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SAÚDE

Entenda o que muda com o fim da patente do Ozempic

Especialistas explicam o impacto que a popularização da semaglutida deve causar no acesso, nos preços e na saúde pública, além dos desafios regulatórios, os riscos do uso indiscriminado e o longo caminho até a chegada dos biossimilares às farmácias

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Na sexta-feira, o cenário farmacêutico brasileiro e mundial marcou um ponto de inflexão com a expiração da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, medicamentos que se tornaram fenômenos globais no tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, da obesidade.

Detida pelo laboratório dinamarquês Novo Nordisk, a exclusividade sobre a molécula chegou ao fim, abrindo caminho para uma nova era de concorrência que promete alterar drasticamente o acesso, os preços e a dinâmica do mercado de saúde no País.

AUMENTO DA CONCORRÊNCIA

Do ponto de vista legal e comercial, a expiração da patente representa um marco significativo. De acordo com Denise Basílio, Doutora em Ciências Farmacêuticas e coordenadora do curso de Farmácia da Estácio, a mudança é estrutural.

“Quando a patente de um medicamento como a semaglutida expira, a empresa titular perde a exclusividade de comercialização, permitindo que outras indústrias produzam versões equivalentes. A partir desse ponto, ocorre o aumento da concorrência no mercado, levando à redução significativa dos preços e ampliando o acesso da população ao tratamento”, explica.

Patrícia Pacheco, Doutora em Saúde e Desenvolvimento e coordenadora do curso de Biomedicina da Estácio, complementa que a abertura do mercado é um direito adquirido por outras empresas, desde que cumpram rigorosamente as exigências regulatórias.

“Na prática, abre-se o mercado à concorrência, o que tende a ampliar o acesso e reduzir preços ao longo do tempo”, afirma.

No entanto, ambas as especialistas são enfáticas ao pontuar que o direito jurídico de produzir não se traduz em disponibilidade imediata nas prateleiras das farmácias. Isso porque, apesar de juridicamente as empresas já poderem iniciar seus processos, a prática exige tempo e investimento.

“Mesmo após a expiração da patente, outras empresas ainda precisam desenvolver o produto, comprovar sua segurança e eficácia e obter aprovação da Anvisa, além de lidar com possíveis patentes secundárias, o que pode atrasar a entrada no mercado”, detalha Denise Basílio.

O processo de aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é longo e rigoroso, especialmente para um biossimilar. Enquanto um genérico comum pode levar meses a alguns anos para ser aprovado, um biológico pode demandar vários anos.

“A Anvisa exige estudos de bioequivalência, controle de qualidade rigoroso, inspeções de boas práticas de fabricação e análise detalhada do dossiê técnico. Em média, leva de 1 a 3 anos, dependendo da complexidade do medicamento. Para moléculas complexas como a semaglutida, esse prazo tende a ser maior”, explica Patrícia.

CAPACIDADE PRODUTIVA

Além disso, a demanda global elevada e a capacidade produtiva limitada de poucos fabricantes podem gerar um descompasso.

“Pode haver demora devido à capacidade produtiva limitada, dificuldades técnicas e demanda global elevada, até porque os medicamentos dessa classe estão associados ao tratamento de obesidade e diabetes tipo 2, atualmente com enorme procura”, acrescenta Denise.

O Brasil possui expertise em biotecnologia, mas a produção de um fármaco tão complexo esbarra em limitações de infraestrutura.

“O Brasil tem capacidade de produzir, mas, na prática, tende a depender parcialmente de importação, pelo menos no início. A produção de moléculas complexas como a semaglutida exige infraestrutura muito avançada, alto investimento e domínio tecnológico específico”, analisa Denise Basílio.

Patrícia Pacheco corrobora essa visão. “O Brasil possui alguma capacidade em biotecnologia, mas ainda é dependente de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) importados, principalmente da Ásia e Europa. É provável que, inicialmente, haja forte dependência externa, com produção local gradual,” acrescenta.

BIOSSIMILARES

Um dos pontos cruciais que diferenciam a semaglutida de outros medicamentos é a sua complexidade. Diferente de fármacos tradicionais, como um anti-inflamatório ou analgésico, a semaglutida é um peptídeo sintético produzido por biotecnologia, envolvendo sistemas celulares vivos e processos químicos altamente sofisticados.

