Apesar de ainda ser vista por muitas pessoas como um sinal de falta de higiene, a cera de ouvido – conhecida tecnicamente como cerume – desempenha um papel fundamental na proteção do sistema auditivo.
Produzida naturalmente pelo organismo, ela funciona como uma barreira de defesa contra agentes externos, ajudando a prevenir infecções e protegendo estruturas delicadas do ouvido.
O problema surge justamente quando, na tentativa de removê-la, muitas pessoas recorrem ao uso de hastes flexíveis com algodão, prática que pode causar mais prejuízos do que benefícios.
Em muitos lares, após o banho, a limpeza dos ouvidos com hastes flexíveis faz parte da rotina de higiene de adultos e crianças.
O hábito, transmitido de geração em geração, é frequentemente associado à sensação de limpeza e cuidado. No entanto, especialistas alertam que essa prática pode comprometer o funcionamento natural do ouvido e favorecer o surgimento de problemas auditivos.
Segundo a otorrinolaringologista dra. Raquel Rodrigues, o cerume não é um resíduo que precisa ser eliminado constantemente, mas sim um importante mecanismo de proteção criado pelo próprio organismo.
“O cerume é produzido pelas glândulas sebáceas e ceruminosas localizadas na parte externa do canal auditivo e não está ali por acaso. Ele atua como um mecanismo de defesa contra poeira, insetos, bactérias, fungos e umidade”, explica a especialista.
PROTEÇÃO NATURAL
O ouvido humano tem um sofisticado sistema de defesa que começa justamente com a produção do cerume.
Essa substância de aspecto amarelado ou amarronzado é composta por secreções naturais, células mortas da pele e pequenas partículas capturadas do ambiente.
Embora muitas pessoas considerem a cera algo desagradável, ela é essencial para a manutenção da saúde auditiva. Sua composição garante diversas funções importantes, entre elas, a lubrificação da pele do canal auditivo, a proteção contra agentes infecciosos e a remoção natural de impurezas.
Entre os principais benefícios do cerume estão: lubrificação, evitando o ressecamento da pele do canal auditivo e reduzindo descamações e coceiras; barreira física, impedindo que poeira, sujeira, pelos, insetos e outras micropartículas alcancem regiões mais profundas do ouvido; e ação antimicrobiana, graças ao seu pH levemente ácido e à presença de enzimas, dificultando a proliferação de bactérias e fungos que podem provocar infecções.
Além dessas funções, o cerume participa de um eficiente processo de autolimpeza. Diferentemente do que muitos imaginam, o ouvido não precisa ser limpo internamente porque ele próprio elimina a cera excedente.
“Nosso ouvido possui um sistema de autolimpeza que funciona quando mastigamos ou falamos. Esses movimentos da mandíbula, aliados ao crescimento natural da pele de dentro para fora do canal auditivo, empurram gradativamente a cera envelhecida até a borda da orelha, onde ela pode ser removida com segurança durante o banho ou ao secar a região com uma toalha”, afirma dra. Raquel Rodrigues.
O PERIGO DOS COTONETES
Apesar da eficiência desse mecanismo natural, milhões de pessoas continuam utilizando hastes flexíveis para remover a cera. O problema é que esses objetos não retiram o cerume de forma adequada. Na maioria das vezes, eles apenas empurram a substância para regiões mais profundas do canal auditivo.
Esse processo favorece o acúmulo progressivo da cera, que pode endurecer e formar uma espécie de tampão conhecido como rolha de cerume.
A médica alerta que o uso frequente de cotonetes é uma das principais causas desse problema.
“A condição exige atenção e, na grande maioria das vezes, é causada pelo uso de hastes flexíveis e outros objetos que empurram a cera para o fundo do canal auditivo”, destaca.
Além de favorecer a formação das rolhas de cerume, o uso inadequado desses objetos pode provocar ferimentos na pele do canal auditivo, aumentar o risco de infecções e, em casos mais graves, causar perfurações no tímpano.
Os riscos não se limitam aos cotonetes. Grampos de cabelo, chaves, tampas de caneta, palitos e outros objetos improvisados também podem provocar lesões sérias quando introduzidos no ouvido.
CERA EM EXCESSO
Embora o cerume seja benéfico, existem situações em que ele pode se acumular em excesso e gerar desconfortos.
Quando o mecanismo natural de eliminação falha, a cera endurece e bloqueia parcialmente ou totalmente o canal auditivo.
Nesses casos, a pessoa pode apresentar sintomas como: sensação de ouvido entupido ou abafado, diminuição temporária da audição, zumbidos, dor de ouvido, coceira persistente e tonturas ou sensação de desequilíbrio.
Além do uso de cotonetes, outros fatores podem favorecer o acúmulo excessivo de cerume.
O uso frequente de fones de ouvido intra-auriculares, por exemplo, pode dificultar a saída natural da cera. Pessoas que têm canais auditivos mais estreitos também apresentam maior predisposição ao problema.
A alta oleosidade da pele e o envelhecimento são outros fatores importantes. Com o avanço da idade, a composição do cerume sofre alterações.
“Quando envelhecemos, o cerume se torna mais seco e duro, facilitando a formação de rolhas de cera e dificultando o processo de autolimpeza do canal auditivo”, diz a especialista.
COMO HIGIENIZAR
Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a limpeza adequada dos ouvidos é simples e não exige nenhum objeto específico.
Os especialistas recomendam que a higienização seja feita apenas na parte externa da orelha, conhecida como concha auricular, e na entrada do canal auditivo.
Durante o banho, a água e o sabonete que escorrem naturalmente pela região já são suficientes para remover impurezas superficiais. Depois, basta secar delicadamente a área com uma toalha macia.
Não há necessidade de introduzir qualquer objeto dentro do ouvido.
Essa orientação é respaldada por diversas entidades médicas ao redor do mundo, que reforçam que o canal auditivo saudável tem mecanismos próprios para se manter limpo e protegido.
QUANDO BUSCAR UM MÉDICO
A presença de cera no ouvido só deve ser considerada um problema quando provoca sintomas ou interfere na qualidade de vida da pessoa.
Ao notar sensação persistente de ouvido tampado, redução da audição, dores ou zumbidos, a recomendação é procurar um médico otorrinolaringologista.
O especialista poderá avaliar se os sintomas realmente estão relacionados ao excesso de cerume ou se existe outra condição que necessita de tratamento.
Caso seja confirmada a presença de uma rolha de cera, a remoção será realizada de forma segura por meio de técnicas apropriadas, como lavagem auricular, aspiração ou retirada manual com instrumentos específicos.
A automedicação ou a tentativa de resolver o problema em casa podem agravar o quadro e causar lesões.

Franklin Masruha,João Leite Schimidt e Junior Mochi - Foto: Arquivo Pessoal
Diana Navas - Foto: Arquivo Pessoal
Naturalmente, o ômega 3 é presente em peixes de águas frias, sementes e alguns vegetais - Foto: Pexels

