Não são muitos os casos de anulação de casamento na Igreja Católica que chegam ao conhecimento público, embora o procedimento exista e seja muito mais complexo do que geralmente imaginamos.
Conheço um caso de perto e posso garantir que o processo está longe de ser tão divertido quanto aquele que acompanhamos em O Que é o Amor? (C’est quoi l’amour?), deliciosa comédia de Fabien Gorgeart que integra a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil.
Talvez justamente por conhecer um pouco dessa realidade tenha admirado ainda mais a proposta do diretor, que usa uma situação burocrática, delicada e potencialmente dolorosa para construir um filme sobre amor, separação, nostalgia, compromisso, amadurecimento e, sobretudo, sobre o significado de família nos dias atuais.
A premissa é irresistível. Fred (Vincent Macaigne) quer se casar na Igreja com sua nova companheira, Chloé (Mélanie Thierry), mas para isso precisa obter a declaração de nulidade de seu primeiro casamento, com Marguerite (Laure Calamy).
Separados há anos, os dois construíram novas relações e parecem ter encontrado uma convivência bastante civilizada. Marguerite, que também refez sua vida ao lado de Sofiane (Lyes Salem), não vê motivo para impedir que o ex-marido siga em frente. Afinal, o casamento terminou, ambos estão felizes com outras pessoas e as filhas já se acostumaram à realidade de uma família recomposta.
O problema é que a Igreja Católica não considera o divórcio suficiente para permitir um novo casamento religioso. Para obter a declaração de nulidade, é necessário demonstrar que aquela união, por razões específicas, não foi válida desde sua origem.
E é justamente aí que Gorgeart encontra a contradição que sustenta sua comédia: para que Fred possa começar uma nova etapa da vida, ele e Marguerite precisam revisitar o passado e questionar a validade de um casamento que, independentemente de seu fim, produziu uma família, construiu lembranças e marcou profundamente suas vidas.
O que deveria ser uma formalidade acaba levando todos a Roma, numa viagem em que ex-cônjuges, novos companheiros e filhos precisam conviver com situações que revelam muito mais do que pretendiam.
O roteiro poderia facilmente transformar essa reunião numa sucessão de confusões previsíveis, mas prefere observar as particularidades de uma família que já aprendeu a viver de outra maneira e que, inesperadamente, precisa confrontar sentimentos que julgava resolvidos.
O Que é o Amor? Como anular um casamento sem apagar uma história? - DivulgaçãoFabien Gorgeart pesquisou o funcionamento dos processos de nulidade matrimonial para escrever a história, conversando com religiosos e profissionais envolvidos nesses procedimentos.
A partir de uma realidade que está longe de ser simples, construiu uma comédia que encontra humor no contraste entre as definições institucionais do casamento e a complexidade das relações humanas. O diretor não precisa ridicularizar a Igreja para demonstrar o quanto pode ser difícil enquadrar sentimentos, escolhas e experiências nas exigências de um processo formal.
Mas o que faz O Que é o Amor? ultrapassar a condição de uma boa comédia de situações é a maneira como observa seus personagens, especialmente Marguerite.
Laure Calamy, que conquistou reconhecimento internacional com a série Dix pour cent (Dez por Cento), volta a demonstrar seu enorme talento para criar personagens que transitam entre o humor e a vulnerabilidade sem perder a naturalidade.
Sua Marguerite é uma mulher que lida com as filhas adolescentes, administra os desafios de uma família recomposta e mantém uma relação aparentemente tranquila com o ex-marido.
Ela não ama mais Fred como companheiro, não deseja reconstruir o casamento e tampouco parece alimentar ilusões românticas sobre o passado. Mas isso não significa que tudo o que viveram tenha deixado de existir.
E talvez esteja justamente aí a dimensão mais delicada do filme.
Ao revisitar o casamento para atender às exigências do processo, Marguerite reencontra lembranças que estavam guardadas, algumas delas tão distantes que ela própria parecia ter esquecido o quanto foram especiais.
Não se trata necessariamente de saudade do homem com quem se casou, mas da história que construíram, da mulher que ela era naquele momento e de experiências que, mesmo depois da separação, continuam fazendo parte de sua identidade.
Como anular a memória? Como declarar que um casamento nunca existiu validamente sem apagar, pelo menos simbolicamente, os sentimentos, as escolhas e os acontecimentos que nasceram daquela união? E, sobretudo, como ressignificar lembranças sem precisar negá-las?
O Que é o Amor? Como anular um casamento sem apagar uma história? - DivulgaçãoSão perguntas que ultrapassam a particularidade do processo religioso. Quando uma relação termina, é comum que o passado seja reorganizado a partir da dor, do desencanto ou das razões que levaram à separação.
O casamento que um dia pareceu feliz pode passar a ser lembrado apenas pelos conflitos que o encerraram, como se reconhecer os bons momentos significasse questionar a decisão de seguir em frente.