Denise Basílio explica que, por isso, a tendência não é o surgimento imediato de genéricos clássicos, mas sim de biossimilares.

“A semaglutida é conhecida por ser um medicamento biológico complexo e não uma molécula química simples. É praticamente impossível fazer uma cópia idêntica em todos os detalhes estruturais e funcionais. Em vez de genéricos clássicos, surgem os biossimilares, que são versões altamente semelhantes, mas não idênticas, e precisam passar por estudos rigorosos para comprovar que têm a mesma eficácia, segurança e qualidade clínica”, pontua.

Esse controle de qualidade é, segundo Denise Basílio, assegurado pela Anvisa. “A Anvisa garante que medicamentos tenham a mesma eficácia e segurança por meio de um processo rigoroso de avaliação. Para biossimilares, são exigidos estudos rigorosos para demonstrar que o desempenho clínico é equivalente ao original”, explica.

Sobre a experiência dos pacientes, a médica Mariana Vilela explica que em alguns casos pode haver diferença nos sintomas entre o medicamento original e o biossimilar.

“O que muda de um medicamento original para um genérico é apenas o laboratório. O princípio ativo é o mesmo. A eficácia é muito parecida, mas sem sombra de dúvidas, quando falamos de medicação, o padrão ouro é o original, porque ali todos os veículos foram testados e o melhor está sendo utilizado. O paciente pode sentir, em sua individualidade biológica, que o genérico não funciona tão bem quanto o original. Isso não é uma regra, mas uma particularidade de cada organismo”, afirma.

BARATEAMENTO

A principal promessa da quebra de patente é a redução de preços. Atualmente, o Ozempic custa em média entre R$ 1.000 e R$ 1.200, um valor proibitivo para grande parte da população. Com a entrada de concorrentes, a expectativa é de uma queda significativa.

De acordo com Denise Basílio, a redução segue um padrão legal e mercadológico. “No Brasil, os medicamentos genéricos costumam ser significativamente mais baratos que os de referência, com redução mínima legal de cerca de 35% e, na prática, valores frequentemente entre 50% e 60% menores, podendo ser ainda mais baixos conforme a concorrência no mercado”, destaca.

No entanto, Patrícia Pacheco adverte que essa queda não será imediata. “Geralmente leva tempo. No início, poucos fabricantes entram no mercado, mantendo preços relativamente altos. À medida que mais empresas passam a produzir, a competição se intensifica e os preços caem progressivamente”, pontua.

Com o barateamento e a popularização, o aumento do uso indiscriminado e da circulação de produtos irregulares se torna um risco latente. A médica Mariana Vilela alerta para a possibilidade de um aumento no uso sem prescrição.

“O risco do aumento do uso indiscriminado com o barateamento existe, mas mesmo com valor alto a gente já sofria esse risco devido aos contrabandos e ao uso de medicamentos de procedência duvidosa. O que a gente tem que investir é em educação em saúde para a população, para que entendam que emagrecer por conta própria não é sinônimo de saúde”, adverte.

Denise Basílio complementa sobre o perigo do aumento da circulação das versões irregulares. “A queda da patente pode aumentar o risco de circulação de versões irregulares ou manipuladas, especialmente em medicamentos de alta demanda. Isso ocorre porque o interesse comercial cresce rapidamente, e antes que versões aprovadas estejam disponíveis, podem surgir produtos sem registro, importações irregulares ou formulações manipuladas sem comprovação adequada de eficácia e segurança”, explica.

Para se proteger, o consumidor deve estar atento. “Para garantir que um medicamento seja seguro, o consumidor deve verificar se ele possui registro na Anvisa, adquirir apenas em farmácias confiáveis, observar se a embalagem contém informações completas [como lote, validade e fabricante] e evitar produtos com preços muito abaixo do mercado”, orienta Denise.

DISPONIBILIZAÇÃO NO SUS

A queda de preço abre uma janela de oportunidade para a incorporação da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS), atualmente restrita a casos muito específicos de diabetes tipo 2 em última linha de tratamento.

Mariana Vilela acredita que a redução de custos facilita a negociação, mas destaca a necessidade de vontade política.

“A queda do preço pode facilitar a incorporação, mas a questão é ter iniciativa governamental para isso. Precisamos de um acordo comercial bem feito, como foi feito nos Estados Unidos, um incentivo fiscal federal para que haja esse tipo de parceria”, afirma a médica.

