Bebês podem nascer nos hospitais ou em casa, passarinhos nascem dos ovos, e a girafa já quase sai andando depois que sua mãe lhe dá à luz.
Mas e uma canção, alguém aqui já a viu nascer? Será que ela também vem de ovos, sai de uma maternidade enroladinha em uma manta ou caminha sozinha logo depois de sair de dentro do compositor?
“A canção só nasce de verdade quando uma melodia encontra uma letra. O ‘lá, lá, lá’ ou os versinhos no caderno ainda não são uma canção. A melodia precisa encontrar a letra para a canção nascer”, conta o compositor Marcelo Segreto, que canta no grupo Filarmônica de Pasárgada e que também dá aulas de composição.
Segreto é mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), onde pesquisa a composição de canções populares. As canções são músicas que têm uma letra, ou seja, do tipo que dá para cantar junto quando se ouve tocar.
A compositora e cantora Adriana Calcanhotto, que durante muito tempo foi Adriana Partimpim, acha que cada canção tem um caminho diferente para nascer.
“Cada canção é uma, independentemente da compositora ou do compositor”, confirma.
No caso dela, esse processo de nascimento das canções costuma ter letra e música surgindo juntas. Já com Segreto o caminho até esse grande encontro pode variar. “Às vezes, a música nasce antes e depois eu vou encaixando as palavras. Às vezes, faço a letra e depois chega a música”, conta.
“Eu pego o violão e vou cantarolando uma melodia sem letra, aquele ‘lá, lá, lá’, e começo a colocar palavras aleatórias nesse ‘lá, lá lá’, brincando de encaixar qualquer palavra que caiba na melodia.
Aí vou percebendo que algumas palavras ficam boas naquela melodia e começo a pensar em outras palavras para completar a frase, e assim vai”, descreve.
Segreto explica que esse rascunho ainda sem letra se chama letra monstro. Segundo o músico, grandes compositores como Noel Rosa já faziam canções assim quase 100 anos atrás.
Com a letra monstro pronta, vem a parte de inserir coisas nela. “Muitas vezes, a gente não escolhe as rimas, são elas que escolhem a gente.
É muito comum que uma frase que a gente cantava com ‘lá, lá, lá’ vire ‘olha lá’, outra que a gente cantava com ‘ti, ti, ti’ vire ‘bem-te-vi’ e uma que a gente cantava com ‘pê, pê, pê’ vire ‘vem me ver’”, comenta.
“Uma coisa importante de saber é que a gente começa com uma primeira ideia, que a gente não deve nunca censurá-la. Mas isso não significa que a canção esteja pronta ali. Nunca se faz uma letra ou canção e pronto, já se diz ‘fiz’ e que não precisa de mais nada”, opina.
Esse trabalho todo leva tempo e exige paciência dos compositores. Adriana ressalta que Dorival Caymmi, famoso compositor baiano, chegou a levar 20 anos para fazer algumas de suas canções.
“Isso não quer dizer que o compositor trabalhe todos os dias só nisso, sabe?”, reforça a cantora.
“Porque é importante trabalhar na canção, mas, então, deixá-la um pouquinho de lado, e só depois retomar. O tempo vai passar, e você vai olhar para aquilo de outra forma”, sugere. É como se faz com massas de pão e biscoito na cozinha, deixando-as descansar para crescerem e virarem outra coisa.
“Não tocar um instrumento não te impede de fazer canções. Muitos sambas emblemáticos do nosso cancioneiro foram feitos batucando em caixinha de fósforo. Isso não é desculpa. Evidente que se você dominar um instrumento ou ao menos arranhá-lo, melhor para sua composição. Quanto mais estudar música, mais ferramentas você vai ter”, enfatiza Adriana.
Grupo de Segreto, a Filarmônica de Pasárgada tem canções com letras bem engraçadas, como na que diz
“oh, que saudade da cidade de São Paulo/Da fumaça, do CO, do CO2 no meu pulmão/O ar do interior só tem mosquito e pernilongo/Que me pica, que me coça, que me causa irritação”.
Claro, fazer humor na letra exige do compositor um trabalho bem diferente daquele em canções com letras tristes. Segreto diz que canções brincalhonas o fazem pensar mais sobre palavras boas para dar risada, enquanto nas reflexivas o foco é encontrar acordes melancólicos.
Para aprimorar as letras, Adriana recomenda que os futuros compositores leiam bastante poesia. “Tanto ler poetas que fazem canção, como Vinicius [de Moraes], Chico [Buarque] e Caetano [Veloso], quanto poetas de livros, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Mario Quintana”, lista.
Outra ideia boa é ter sempre à mão um gravador. “Grave todas as ideias, porque a gente pensa que vai se lembrar delas, mas não vai. Essa dica de ouro não é nem minha, eu aprendi isso com [a cantora e compositora] Marisa Monte”, ressalva.
“Acho que aprender a fazer canção é que nem aprender a andar de bicicleta. Você só aprende tentando e praticando. Quando dou aula de criação de canção, mostro para os alunos as diferentes maneiras de fazer canção e fico incentivando todos eles a compor cada vez mais”, opina Segreto. E Adriana encoraja:
“Componham, crianças!”.
“Como diz o professor Luiz Tatit, todo mundo que fala uma língua pode criar uma canção, pois a canção se parece com a nossa fala do dia a dia. A diferença é que, na canção, a gente tem mais tempo para escolher as palavras e os sons da voz”, finaliza Segreto.


Construir camadas inteligentes é a melhor forma de lidar com o inverno sul-mato-grossense - Foto: Reprodução/Pinterest
Além de utilizar roupas com fibras naturais, é importante investir em peças com proteção UV para enfrentar o calor mais intenso - Foto: Reprodução/Pinterest

