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LITERATURA

Em novo livro, a escritora Marlene Figueira resgata textos guardados desde a infância

Advogada, professora e gestora pública, autora retoma escritos guardados desde a infância e lança "Quando o Coração Escreve", que reúne poemas, crônicas e textos sobre cidadania

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Durante boa parte da vida, escrever foi uma atividade feita em silêncio. Entre aulas, trabalho, responsabilidades domésticas e a criação do filho, Marlene Figueira da Silva encontrava pequenos intervalos para colocar no papel aquilo que pensava e sentia.

Os versos escritos ainda na infância deram lugar, mais tarde, a textos guardados em gavetas, longe dos olhos de outras pessoas. Agora, décadas depois, parte desse material começa a ganhar o mundo pelas páginas de “Quando o Coração Escreve”.

Advogada especialista em Direito Administrativo, professora e gestora, Marlene é atualmente Secretária de Gestão de Pessoas da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems).

Também é integrante do PEN Centro-Oeste, braço regional do PEN Internacional, entidade que reúne escritores de mais de 100 países e atua na defesa da liberdade de expressão e na promoção da literatura.

Aos poucos, a literatura passou de uma atividade particular para ocupar um espaço cada vez mais importante em sua rotina.

Depois de publicar, em agosto do ano passado, “Até o Último Dia... Deixa Eu Viver do Meu Jeito! Assim é que Sou Feliz”, dedicado à memória do marido, Marlene prepara o lançamento de sua segunda obra. O encontro será realizado no dia 24, em evento aberto ao público na cafeteria Doces Momentos.

QUANDO O CORAÇÃO ESCREVEU

A relação com a escrita começou cedo. Ainda criança, Marlene conta que costumava aproveitar os momentos em que a aula era interrompida para escrever pequenos versos no caderno.

“Desde menina, eu ia para a escola, ficava na sala de aula e, enquanto parava um pouco a aula, eu estava escrevendo versinho no meu caderno”, recorda.

A escrita, entretanto, nunca foi a atividade principal. A necessidade de trabalhar e garantir o sustento acabou ocupando grande parte de sua vida. Marlene chegou a trabalhar em três períodos, conciliando atividades profissionais durante manhã, tarde e noite. Nos fins de semana, as obrigações continuavam dentro de casa.

“Eu trabalhava demais. Eu cheguei a trabalhar três períodos. De manhã, à tarde, à noite e, quando chegava o fim de semana, como eu sou dona de casa também, eu tinha que cuidar da casa, do filho, do marido. Então, não tinha tempo”, relata Marlene sobre a tripla jornada.

Mesmo assim, a escrita permanecia. Quando encontrava algum espaço, Marlene produzia um poema, uma reflexão ou outro tipo de texto e guardava. A gaveta acabou se tornando o lugar onde ficaram muitos desses registros.

LIVRO-PROMESSA

A retomada mais efetiva da literatura aconteceu quando Marlene passou a dispor de mais tempo. Ela deixou de dar aulas no período noturno e também parou de advogar. Foi então que decidiu cumprir uma promessa feita ao marido.

Ele havia vivido uma história marcada por dificuldades. Criado sem pai e sem mãe, ficou sozinho ainda aos seis anos de idade e precisou encontrar seus próprios caminhos. Ao longo do relacionamento, costumava pedir que Marlene registrasse suas memórias.

“Ele sempre falava para mim: ‘Você vai escrever, fazer umas memórias minhas?’ Eu falava assim: ‘Um dia eu vou’”, conta Marlene.

Depois da morte dele, a escritora decidiu que era hora de transformar as lembranças em narrativa. O resultado foi o primeiro livro, publicado em agosto de 2025.

A obra, segundo Marlene, teve uma recepção positiva e marcou o início de uma nova etapa. Até então, ela já havia escrito livros e materiais técnicos relacionados à sua formação e à experiência profissional, especialmente sobre temas como planos de cargos e salários e estatutos.

A literatura, porém, permitiu outro tipo de escrita.

