a base da alimentação, com variedade e predominância de opções de origem vegetal.

Isso abre espaço para ingredientes presentes na culinária brasileira, como arroz, feijão, mandioca, milho, frutas, verduras e legumes, combinados em preparações que respeitem os costumes de cada região.

Explorar diferentes alimentos amplia o repertório sem abandonar sabores familiares. Um legume pode aparecer em uma salada, em um refogado ou assado; o feijão pode dar lugar, em algumas refeições, à lentilha ou ao grão-de-bico; e as frutas podem variar conforme a oferta local. Essas experiências mostram, na prática, como diversificar o cardápio com opções comuns.

Os hábitos de consumo mostram que ainda há espaço para aproximar essas orientações do cotidiano. Segundo o Vigitel Brasil 2024, do Ministério da Saúde, 31,4% dos adultos relataram consumir frutas e hortaliças em cinco ou mais dias da semana. Já 21% atingiram o indicador de consumo recomendado pela pesquisa, de cinco ou mais porções diárias.

Para levar a educação alimentar à prática, o planejamento das compras é um bom ponto de partida. Na hora das compras, conferir o que já existe em casa e montar uma lista a partir das refeições previstas ajuda a organizar o uso dos ingredientes. Comparar preços e observar a oferta de frutas e hortaliças da estação ajuda a diversificar conforme o orçamento.

Na cozinha, a dica é começar por preparações simples e ampliar as possibilidades aos poucos. Quem costuma consumir cenoura apenas crua, por exemplo, pode experimentá-la cozida ou assada. Ervas e temperos, como salsa, cebolinha e alho, acrescentam aromas e sabores às receitas.

Dividir tarefas e trocar conhecimentos com familiares ou amigos também transforma o preparo em uma oportunidade de aprendizado, em vez de concentrar toda a responsabilidade em uma única pessoa.

À mesa, vale reservar um momento para comer com atenção, perceber os sabores e reduzir distrações, como o uso do celular. Sempre que possível, compartilhar a refeição fortalece a convivência e permite conversar sobre ingredientes e receitas.

Com as crianças, experiências como conhecer diferentes tipos de alimentos em barracas de uma feira, observar e participar de tarefas adequadas à idade despertam a curiosidade sobre a origem e o preparo da comida.

Os adultos também ensinam pelo exemplo e pela forma como apresentam a comida. Por isso, é importante comer verduras, legumes e frutas junto com os pequenos, pois isso pode estimular um novo hábito na fase de desenvolvimento.

A valorização da alimentação passa ainda pelo reconhecimento da cultura brasileira. Receitas transmitidas entre gerações carregam histórias, modos de preparo e conhecimentos sobre ingredientes locais.

Recuperar esses saberes, conhecer a origem de um prato e experimentar alimentos de diferentes regiões são fatores que ampliam a relação com a comida e dão à refeição um significado que vai além de cumprir uma etapa da rotina.

“Uma boa alimentação se constrói em escolhas que conseguimos repetir e adaptar à nossa realidade. Pode começar com uma fruta disponível em casa, um novo preparo para o legume ou uma refeição feita com mais atenção. Quando as pessoas compreendem suas escolhas e encontram prazer em comer, o cuidado com a alimentação ganha espaço na vida. A mesa também é lugar de aprender, compartilhar histórias e criar lembranças”, finaliza Claudia Mulero.

Cinema Correio B+

VisionQuest: entre a memória e o sentimento

Entre memórias e afetos, VisionQuest revisita o legado da Marvel, mas tropeça no excesso de explicações.

17/10/2026 14h00

VisionQuest: entre a memória e o sentimento

VisionQuest: entre a memória e o sentimento Foto: Divulgação

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Antes de voltar a reunir seus heróis no cinema em Vingadores: Doutor Destino, previsto para dezembro, a Marvel faz uma pausa para olhar para um personagem que carrega uma de suas perguntas mais interessantes: o que nos torna humanos?

Em VisionQuest, no Disney+, o Visão de Paul Bettany precisa descobrir quem é depois de recuperar as lembranças de uma vida com a qual já não consegue se conectar emocionalmente. Uma premissa excelente. A execução, porém, nem sempre acompanha.

A série completa a trilogia iniciada com WandaVision e continuada por Agatha Desde Sempre. É uma herança pesada. A primeira transformou o formato das comédias de televisão numa expressão do luto, enquanto a segunda encontrou personalidade no encontro entre bruxaria, perda e desejo.

Agora, cabe ao Visão dar continuidade a essa discussão pelo caminho da inteligência artificial. Entre os três, talvez seja ele quem tenha o conflito mais diretamente ligado ao nosso presente.

Para quem perdeu algum capítulo desse universo, estamos acompanhando o Visão branco, reconstruído depois da morte do original.

Ele recebeu as memórias de sua versão anterior, mas lembrar de Wanda e da família que tiveram não significa recuperar o amor que sentia por eles. Sabe o que aconteceu. Não necessariamente sente o que viveu. A distância entre essas duas experiências é o melhor material da série.

Uma memória pode registrar um acontecimento sem restituir o afeto que lhe dava sentido. O Visão consegue acessar seu passado, mas precisa construir uma relação com ele.