O impacto de um acesso ampliado à população teria impactos profundos na saúde pública.

“Com acesso maior, eu tendo a controlar melhor doenças como diabetes e obesidade, que são a porta de entrada para todas as outras: hipertensão, dislipidemia, câncer, doenças autoimunes. Quando eu controlo diabetes e obesidade, eu controlo tudo”, afirma Mariana Vilela.

“Isso pode gerar um custo maior em medicamentos na atenção primária, mas reduz custo em UTI, em hospitais, em procedimentos como cateterismos. É focar na prevenção e não só na remediação”, pontua.

ESTÍMULO

A expiração da patente não significa o fim da inovação. Pelo contrário, pode estimulá-la. “Com o fim da exclusividade, outras empresas passam a competir com versões mais baratas, enquanto a empresa original tende a investir em melhorias para se manter competitiva, como novas formulações, combinações terapêuticas ou novas indicações clínicas”, explica Denise Basílio.

O caso da semaglutida, segundo as especialistas, serve de modelo para o futuro de outras drogas. “Sem dúvida, o caso da semaglutida pode se repetir com outros medicamentos ‘da moda’, especialmente aqueles com alta demanda clínica ou estética”, conclui Patrícia Pacheco.

“Sempre que um medicamento de alto impacto perde patente, vemos o mesmo ciclo: expansão de acesso, queda de preços e aumento da concorrência”, pontua.

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Diálogo

Não deixa de ser curioso, para não dizer outra coisa...Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quinta-feira (25)

25/06/2026 00h01

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Roberto Shinyashiki - escritor brasileiro

"A vida não é um quadro pronto, e sim uma obra de arte que se revela com uma nova pincelada a cada dia”.

FELPUDA

Não deixa de ser curioso, para não dizer outra coisa. Um motorista flagrado transportando “apenas” 613 quilos de cocaína conseguiu, em primeira instância, ser enquadrado na condição de beneficiário do chamado tráfico privilegiado. Mas o Ministério Público recorreu e entendeu que carregar mais de meia tonelada de droga para outro estado não combina exatamente com a figura da inocente “mula” do tráfico”. O benefício foi retirado e a pena recalculada. Afinal, há certas “encomendas” que simplesmente não cabem na bagagem da ingenuidade.

MAIS

A jovem Dally Ugla, da Aldeia Córrego do Meio, em Sidrolândia, entrou para a história ao conquistar o primeiro título do Beleza Originária 2026, realizado na Aldeia Brejão, na Terra Indígena Nioaque. A coroação destacou não apenas a beleza, mas também a representatividade, o conhecimento das tradições e o orgulho das raízes indígenas. O evento reuniu representantes de diversas aldeias da região em uma celebração da cultura, da identidade e do protagonismo dos povos originários. A programação incluiu apresentações culturais, manifestações tradicionais e uma feira gastronômica, fortalecendo a integração entre as comunidades.

O prefeito André Guimarães ressaltou que a iniciativa evidenciou a riqueza da cultura indígena e defendeu que o projeto continue crescendo para preservar as tradições e fortalecer a identidade dos povos originários. Idealizadora do evento, Claudilene Souza comemorou o sucesso da estreia, afirmando que o Beleza Originária nasceu do sonho de valorizar a história, a cultura e a beleza das origens indígenas. A primeira edição deixa como legado o incentivo ao orgulho das raízes e a valorização das novas gerações indígenas.

DESISTIU

Diziam que Freud explicava tudo. A política de Mato Grosso do Sul, porém, faria o pai da psicanálise pedir aposentadoria. Na direita, dois pré-candidatos ao Senado, de acordo com pesquisas, estariam “embolados”, mas justamente o que aparece correndo atrás da dupla dos “preferidos”, age como favorito absoluto. Já na esquerda, quem amarga posição distante nos levantamentos de preferência popular, segue tratando a eleição como mera formalidade. Convicção é uma coisa; matemática eleitoral é outra, ensina a política.

