Economia

PANORAMA AGRÍCOLA

Chuvas irregulares geram incertezas em produtores de soja em Mato Grosso do Sul

Enquanto o sul enfrenta excesso de chuva e risco sanitário, regiões afetadas pela seca veem recuperação do potencial produtivo

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A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica volumes consideráveis de chuva no início deste ano, criando um cenário de contrastes para o produtor rural em Mato Grosso do Sul. De acordo com Éder Comunello, pesquisador em agrometeorologia da Embrapa Agropecuária Oeste, as irregularidades podem prejudicar algumas regiões do Estado.

“A distribuição das chuvas e, por consequência, do deficit hídrico tem sido extremamente desigual, deixando o estado ‘dividido pelo clima’”, avalia.

Ainda de acordo com o pesquisador, dependendo da região e da propriedade, isso pode ser má ou boa notícia para o produtor, o que inclusive pode afetar a produtividade da colheita. “No extremo-sul, a abundância de água acende o sinal de alerta”, avisa o pesquisador.

“Municípios como Mundo Novo e Sete Quedas registraram acumulados [de chuva] expressivos, superando 70 milímetros em uma semana. Para os produtores desta região, a chuva pode trazer uma ‘dor de cabeça’ logística e sanitária: o excesso de umidade em lavouras prontas para a colheita favorece a abertura de vagens e pode impulsionar casos de ferrugem asiática. O solo encharcado dificulta o trânsito de máquinas, prejudicando pulverizações de controle e a própria colheita”, alerta.

O engenheiro-agrônomo Ângelo Ximenes reforça o lado bom das chuvas constantes, principalmente, neste início de ano.

“Neste ano completam 42 safras que eu acompanho. Eu vejo, igual a este ano, falando do sul de Mato Grosso do Sul, ali, na região de fronteira, Dourados, Caarapó, Laguna, Maracaju, indo mais para a divisa com São Paulo também, as precipitações que ocorreram foram muito satisfatórias.

Está não só chovendo um volume bom, como está chovendo no momento adequado. Então, nós temos uma previsão de uma safra muito boa, acreditamos que vai ser uma das melhores médias que já tivemos nas últimas décadas, podemos dizer”, explica.

Na mesma linha, Comunello também acrescenta que, apesar dos riscos sanitários, a avaliação técnica do centro do Estado é também positiva.

“Como a maioria das lavouras se encontra na fase de enchimento de grãos [estádio fenológico de alta demanda hídrica], a chuva é, na média, mais benéfica do que prejudicial neste momento. A água chega para mitigar o deficit de dezembro, garantindo o peso do grão da soja. Além disso, a manutenção da umidade agora assegura a recarga da reserva hídrica no solo, condição fundamental para o estabelecimento do milho safrinha”, declara.

SECA

Na outra ponta do mapa, a realidade é oposta. “A região norte, que enfrentou seca severa no desenvolvimento inicial da soja, recebe as chuvas de janeiro como uma boa notícia. Para as lavouras tardias e atrasadas pelo clima seco de dezembro, a água agora é essencial para encher os grãos e recuperar o potencial produtivo”, explica o agrometeorologista.

“A Grande Dourados e a região central do Estado vivem o desafio de administrar essas duas realidades simultaneamente. Marcada pela irregularidade das chamadas ‘chuvas de manga’, em que as precipitações podem ser muito diferentes mesmo entre propriedades vizinhas, a região sente os efeitos mistos do clima”, detalha. 

Além da preocupação com a chuva e a ferrugem, ainda elenca que é necessária atenção à baixa luminosidade, com os vários dias de céu encoberto.

“A planta precisa de muita energia solar para realizar fotossíntese e transferir peso para os grãos. Dias nublados consecutivos reduzem a taxa fotossintética, o que pode levar a diversos distúrbios fisiológicos. Nesse contexto, o impacto mais importante é o menor enchimento dos grãos, o que pode resultar em redução da produtividade final mesmo em lavouras visualmente sadias”, acrescenta Comunello.

“Diante desse quadro, a recomendação é de monitoramento contínuo e agilidade operacional. O produtor deve manter atenção redobrada à necessidade de tratos culturais, priorizando o controle fitossanitário nos intervalos de tempo firme para conter o avanço de doenças. Já para as áreas prontas, a estratégia é não hesitar: é fundamental aproveitar cada janela de estiagem para avançar com a colheita, mitigando perdas de qualidade por excesso de umidade e garantindo o calendário da safra seguinte”, sugere.