“Eu sempre estava escrevendo a parte técnica. E agora a gente vai chegando a uma idade que vai falar: ‘Ah, agora eu quero fazer o que eu gosto’. E o que eu gosto mesmo é de escrever. É de expor a minha criatividade”, confidencia.

A decisão de continuar veio também do incentivo de pessoas próximas à literatura.

Entre elas, estão Ana Maria Bernardelli, ligada à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), responsável pelas correções dos textos, e Delasnieve Daspet, presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul (Aflams), que, segundo Marlene, a incentivou a publicar o que escrevia.

DO CORAÇÃO À RAZÃO

Se o primeiro livro partiu da memória e da história pessoal do marido, o segundo reúne diferentes facetas da autora. A publicação começa com poemas e passa por crônicas e textos de natureza mais reflexiva, até chegar a conteúdos relacionados à sua formação profissional.

A proposta é justamente não separar completamente a escritora da advogada e da gestora pública. Na obra, os diferentes lados da autora convivem.

Entre os poemas estão textos como “A Crença”, “Fidelidade” e “Criador”. Há também uma parte dedicada à busca pelo conhecimento e à reflexão sobre a própria existência. Na sequência, aparecem textos que dialogam com a experiência profissional de Marlene.

Ela aborda a importância da participação da sociedade no poder público, a relevância do voto, a valorização do serviço público e a necessidade de oferecer uma prestação de serviço de excelência, relacionando esses temas também ao Parlamento sul-mato-grossense.

A escolha faz parte da identidade da obra. Para Marlene, não faria sentido deixar de lado a experiência acumulada durante décadas de atuação profissional.

“É um livro que mistura emoção também, mas um pouco de razão. As poesias são todas saídas do coração”, destaca.

A apresentação do livro também procura evidenciar essa combinação. O texto de apresentação é assinado pelo médico cardiologista e escritor Ewerton Carvalho de Souza.

O prefácio é do médico psiquiatra e escritor Marcos Estevão S. Moura. Ana Maria Bernardelli comenta os poemas e introduz as diferentes partes da publicação.

LITERATURA COMO EXERCÍCIO

A relação de Marlene com os livros também passa pela preocupação com os hábitos de leitura em uma época marcada pela presença constante das telas. Para ela, a facilidade proporcionada pela internet pode acabar diminuindo o exercício da memória e da criatividade quando substitui a construção própria do pensamento.

Ela defende que a tecnologia pode ser uma ferramenta importante, mas não deveria eliminar o esforço de criar, escrever e raciocinar.

“Acho que a internet é muito boa. Só que está estragando a memória da gente, principalmente do jovem. Porque vai lá, copia tudo. O ideal é a gente criar, é a gente escrever aquilo que sai do coração, aquilo que sai do conhecimento da gente”, defende.

Para a escritora, preservar o contato com os livros é importante para que as crianças desenvolvam o gosto pela leitura.

“É tão gostoso folhear um livro, né? O cheiro do livro, sabe? Tudo é gostoso”, declara.

Ela também procura manter o hábito. Integrante do PEN Centro-Oeste, acompanha as publicações dos demais escritores da entidade e procura ler os livros lançados pelos colegas. O tempo é curto, mas a leitura encontra espaço entre as outras atividades.

“Quando a gente gosta, a gente acha jeito. Não é mesmo?”, reflete a autora.

>> SERVIÇO

Lançamento do livro “Quando o Coração Escreve”, de Marlene Figueira da Silva

Data: dia 24.
Horário: às 17h.
Local: Cafeteria Doces Momentos – Rua Dom Aquino, nº 2.055.
Onde comprar: após o lançamento, estará disponível na Amazon, no site da Editora Life e na Livraria Leitura.

“Até o Último Dia... Deixa Eu Viver do Meu Jeito! Assim é que Sou Feliz” está disponível nos mesmos canais.

Diálogo

Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul barrou o recurso de presidiário...Leia na coluna de hoje

Confira a coluna Diálogo desta terça-feira (13)

13/10/2026 00h01

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Silvana Duboc - escritora brasileira

"Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele
se afogue nelas”.