"DESILUDIDO"

E o roteiro fica ainda mais intrigante. Uma liderança que já brilhou, tipo top das galáxias, hoje parece esquecida tal qual pinguim de geladeira em gaveta de guarda-roupa velho. Para completar a “desilusão 
de Freud”, três figuras que durante anos caminharam lado a lado, agora disputarão cargos por partidos diferentes. Se continuarem dividindo o mesmo eleitorado, podem terminar unidos apenas na fila dos derrotados. A conferir.

BARRA PESADA

A Justiça mandou um comerciante de Campo Grande pagar R$ 5 mil por danos morais a um entregador por aplicativo, que foi agredido com uma barra de ferro durante discussão. O capacete evitou tragédia maior. A tese de legítima defesa não convenceu o juiz, que considerou a reação desproporcional e incompatível com qualquer solução civilizada de conflito. O acordo anterior valia apenas pelo capacete danificado. A barra de ferro saiu cara e ainda rendeu condenação.

Aniversariantes

  • Marinez Muller Cesco (Dedê Cesco), 
  • Tina Rodrigues Wunderlich, 
  • Lilian Ferro, 
  • Julie Abuhassan Gonçalves,
  • Rosineide Cunha Lemos de Deus, 
  • Ademir Panucci,
  • Cristiane Santana Farias,
  • Florisbela de Souza,
  • Irene Satsico Oshiro,
  • João Batista Campagnani Ferreira,
  • Dr. Luiz Carlos Takita,
  • Marcos Antonio Momesso,
  • Ayres José Cerioli,
  • Dr. Estanislau Santos Ciasca,
  • João Francisco,
  • Ornei de Almeida,
  • Telma Cristina Serrou Pimentel,
  • Nauile de Barros,
  • Juliane Maeda Guenka,
  • Juarez Lemes de Souza,
  • Renata Volpe,
  • Loy Pael Nogueira,
  • Carolina Medeiros Fabris,
  • Dr. Giovanni Pires Viana, 
  • Dr. Ruy Luiz Falcão Novaes,
  • Wolfram Enok Pessoa Sandes,
  • Juliana Marcondes Rezende,
  • Cleide de Moraes Deduch,
  • Luzia Morel Lino,
  • Ivone Ferreira Emídio e Silva,
  • Erlenice Maria Peron Palhano, 
  • Nelsi Mota Holzschuh,
  • Amanda Santos,
  • José Robson Samara Rodrigues de Almeida,
  • Dr. Renato Augusto Casemiro de Oliveira,
  • Jercé Euzébio de Souza,
  • Matheus Enzo Shiraishi,
  • Aparecido dos Santos,
  • Lauro Andrei Monteiro de Carvalho,
  • Adriano Borges Toscano Júnior, 
  • Nair Fonseca Higa,
  • Guilherme Duarte Jafar,
  • Leila Andréa Schneider,
  • Dr. Marcos Raymundo Marinho,
  • Dr. Gustavo Passarelli Silva, 
  • Zuleide Paniago, 
  • Sílvia Mariani,
  • Lúcia Maria Gonçalves de Resende,
  • Francisca Silva Neves,
  • Ivone Figliolino,
  • Ana Clara Higa,
  • Antonio Roberto Rogoski,
  • Cleonice Moraes Freitas,
  • Aparecida Maria Fortes,
  • Marcela Tanaka,
  • Jorge de Souza Mareco,
  • Márcia Carvalho Lima,
  • Dr. Amadeu Hugo Alessi,
  • Alexandra Guimarães,
  • Joana Joelma Duarte Amaral,
  • Ana Aparecida Ribeiro de Barros,
  • Célia Rosinei dos Santos Nunes de Souza,
  • Lilian Carolina da Silva,
  • Laura Patricia Daniel Palumbo Fernandes,
  • Leila Maria Maciel Figueira
  • Dra. Rosângela de Andrade Thomaz, 
  • Marília Porto Antunes,
  • Nádia Maria Barbosa Prado,
  • Willian Guttemberg Assis,
  • Sebastião Felix da Silva,
  • Layla Hellen Murad,
  • Paulo Roberto Martins,
  • Karine de Barros Preza,
  • Osmar Silva e Luz,
  • Vanessa Cardoso,
  • Wellington Lander Borges,
  • Celso Hideyuki Akamine,
  • Edvandro Cesar Dorisbor,
  • Bruna Viveiros Barros,
  • Gabriel Simplicio,
  • Carlos Augusto da Silva (Carlinhos do TRR),
  • Elidio Antonio Ferreira,
  • Carlos Alberto Benites dos Santos,
  • Juliano Bueno Dias,
  • Adalberto da Silva Ramos,
  • Ilka de Souza Fernandes,
  • Rosana Sanches Nakayama,
  • Geisa Vidal Duarte Oguchi,
  • Eliano Bottega Ebeling,
  • Iris Mara Oliveira Gomes Orros,
  • Ailene de Oliveira Figueiredo,
  • Fabiana Keylla Schneider,
  • Raquel Canzi Duialibi,
  • Juliana Yuri Sakihama, 
  • Jefferson Goes Medina,
  • Alexandre Cavalcanti Barbosa,     
  • Caetano Humberto Bruno,                
  • Juliano Henrique Cícero Dias,            
  • Silvino de Freitas Adrião,        
  • João Baptista Coelho Gomes,
  • Estevan Daniel Leite,                   
  • Ivete Roland Benitez,                   
  • Márcio Barbosa da Silva,
  • Elenice Aparecida Camargo,
  • Benedita Gomes de Lucena,    
  • Célia Regina Gomes Aleixo.

