Há terremotos que não derrubam prédios, mas transformam vidas inteiras. São aqueles que acontecem dentro de casa, nas relações familiares, nos afetos desgastados e nas palavras que nunca chegam a ser ditas.
É justamente essa metáfora que inspira “Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter”, espetáculo da Cia. Ofit que retorna aos palcos em uma nova montagem entre os dias 5 e 7 de agosto, sempre às 19h, no Sesc Teatro Prosa, em Campo Grande.
Com entrada gratuita e classificação indicativa de 12 anos, a peça marca não apenas a volta de um dos trabalhos mais significativos da trajetória da companhia, mas também integra as comemorações pelos 20 anos da Cia. Ofit, fundada em 2006.
A remontagem também representa um reencontro entre passado e presente, preservando a potência da dramaturgia original enquanto incorpora novos artistas, novos olhares e um processo criativo baseado na formação continuada.
Escrita por Éder Rodrigues especialmente para a companhia em 2015 e dirigida por Nill Amaral, a obra acompanha uma família aparentemente comum que se vê diante de uma decisão capaz de alterar definitivamente sua dinâmica.
Aos poucos, aquilo que permaneceu escondido durante anos começa a emergir, revelando tensões, ressentimentos e verdades que resistiam ao tempo.
Longe de apostar em grandes acontecimentos ou reviravoltas espetaculares, o espetáculo concentra sua força dramática naquilo que costuma permanecer invisível: os silêncios, as ausências, os pequenos gestos e as despedidas que insistimos em adiar.
A própria referência ao título ajuda a compreender essa proposta. Um terremoto de 3,4 graus na Escala Richter dificilmente provoca grandes destruições, mas é suficiente para ser sentido.
Da mesma forma, a peça investiga os pequenos abalos emocionais que, mesmo discretos, transformam profundamente a vida das pessoas.
Segundo o diretor Nill Amaral, são justamente esses terremotos íntimos que tornam a montagem permanentemente atual.
“Os terremotos da trama são aqueles que acontecem quando deixamos de dizer o que precisa ser dito. As relações se acomodam, as distâncias aumentam e, quando percebemos, o tempo já revelou aquilo que tentamos esconder. É uma peça sobre a estranheza do lar e sobre tudo o que fingimos que continua vivo”, afirma.
FORMAÇÃO
A nova temporada nasce também de um processo coletivo de pesquisa desenvolvido ao longo deste ano. Em março, a companhia iniciou o workshop A Expansão da Palavra em Cena, uma investigação sobre o trabalho do ator que, além de oferecer formação artística, serviu como espaço de seleção para parte do elenco da remontagem.
A iniciativa integra o projeto P.E.S.S.O.A.S., reafirmando uma das características que acompanham a história da Cia. Ofit: transformar processos pedagógicos em experiências efetivas de criação artística.
Para Nill Amaral, teatro e formação caminham juntos.
“O teatro se constrói nesse trânsito entre pesquisa, aprendizagem e criação. É na sala de ensaio que as ideias são testadas, abandonadas e reinventadas”, explica.
O resultado desse processo é um elenco que reúne diferentes gerações e experiências de palco, promovendo um encontro entre artistas já consolidados e novos integrantes que chegam à companhia justamente por meio desse projeto de formação.
Uma das estreantes é Jurema de Castro, que interpreta Marta. A atriz conta que o desejo de conhecer a metodologia da companhia já existia há bastante tempo e que participar da seleção foi uma oportunidade inesperada.
“Eu sempre tive curiosidade de conhecer o método de trabalho do Nill. Quando fui selecionada, fiquei em choque. O processo tem sido uma loucura boa, completamente diferente de tudo o que vivi. Cada artista deixa um aprendizado, e encontrei nesse workshop um caminho para voltar ao teatro e fazer o que amo”, relata.
Também escolhida durante o workshop, Fernanda Almeida interpreta Lana, personagem responsável por desencadear conflitos que modificam profundamente a estrutura familiar apresentada na peça.
Para ela, a experiência ampliou sua percepção sobre aquilo que comunica em cena para além do texto.
“Aprendemos a comunicar muito além da palavra. O corpo, o gesto e a presença também contam a história. Mesmo quando não falamos, precisamos continuar acontecendo diante do público”, destaca.
Essa valorização do corpo e do silêncio dialoga diretamente com a proposta dramatúrgica do espetáculo. Em vez de explicar sentimentos ou apresentar respostas prontas, a montagem convida o espectador a ocupar os espaços vazios, interpretando aquilo que permanece nas entrelinhas.
Remontagem da peça faz parte das celebrações dos 20 anos da Cia. Ofit - Foto: Vaca AzulA PEÇA
A sinopse apresenta uma família que vê suas certezas abaladas por uma revelação. Em meio a um jogo de papéis e representações, os personagens percorrem não apenas os cômodos da casa, mas também os “incômodos” que carregam dentro de si.
A tradição familiar começa a ser colocada em risco à medida que antigas convenções deixam de sustentar vínculos que já não existem da mesma forma.
A peça propõe uma reflexão sobre os relacionamentos que insistimos em preservar apenas por hábito, medo ou conformismo. Ao longo da narrativa, torna-se evidente que muitas relações permanecem vivas apenas na aparência, enquanto emocionalmente já chegaram ao fim há muito tempo.
Essa abordagem torna “Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter” uma obra que ultrapassa o contexto específico da família retratada.
O espetáculo dialoga com qualquer pessoa que já tenha experimentado conflitos silenciosos, despedidas adiadas ou a dificuldade de romper com estruturas afetivas que perderam seu sentido.
Além da direção de Nill Amaral e da dramaturgia assinada por Éder Rodrigues, a montagem reúne um elenco formado por Nadja Mitidiero, Jurema de Castro, Leandro Faria, Karine Araújo, Fernanda Almeida e Gabriel Mikyo.
A equipe técnica também reúne profissionais com longa trajetória nas artes cênicas sul-mato-grossenses. A iluminação e a visualidade são assinadas por Gil Esper e Rodrigo Bento, enquanto a assistência de direção é de Carlos Anunciato.
Os figurinos são de Marciana Brunetto, a trilha e os efeitos sonoros de Gabriel de Oliveira Jr., a produção de Diva Palhano, a coordenação do workshop de Samuel Mello, a identidade visual da Vaca Azul e a assessoria de imprensa da Arruda Comunicação.
A realização é da Associação Cultural Oficina de Interpretação Teatral (Ofit).
A montagem integra o projeto P.E.S.S.O.A.S., financiado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro (FomTeatro), da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande (Fundac), com apoio do Sesc, Fecomércio MS, Casa de Cultura e Centro Cultural José Octávio Guizzo.
SERVIÇO
Espetáculo “Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter”
- Datas: dias 5, 6 e 7 de agosto.
- Horário: às 19h.
- Local: Sesc Teatro Prosa – Rua Anhanduí, nº 200, região central de Campo Grande.
- Ingressos: gratuitos, disponíveis pelo Sympla.
Foto: Divulgação
Ana Carolina de Rezende Coutinho e Zoroastro Coutinho Netoi - Foto: Studio Vollkopf
Camila Avesani - Foto: André Ligeiro