Felpuda

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul rejeitou o agravo e barrou o recurso de presidiário que queria porque queria ser indenizado pelo Estado por conta das “más condições” das instalações em Corumbá. Ele alegou superlotação e insalubridade do local, apresentando testemunho de pessoa que já tinha cumprido pena por lá. Entretanto, a Justiça não aceitou as alegações, rejeitando sua pretensão, pois não se comprovou nenhum dano causado ao indivíduo em consequência dos problemas. Se essa moda pega...

De 29 de outubro a 1º de novembro, a Feira Central de Campo Grande realizará o MS Moto Week – Rota Bioceânica, encontro que pretende reunir motociclistas de Mato Grosso do Sul e de países vizinhos, visando movimentar a cidade e deixar o evento como atração permanente ligada ao motociclismo e ao turismo de experiência. Ele conta com as parcerias do Sesc-MS e do Senac-MS. A proposta é de aproveitar a localização de Campo Grande no corredor internacional para estimular a permanência dos viajantes por aqui, movimentando hotéis, comércio, postos de combustíveis, gastronomia e artesanato. A programação prevê três palcos, com atrações de rock, sertanejo e diversidade, além da gastronomia característica da feira, com pratos como sobá e espetinhos. Também estão programadas atividades recreativas e infantis, oficinas, jogos e ações culturais e artísticas.

Bruna Vilela
Camila Yunes Guarita

Na cola

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul está fechando o cerco aos suspeitos de desviarem milhões de reais da Santa Casa. Os promotores pediram à Justiça quebra de sigilo fiscal e bancário de mais dois dirigentes do hospital. E sai de baixo!...

Pupila

Cassy Monteiro recebeu enxurrada de votos, quase 45 mil, para deputada federal, mas não levou e ficou na primeirasuplência. Entretanto, não está desamparada, pois vai ocupar, de forma definitiva, a vaga de André Salineiro na Câmara Municipal de Campo Grande. A futura vereadora fez campanha com forte engajamento nas redes sociais e teve a participação de Nikolas Ferreira, campeão de votos no Brasil. Nos vídeos, Nikolas pediu votos para sua pupila, que por pouco não foi eleita deputada federal. “Quem tem padrinho não morre pagão”, né?

Pode, sim

Os mais de 33,4 milhões de eleitores que faltaram ao primeiro turno, realizado no dia 4, poderão votar normalmente no segundo turno, marcado para o dia 25. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cada turno é uma eleição independente. Por isso, quem faltou na primeira etapa poderá participar da segunda, desde que o título não esteja cancelado nem suspenso. No primeiro turno, cerca de 125,2 milhões de brasileiros votaram. Isso equivale a quase 79% dos mais de 158,7 milhões de eleitores aptos.