Colaborou Tatyane Gameiro

TEATRO

Sucesso nacional, espetáculo "A Última Sessão de Freud" chega a Campo Grande em agosto

Sucesso nacional com mais de 180 mil espectadores, "A Última Sessão de Freud", espetáculo que debate fé, ciência e sentido da vida, chega ao Teatro Glauce Rocha para apenas três apresentações em agosto

24/06/2026 08h30

Mesmo defendendo pontos de vista completamente diferentes, Freud e C. S. Lewis mantêm o diálogo respeitoso no centro do debate

Mesmo defendendo pontos de vista completamente diferentes, Freud e C. S. Lewis mantêm o diálogo respeitoso no centro do debate João Caldas

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Um encontro que nunca aconteceu na vida real, mas que continua despertando reflexões profundas sobre a existência humana.

Essa é a proposta de "A Última Sessão de Freud", um dos maiores sucessos do teatro brasileiro contemporâneo, que chega a Campo Grande nos dias 7, 8 e 9 de agosto para uma curta temporada no Teatro Glauce Rocha, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Estrelado pelos atores Odilon Wagner e Marcello Airoldi, sob direção de Elias Andreato, o espetáculo reúne em cena dois dos intelectuais mais influentes do século 20: o neurologista austríaco Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, e o escritor britânico C. S. Lewis, conhecido mundialmente por obras como "As Crônicas de Nárnia".

Após conquistar mais de 180 mil espectadores, ultrapassar a marca de 400 apresentações e percorrer diversas cidades brasileiras em três turnês nacionais, a montagem desembarca na capital sul-mato-grossense trazendo um debate atual sobre fé, razão, amor, sofrimento, morte e a busca por significado em um mundo cada vez mais dividido.

ENCONTRO IMAGINÁRIO

A peça é baseada no texto do dramaturgo norte-americano Mark St. Germain e parte de uma pergunta instigante: o que aconteceria se Freud e Lewis tivessem se encontrado para uma conversa franca sobre Deus, ciência e a condição humana?

A narrativa se passa em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Freud, já idoso e vivendo seus últimos meses de vida após fugir da perseguição nazista na Áustria, encontra-se exilado na Inglaterra.

Nesse contexto histórico marcado pela incerteza e pelo avanço dos conflitos globais, ele recebe a visita de C. S. Lewis.

O escritor britânico, que durante a juventude se declarou ateu, tornou-se posteriormente um dos mais importantes pensadores cristãos do século passado.

Sua trajetória intelectual foi marcada justamente pela tentativa de conciliar fé e racionalidade, posição que o colocava em rota de colisão com muitas das ideias defendidas por Freud.

O que inicialmente parece ser apenas uma discussão sobre a existência de Deus logo se transforma em um intenso confronto filosófico. Os personagens abordam temas universais como espiritualidade, natureza humana, relações familiares, sexualidade, livre-arbítrio, sofrimento e morte.

DIÁLOGO NO CENTRO

Mesmo defendendo pontos de vista completamente diferentes, Freud e C. S. Lewis mantêm o diálogo respeitoso no centro do debateFoto: João Caldas

Ao longo dos 90 minutos de espetáculo, Freud e Lewis defendem convicções opostas sem recorrer à agressividade ou ao desrespeito. O embate intelectual é construído por meio de argumentos, escuta e reflexão, oferecendo uma rara demonstração de que divergências podem gerar aprendizado.