Mas amadurecer também pode significar aceitar que uma história tenha sido importante mesmo sem ter durado para sempre. Que um relacionamento possa ter produzido felicidade, cumplicidade e afeto, ainda que tenha terminado. E que lembrar com ternura não representa necessariamente o desejo de voltar.
Essa é uma das qualidades mais bonitas da personagem de Laure Calamy. Marguerite não precisa escolher entre amar sua vida atual e reconhecer o valor daquela que deixou para trás.
A experiência compartilhada com Fred não desaparece porque ambos escolheram novos parceiros, assim como a existência das filhas torna impossível tratar aquele casamento como um episódio sem consequências.
O relacionamento terminou, mas a família que nasceu dele continua existindo, ainda que em outra configuração.
E os novos companheiros também fazem parte dessa história. Gorgeart evita apresentar uma família recomposta como uma solução perfeita ou como um território permanentemente marcado por rivalidades.
O filme reconhece que existem ciúmes, inseguranças, expectativas e dificuldades de convivência, mas também mostra que os vínculos podem ser reorganizados sem que todos precisem ocupar posições de adversários.
Há algo bastante contemporâneo nessa maneira de olhar para a família. Durante muito tempo, fomos ensinados a pensar no casamento como uma promessa de permanência e na separação como o fracasso dessa promessa.
Hoje, embora as relações continuem cercadas de expectativas, existe uma compreensão maior de que o fim da vida conjugal não precisa representar a destruição de todos os vínculos construídos durante ela.
Isso não significa que seja fácil. Tampouco que todas as separações permitam uma convivência harmoniosa. Mas existe uma diferença entre reconhecer que o amor romântico acabou e concluir que tudo aquilo que foi vivido perdeu seu significado.
Vincent Macaigne, com sua habilidade particular para interpretar homens que parecem permanentemente desconcertados pelas próprias escolhas, oferece um excelente contraponto à energia de Calamy. Fred quer resolver uma questão prática para seguir adiante, mas acaba provocando uma revisão emocional que não havia previsto.
O Que é o Amor? Como anular um casamento sem apagar uma história? - DivulgaçãoLaure, por sua vez, dá a Marguerite uma complexidade que explica por que sua atuação foi premiada no Festival Internacional de Cinema de Comédia de Alpe d’Huez, onde o longa também conquistou o Grande Prêmio.
A graça do filme está nas situações que surgem desse encontro improvável entre passado e presente, mas sua força está na recusa de transformar os personagens em caricaturas.
Não há necessidade de estabelecer culpados ou inocentes, nem de determinar quem amou mais ou quem errou primeiro. Existe, sobretudo, a percepção de que as relações humanas raramente cabem em definições absolutas.
E é curioso pensar que tudo começa com a necessidade de declarar nulo um casamento. Porque, embora a nulidade religiosa tenha um significado jurídico e canônico específico, o filme brinca com a ideia de que seria possível submeter uma história de amor a uma espécie de revisão definitiva, como se sentimentos, experiências e memórias pudessem ser reorganizados de acordo com uma decisão formal.
Não podem. E talvez nem devam.
O Que é o Amor? é uma comédia sobre recomeços, mas também sobre aquilo que permanece. Sobre aceitar que as pessoas mudam, que os relacionamentos se transformam e que crescer significa, muitas vezes, abandonar a necessidade de dividir o passado entre aquilo que deu certo e aquilo que fracassou.
Integrante do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, realizado de 29 de outubro a 11 de novembro de 2026 em mais de 50 cidades, o longa chega ao público brasileiro depois de conquistar o Grande Prêmio e o prêmio de Melhor Atriz para Laure Calamy no Festival de Alpe d’Huez.
É um daqueles filmes que nos fazem rir de situações improváveis enquanto nos convidam a reconhecer sentimentos bastante familiares.
Talvez a pergunta do título não tenha uma única resposta. O amor pode acabar, mudar de forma, sobreviver como amizade, compromisso ou memória. E talvez amadurecer seja compreender que não precisamos apagar uma história para começar outra.
Porque podemos anular um casamento. Mas não podemos, nem precisamos, anular tudo aquilo que vivemos.
O que mudou no texto: a experiência próxima com uma anulação real dá credibilidade à abertura, enquanto a descoberta de Marguerite sobre suas próprias lembranças se torna o centro emocional da crítica.
O filme deixa de ser apenas uma história sobre ex-cônjuges civilizados e passa a discutir algo mais profundo: a possibilidade de reconhecer a beleza de uma relação que terminou sem desejar retomá-la.
E acho especialmente importante preservar a pergunta “Como ressignificar lembranças sem precisar negá-las?”. Ela sintetiza muito bem a maturidade afetiva que você identificou no filme.
O que é o Amor? integra a programação do 17º Festival de Cinema Francês do Brasil, realizado de 29 de outubro a 11 de novembro, em mais de 50 cidades brasileiras. A programação e os horários variam de acordo com cada cinema.