Aniversariantes

  • Dra. Maria José Martins Maldonado,
  • Rubens Fernando de Camillo,
  • Naína Caroline Hernández Dibo Soares,
  • Jair de Jesus Fiorentino,
  • Leida Gualberto Ferreira,
  • Alfredo Aparecido da Silva,
  • Thiago Brites da Silva,
  • Delmir Antonio Comparin,
  • Lucas Rojas Franco de Souza,
  • Manoel Barbosa de Souza,
  • Leonina Arantes Bueno,
  • Wellyngton Dantas de Abreu,
  • Sérgio de Almeida Bomfim,
  • Leonis Rocha da Costa,
  • Dr. Hamilton Fagundes,
  • Marcelo de Moura Bluma,
  • Eduardo Lopes,
  • Paulo Roberto Gonçalves Ishikawa,
  • Luiz Alexandre Inacio do Amaral,
  • Jalmir Batista Modesto,
  • Silvio Roberto Carrato Júnior,
  • José Ferreira Durães,
  • Neide Regina do Carmo Raslan,
  • Marcos Fernando Rabello de Moura Brasil,
  • Luiz Paulo Duarte de Assis,
  • Dinair Rezende Marques,
  • Hiana Duarte Romeiro,
  • Jefferson Mazureck,
  • Jéssica Lapas,
  • Olegário Teodoro de Carvalho,
  • Elza Shimabukuro,
  • Célia Maria Rodrigues Ferreira,
  • Diego Tófoli,
  • Nídia Fátima Ferreira,
  • Plínio Ferreira Garcia,
  • Francisco Portela,
  • Maria Jorge Leite da Silva,
  • Antônio Eduardo Livramento,
  • José Tenório Gomes,
  • Maria Rosana de Almeida Teodoro,
  • Natalia Gama dos Santos Vieira da Cunha,
  • Sildo Francisco Frutuoso,
  • Manoel da Silveira Borges,
  • Maria de Fátima Oliveira Sales,
  • Rui Ballerine Fernandes.
  • Ana Márcia da Cunha,
  • Sérgio Ostetto Oliveira,
  • Darlan Soares Miranda,
  • Tatiana Lelis Lima,
  • Luiz Pereira Cavalcante,
  • Mateus Augusto Guerreiro,
  • Daniel Freire,
  • José Luiz Barbosa,
  • Sergue Faria Barros,
  • Cinthia Estela Mendonça Ximenes,
  • Arlindo Fernandes de Paiva Neto,
  • Noel Martins,
  • Claudinéia Gonçalves da Silva,
  • Hélio José Casamassa,
  • Américo Soares de Souza,
  • Clauber Elizio Ferreira,
  • Daniel Florenço de Santana Filho,
  • Willian Flores da Silva,
  • Valdemar José dos Santos,
  • Eduardo Gerson de Oliveira Gimenez,
  • Dra. Silvia Naomi de Oliveira Uehara,
  • Gleice Aparecida Oliveira Proença,
  • Ailton César Sanches Moreno,
  • Karina Aiko Miyashiro,
  • Jeanete Marilia Schiefelbein Kieling,
  • Rosana Siqueira Vertucci,
  • Maria Amélia Escame de Almeida Guimarães,
  • Mario Roberto Perussi,
  • Carla Aparecida de Campos Melo,
  • Eduardo Ramão Pereira Gimenez,
  • Neveton Isac dos Santos,
  • Fátima Maria de Oliveira,
  • José Cândido Alves,
  • Luciley Farias,
  • Eduardo Duarte Flores,
  • Ariene Rezende do Carmo,
  • Marcelo Roberval Dias,
  • Admir José Romualdo,
  • Creginaldo de Castro Câmara,
  • Joaquim Dias da Mota Longo,
  • Edgard Alberto Froes Senra,
  • Dr. Orivaldo Gazoto Júnior,
  • Virna de Oliveira Leite,
  • Emerson Vieira Cação,
  • Francisco das Chagas de Siqueira Júnior,
  • Karina Lopes Antunes Santos,
  • João Domingues Jeronymo Sobrinho,
  • Sueli Duarte da Costa,
  • Maria Aparecida Oliveira,
  • Kátia Aparecida Santana Gonçalves,
  • Sônia Regina Silveira Dupin Duarte,
  • Luiz Eduardo Silva Parreira,
  • Flávia Rejane de Rezende Oliveira,
  • Cleuza de Andrea,
  • Kelly Viega de Lima,
  • Miriam Cilene Reis Costa,
  • Esmeraldo Alves do Nascimento,
  • Paulo Shigueru Kisaki,
  • Luis Edmundo Malisek Rodrigues.


* Colaborou Tatyane Gameiro

SAÚDE

Congresso de Nutrologia revela: transtornos podem ter ligação com cultura alimentar

Especialistas defendem escuta ativa, acompanhamento multidisciplinar e estratégias individualizadas para pacientes com obesidade, pós-bariátricos e que têm alterações na relação com a comida

12/10/2026 10h00

Emagrecer costuma ser um processo que envolve não somente diversos hábitos como também as emoções; por isso, é necessário fazê-lo com acompanhamento multidisciplinar

Emagrecer costuma ser um processo que envolve não somente diversos hábitos como também as emoções; por isso, é necessário fazê-lo com acompanhamento multidisciplinar Reprodução/magnific

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Mudar a alimentação vai muito além de receber uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Hábitos alimentares são construídos ao longo da vida e podem estar associados a emoções, experiências, crenças, relações sociais e até a diferentes formas de funcionamento do cérebro. Por isso, estratégias de aconselhamento e o reconhecimento de transtornos alimentares são cada vez mais importantes no acompanhamento de pacientes.