Essa característica tem sido apontada por críticos e espectadores como um dos fatores que explicam o sucesso da peça. Embora ambientada no início do século 20, a obra estabelece paralelos evidentes com desafios enfrentados pela sociedade contemporânea.

Questões relacionadas à tolerância, convivência democrática e respeito às diferenças surgem naturalmente ao longo da narrativa, sem que o texto perca sua leveza ou seu humor refinado.

A combinação entre profundidade filosófica e acessibilidade faz com que o espetáculo dialogue tanto com estudiosos dos temas abordados quanto com espectadores que buscam apenas uma boa experiência teatral.

FENÔMENO

Desde sua estreia, em 2022, a montagem vem acumulando números expressivos e consolidando-se como um dos espetáculos mais longevos e bem-sucedidos do teatro nacional recente.

São mais de quatro anos em cartaz, centenas de apresentações e temporadas esgotadas em diversas capitais brasileiras. O êxito de público também foi acompanhado pelo reconhecimento da crítica especializada.

Pela interpretação de Sigmund Freud, Odilon Wagner recebeu indicações aos prêmios Shell, APCA e Bibi Ferreira, considerados entre os mais importantes das artes cênicas brasileiras.

Com uma carreira de décadas na televisão, no cinema e no teatro, o ator encontrou no personagem um dos trabalhos mais desafiadores de sua trajetória.

Em entrevistas concedidas ao longo das temporadas, Wagner tem destacado a atualidade dos debates propostos pela peça e a necessidade de fortalecer uma cultura baseada na escuta e na construção da paz.

Ao seu lado, Marcello Airoldi dá vida a C. S. Lewis, construindo um contraponto equilibrado ao racionalismo crítico de Freud e demonstrando a complexidade intelectual do escritor britânico.

Sob direção de Elias Andreato, a montagem aposta em uma encenação elegante e sóbria, que coloca o texto e os atores no centro da experiência teatral.

Sem recorrer a grandes efeitos visuais, o espetáculo concentra sua força na qualidade dos diálogos e na intensidade das interpretações.

O cenário assinado por Fábio Namatame recria o consultório de Freud durante seu período de exílio na Inglaterra. Livros, objetos pessoais e elementos característicos do ambiente ajudam a transportar o público para o contexto histórico da narrativa.

A ambientação contribui para reforçar a sensação de intimidade, como se os espectadores fossem convidados a testemunhar uma conversa privada entre duas das mentes mais influentes do século passado.

PÚBLICO VARIADO

Embora tenha como protagonistas personagens históricos específicos, "A Última Sessão de Freud" vai muito além de uma simples reconstituição biográfica.

Ao abordar temas ligados à filosofia, psicologia, religião e comportamento humano, a peça desperta interesse de públicos variados.

Em diferentes cidades, a montagem tem atraído estudantes, pesquisadores e profissionais das áreas de Psicologia, Filosofia, História, Letras, Teologia, Sociologia e Ciências Humanas em geral.

Universidades e instituições culturais também têm utilizado o espetáculo como ponto de partida para debates acadêmicos sobre temas contemporâneos relacionados à convivência social, liberdade de pensamento e diversidade de crenças.

CURTA TEMPORADA

Em Campo Grande, serão apenas três apresentações, realizadas no Teatro Glauce Rocha. As sessões acontecem nos dias 7 e 8 de agosto, sexta-feira e sábado, às 20h, e no dia 9 de agosto, domingo, às 17h.

Com classificação indicativa de 14 anos e duração aproximada de 90 minutos, o espetáculo promete atrair tanto o público habitual do teatro quanto pessoas interessadas em temas relacionados à filosofia, psicologia, literatura e espiritualidade.

>> Serviço

"A Última Sessão de Freud"

Datas: dias 7, 8 e 9 de agosto.
Local: Teatro Glauce Rocha.

Horários:

Sexta-feira (7): às 20h.
Sábado (8): às 20h.
Domingo (9): às 17h.

Classificação indicativa: 14 anos.
Duração: 90 minutos.
Ingressos vendidos pelo Sympla.

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