PREVISÃO

De acordo com o prognóstico agroclimático para o período de janeiro, fevereiro e março deste ano, divulgado no Boletim Agrometeorológico do Inmet, na Região Centro-Oeste, haverá volumes de chuva próximos ou acima da média em todo o estado de Mato Grosso do Sul.

As temperaturas tendem a permanecer acima da média em toda a região, podendo ficar até 1,0°C acima da média histórica, especialmente no Estado, onde devem ocorrer os maiores registros.

A projeção para 2025/2026 é de uma nova supersafra de sojaA projeção para 2025/2026 é de uma nova supersafra de soja - Foto: Gerson Oliveira/Correio do Estado

A previsão de armazenamento hídrico do solo indica níveis de umidade superiores a 60% em grande parte da Região Centro-Oeste ao longo do trimestre. Conforme o prognóstico, essa elevação poderá resultar em condições de excesso hídrico.

Nessas áreas, o excesso de água pode ocasionar encharcamento do solo, dificultar operações de manejo e favorecer a ocorrência de doenças, além de afetar o desenvolvimento radicular das culturas.

Por outro lado, o documento também indica que a regularização das chuvas deverá assegurar disponibilidade hídrica adequada, favorecendo o enchimento de grãos das culturas de verão e a consolidação das pastagens, com impactos positivos sobre os sistemas produtivos agrícolas e pecuários da região.

Conforme o Boletim Casa Rural, divulgado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), em todas as regiões, a maioria das lavouras apresenta boas condições. A projeção para a safra 2025/2026 é de produção de 15,2 milhões de toneladas, com produtividade média de 52,8 sacas por hectare.

O volume estimado representaria um incremento de 2% em relação ao ciclo anterior. Também conforme a nota técnica, a área destinada ao cultivo de soja segue em expansão, com crescimento de 6% em relação à safra passada, totalizando 4,8 milhões de hectares.

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Energia Elétrica

Aneel aprova tarifaço nas contas de energia em MS

Reajuste anual das tarifas da Energisa Mato Grosso do Sul fica definido em um efeito médio de R$12,11% a mais no bolso do consumidor

22/04/2026 09h14

Conforme a Resolução Homologatória (REH), o índice que passa a ser percebido é de 12,11%, sendo 12,39% para os consumidores em Alta Tensão e 11,98% para aqueles em Baixa Tensão.

Conforme a Resolução Homologatória (REH), o índice que passa a ser percebido é de 12,11%, sendo 12,39% para os consumidores em Alta Tensão e 11,98% para aqueles em Baixa Tensão. Gerson Oliveira/Correio do Estado

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Após decisão tomada através de votação na Superintendência de Gestão Tarifária e Regulação Econômica (STR), a Agência Nacional de Energia Elétrica aprovou o chamado "tarifaço" nas contas de energia em Mato Grosso do Sul, como consta na ata de voto publicada pela Aneel com data desta quarta-feira (22). 

Vale lembrar que, comumente os reajustes acontecem até o fim da primeira semana de abril, mais tardar dia oito, com esse aumento previsto tendo sido adiado mais de uma vez enquanto tramitava pelos corredores da Aneel. Há uma semana, por exemplo, de forma inédita o diretor-geral da agência pediu destaque mesmo não tendo votos divergentes para a definição da tarifa. 

Agora, conforme ata de voto publicada pela Aneel, com a pauta da 8ª reunião pública ordinária da diretoria, o processo de reajuste anual das tarifas da Energisa Mato Grosso do Sul fica definido em um efeito médio de R$12,11% a mais no bolso do consumidor. 

Conforme a Resolução Homologatória (REH), o índice que passa a ser percebido é de 12,11%, sendo 12,39% para os consumidores em Alta Tensão e 11,98% para aqueles em Baixa Tensão.

Além disso, a REH também estabelece os seguintes pontos: 

  • FIXAR as Tarifas de Uso dos Sistemas de Distribuição (TUSD) e as Tarifas de Energia Elétrica (TE) aplicáveis aos consumidores e usuários da EMS.
  • ESTABELECER os valores da receita anual referente às instalações de conexão classificadas como Demais Instalações de Transmissão (DIT) de uso exclusivo; e
  • HOMOLOGAR o valor mensal de recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) a ser repassado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) à EMS, de modo a custear os descontos retirados da estrutura tarifária.
Conforme a Resolução Homologatória (REH), o índice que passa a ser percebido é de 12,11%, sendo 12,39% para os consumidores em Alta Tensão e 11,98% para aqueles em Baixa Tensão.