O tema esteve entre as discussões do 30° Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN), realizado de 24 a 26 de setembro, em São Paulo (SP). Promovido pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), o evento reuniu profissionais e pesquisadores para discutir avanços no diagnóstico e no tratamento da obesidade e de outras questões relacionadas à saúde e à alimentação. 

Durante as palestras, especialistas chamaram atenção para situações que podem ser confundidas com falta de disciplina, “frescura” ou simplesmente dificuldade para seguir uma dieta.

Mudança de hábito

Segundo os especialistas, uma das dificuldades no tratamento da obesidade é justamente compreender que o comportamento alimentar não é determinado apenas pelo conhecimento sobre nutrição.

Mesmo quando o paciente sabe o que deveria comer, isso não significa que conseguirá modificar seus hábitos imediatamente.

Nesse processo, estratégias utilizadas em intervenções motivacionais e na terapia cognitivo-comportamental podem ajudar o paciente a reconhecer a distância entre a maneira como se comporta e a forma como gostaria de agir.

A abordagem passa, por exemplo, pela empatia. Em vez de confrontar alguém que não conseguiu seguir determinada orientação, o profissional pode investigar o que aconteceu, quais sentimentos estavam envolvidos e quais obstáculos apareceram na rotina.

A chamada “resistência” também deve ser compreendida como parte do processo. Para quem está acostumado a determinados sabores, horários e formas de comer, uma mudança brusca pode parecer inviável. Por isso, metas menores e possíveis de serem cumpridas tendem a ser mais úteis do que uma série de restrições difíceis de manter.

Outra estratégia é identificar os estímulos associados ao comportamento alimentar. Um paciente pode, por exemplo, comer diante do estresse, do cansaço ou da ansiedade sem necessariamente reconhecer essas situações como gatilhos. Com o tempo, pode passar a confundir fome com vontade de comer.

Recaídas acontecem

A prevenção de recaídas também foi apontada como parte fundamental do tratamento. Um episódio fora do planejamento pode provocar a sensação de fracasso e desencadear um ciclo de compensação, culpa e abandono.

A proposta, nesse caso, é transformar o episódio em informação: entender o que aconteceu, quais fatores contribuíram e o que pode ser feito de maneira diferente na próxima situação.

O apoio social também tem papel importante. Família e amigos podem facilitar ou dificultar mudanças de comportamento, especialmente quando não compreendem o tratamento. Por isso, esclarecer as pessoas próximas sobre a condição e sobre as estratégias utilizadas pode melhorar a comunicação e a adesão.

Pós-bariátricos exigem atenção

A necessidade de olhar além do peso também foi destacada durante a discussão sobre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.

A médica Fernanda Miranda, pediatra e psicoterapeuta especializada em transtornos alimentares, chamou atenção para mudanças que podem aparecer principalmente após o primeiro ano da cirurgia. Segundo ela, o reganho de peso nem sempre representa uma falha do procedimento. Em muitos casos, pode estar relacionado a alterações no comportamento alimentar.

A especialista destacou que pacientes com obesidade grave apresentam elevada frequência de diagnósticos psiquiátricos ao longo da vida e que transtornos alimentares e sintomas relacionados à perda de controle sobre a alimentação precisam ser investigados antes e depois da cirurgia.

Entre os comportamentos que merecem atenção estão a compulsão com perda de controle, o grazing, caracterizado pelo chamado beliscar repetidamente ao longo do dia, além de padrões restritivos e relacionados ao medo de recuperar peso.

Um dos desafios é justamente identificar o grazing. O paciente pode não perceber ou não se lembrar da quantidade de pequenos episódios de alimentação que acontecem durante o dia. Por isso, a especialista recomenda ferramentas como diários alimentares e registros das refeições para ajudar a reconstruir o comportamento.