Bettany trabalha bem essa suspensão, entre o reconhecimento e o estranhamento, sem perder a delicadeza que sempre distinguiu o personagem. Há algo doloroso em observar alguém diante da própria história sem saber quanto dela ainda lhe pertence.

O problema é que VisionQuest parece desconfiar da nossa capacidade de perceber tudo isso. Explica, repete, reforça. O roteiro frequentemente transforma uma dúvida existencial em conversa didática, alongando situações que poderiam ganhar força com menos palavras.

A música e os cenários também procuram ampliar emoções que a própria narrativa ainda está tentando produzir. Em vez de nos aproximar, esse esforço às vezes evidencia a distância.

É James Spader quem dá à série a personalidade que lhe falta em vários momentos. Seu retorno como Ultron recupera o humor, a ameaça e a vaidade de uma inteligência que sempre teve opiniões demais sobre a humanidade. A interação com Bettany movimenta a trama e permite que as contradições apareçam sem tanta explicação.

A presença de Ultron também reconecta o Visão às suas origens e ao legado de Tony Stark. J.A.R.V.I.S., a criação que ajudou a formar esse herói, pertence a uma época em que a tecnologia da Marvel tinha a personalidade de seu inventor.

Tony está ausente, mas suas escolhas continuam produzindo consequências. Nesse sentido, a série reúne pontas importantes sem precisar transformar cada conversa num anúncio do próximo filme.

Ainda assim, viver à sombra de WandaVision cobra seu preço. Recuperar a célebre reflexão sobre o luto como amor que persevera não garante o impacto que ela teve quando foi pronunciada pela primeira vez.

A repetição pode até diminuir sua força. Ali, a frase emergia de uma experiência; aqui, corre o risco de funcionar como uma lembrança de como aquela série nos emocionou.

Eu queria me emocionar mais com VisionQuest. Gosto do personagem, da delicadeza de Paul Bettany e dessa ideia de que recuperar uma memória não significa reencontrar o que sentimos.

Mas, por enquanto, é James Spader quem me faz querer continuar. Há uma ironia nisso: numa série sobre a humanidade do Visão, é Ultron quem traz mais vida.

Crônica

O brioche e o aplicativo

17/10/2026 09h45

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Conversando ao telefone com uma amiga de infância – daquelas que a vida brindou com uma conta bancária de muitos dígitos e que mora longe daqui –, o assunto caiu na nossa saudade e na distância. Falei que estava complicado planejar uma viagem para visitá-la por conta do preço das passagens aéreas nacionais, que andam se igualando aos valores dos bilhetes internacionais. A resposta dela veio rápida, embalada por uma naturalidade surreal: “Ah, amiga, então venha de Uber!”

Sorri em silêncio do outro lado da linha. Não havia maldade no tom dela, nem arrogância. Havia apenas o hábito e o conforto de quem habita uma realidade tão distante da minha, que a lógica do cotidiano ganha outras réguas.

No mundo dela, o deslocamento interestadual para me receber é uma questão de clique, não de orçamento. O episódio acabou por me lembrar um dos mitos mais duradouros da história: a famosa frase atribuída a Maria Antonieta.

Diz a lenda que, ao ser informada de que os camponeses parisienses passavam fome e não tinham pão, a última grande rainha de Versalhes teria respondido: “Se não têm pão, que comam brioches”. Os historiadores já provaram que a rainha francesa nunca proferiu essas palavras.

A frase, na verdade, apareceu pela primeira vez na obra do filósofo Jean-Jacques Rousseau e foi colada à imagem de Maria Antonieta anos após a sua morte, no dia 16 de outubro de 1793, como parte de uma impiedosa guerra de propaganda revolucionária para pintar a monarquia como o ápice da futilidade.

Embora Maria Antonieta não tenha dito a frase, o mito colou porque traduzia perfeitamente o abismo que separava o palácio do vilarejo. A rainha não odiava o povo; ela apenas não fazia a menor ideia de quanto custava um pedaço de pão, muito menos um brioche.

Séculos depois da queda de Versalhes, percebo que os palácios mudaram de endereço, mas as bolhas continuam intactas.

O “venha de Uber” da minha amiga é o brioche da nossa era tecnológica. Ele revela como o privilégio extremo anestesia a percepção das dificuldades alheias. Não se trata de falta de empatia, mas de uma profunda desconexão geográfica e social. 

A tecnologia avançou, os transportes encurtaram distâncias, mas o topo da pirâmide continua flutuando em um éter em que as engrenagens do mundo real – o preço do combustível, a fatura do cartão, a tarifa dinâmica do aplicativo – simplesmente não fazem barulho.

No fim das contas, só resta perdoar minha amiga e a sugestão do Uber interestadual, assim como a história deveria suavizar o julgamento sobre a ignorância econômica da rainha guilhotinada. Afinal, viver em Versalhes – seja na França do século 18 ou em um condomínio fechado de alta classe hoje em dia – deve ser mesmo um lugar muito confortável e bonito.

O único problema é que, de lá de cima, é impossível enxergar o tamanho do abismo que nos separa.
Minha amiga, infelizmente, não está sozinha nessa anestesia coletiva que toma conta da elite deste País.
* Jornalista e cronista.

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