“Não é simplesmente uma questão de força de vontade”, é a lógica defendida durante a palestra: é necessário compreender qual comportamento está acontecendo para, então, definir a intervenção.

A avaliação deve ainda considerar possíveis alterações anatômicas relacionadas à cirurgia. Uma queixa do paciente não deve ser automaticamente atribuída a um transtorno alimentar. Caso exista dificuldade para comer, por exemplo, é necessário investigar também possíveis causas clínicas e encaminhar o paciente ao cirurgião responsável quando necessário.

Tratamento multidisciplinar

Outro ponto destacado no congresso foi a importância do acompanhamento multidisciplinar. Pacientes com alterações importantes do comportamento alimentar podem precisar de nutricionista, psicólogo, psiquiatra, nutrólogo e, dependendo do caso, outros profissionais.

A terapia cognitivo-comportamental aparece como uma das estratégias utilizadas no tratamento de diferentes transtornos alimentares. A ideia é trabalhar pensamentos, emoções e comportamentos que mantêm o problema.

Para os especialistas, o profissional que acompanha a obesidade não deve tentar conduzir sozinho um quadro de transtorno alimentar. O rastreamento deve ser contínuo, já que diferentes comportamentos podem aparecer ou se modificar ao longo do tratamento.

Medo de comer

Outro tema abordado foi o transtorno alimentar restritivo evitativo (Tare). Diferentemente de transtornos como anorexia nervosa, o problema não está necessariamente relacionado ao medo de engordar ou à insatisfação corporal.

O Tare pode se manifestar por diferentes motivos. Um deles é a sensibilidade a características dos alimentos, como textura, cheiro, sabor ou aparência. Outro é o medo de consequências relacionadas à alimentação, como engasgar ou vomitar. Também existe o perfil marcado pelo desinteresse pela comida ou pela dificuldade de perceber sinais internos de fome e saciedade.

A consequência pode ser uma redução importante da variedade alimentar, deficiência nutricional, dependência de suplementos ou prejuízos na vida social.

Um exemplo discutido durante a apresentação foi o de pessoas que, após um episódio de engasgo, passam a evitar determinado alimento ou até grupos inteiros. O medo pode se generalizar e fazer com que a pessoa restrinja progressivamente a alimentação.

Por isso, chamar alguém de “fresco” ou “enjoado” pode contribuir para o estigma e atrasar a procura por ajuda. A orientação apresentada no congresso é para investigar o motivo da restrição e encaminhar o paciente para uma terapia específica quando necessário.

A seletividade alimentar, por sua vez, não significa necessariamente que exista um transtorno. Uma pessoa pode ter preferência por um número menor de alimentos sem apresentar prejuízo nutricional, funcional ou social. O diagnóstico depende justamente da presença de consequências relevantes.

O saudável que prejudica

Outro comportamento discutido foi a ortorexia nervosa, caracterizada por uma preocupação excessiva e rígida com a qualidade e a “pureza” dos alimentos.

A busca por uma alimentação saudável, por si só, não representa um problema. A questão surge quando a preocupação se transforma em uma fixação que provoca sofrimento, ansiedade, isolamento social ou restrições cada vez maiores.

O paciente pode passar horas planejando, comprando e preparando alimentos, além de eliminar progressivamente grupos considerados “impuros”, como produtos com conservantes, corantes, açúcar, glúten ou outros ingredientes.

Com o tempo, a lista de alimentos proibidos pode se tornar maior do que a de alimentos permitidos, aumentando o risco de deficiências nutricionais.

As redes sociais podem contribuir para esse processo ao reforçar continuamente determinados discursos sobre alimentação “limpa” e estilos de vida considerados superiores. O problema não está em escolher alimentos naturais ou evitar determinados produtos, mas na rigidez e no impacto que essas escolhas passam a ter sobre a vida.

O isolamento também pode aparecer quando a pessoa deixa de frequentar restaurantes, encontros ou eventos porque não consegue controlar a origem e a composição da comida oferecida.

 

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