Entenda

A votação para esse aumento já havia aprovado o reajuste médio de 12,11% para a tarifa de energia elétrica para 1,15 milhão de consumidores, em 74 municípios sul-mato-grossenses atendidos pela Energisa MS, há pelo menos uma semana. 

Essa novela em cima da atualização anual começou ainda dia 6 deste mês, quando a Energisa MS apresentou ofício comunicando que aceita o adiamento em uma semana para: "contribuir com a avaliação de possíveis alternativas destinadas a mitigar os impactos de reajustes tarifários aos clientes”.

Nesse cenário, como citado anteriormente haverá variação nos percentuais de acordo com a tensão da rede utilizada, ficando em 12,39%,em média,  para empresas, e 11,98% para o consumo de baixa tensão.

O reajuste para cliente residencial será de 11,75%. Esses índices seriam maiores, porém, a autarquia consultou a empresa, a pedido do Ministério de Minas e Energia, sobre a possibilidade de abrir mão de R$ 21 milhões em custos no cálculo.

A proposta foi acatada pela empresa, resultando na diminuição de meio ponto percentual no reajuste, após a diretoria colegiada adiar a decisão em cerca de duas semanas agora. 

Pelos valores anteriores, o reajuste médio seria de 12,61%, sendo 12,49% a mais aos consumidores de baixa tensão, enquanto os de alta teriam aumento até 12,88%, conforme dados da planilha apresentada em 30 de março.
**(Colaborou Clodoaldo Silva, de Brasília).

 

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Disparada

CNJ cria regras para conter recuperação judicial no agro

Critérios endurecem comprovação de crise financeira e reforçam análise técnica da atividade rural diante da alta de pedidos

22/04/2026 08h00

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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Diante do forte aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio, que em Mato Grosso do Sul cresceram 118%, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou neste mês o Provimento nº 216/2026, estabelecendo critérios mais rigorosos para o acesso dos produtores rurais ao instrumento de reestruturação de dívidas. 

A norma orienta magistrados de primeira instância sobre a aplicação da legislação após as alterações nas Leis nº 11.101/2005 e nº 14.112/2020, diante da preocupação com interpretações divergentes que afetam o crédito rural.

O texto, assinado pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, foi editado “com o objetivo de assegurar a segurança jurídica e a estabilidade econômica do setor agropecuário”, diante da “complexidade e especialidade dos processos de recuperação judicial, tendo como devedor o empresário produtor rural, pessoa física ou jurídica”.

O aumento dos pedidos reforçou a necessidade de padronização. No Estado, foram 216 solicitações em 2025, volume 118% superior ao de 2024 e 756% maior que o registrado em 2023, quando houve apenas 25 casos, segundo a Serasa Experian. Em 2024, o número já havia subido para 99.

O crescimento foi impulsionado por juros elevados, oscilações de preços e mudanças no mercado agrícola.

Pelo provimento, o produtor rural deverá demonstrar efetiva insolvência ao protocolar o pedido, comprovando insuficiência de recursos financeiros para quitar dívidas e apresentando laudos sobre as condições operacionais da atividade, incluindo maquinário, estrutura produtiva e garantias vinculadas às safras.

O magistrado poderá nomear perito para verificar as informações e confirmar se o devedor exerce a atividade rural pessoalmente, sendo vedado o benefício a quem apenas arrenda terras ou participa de sociedades sem assumir o risco da produção.

O CNJ também definiu quais créditos não podem ser incluídos na recuperação judicial, como valores renegociados com instituições financeiras antes do pedido, financiamentos contratados nos três anos anteriores para aquisição de propriedade rural e operações de antecipação de câmbio para exportação.

O documento estabelece ainda que “os créditos e as garantias cedulares vinculados à Cédula de Produto Rural (CPR) com liquidação física, nos casos de antecipação parcial ou integral do preço, ou quando representarem operação de troca por insumos (barter)”, não se submetem aos efeitos da recuperação, salvo em situações de caso fortuito ou força maior.

Outro ponto destacado é que “tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis [...] prevalecerão os direitos de propriedade sobre a coisa e as condições contratuais”, preservando garantias essenciais ao financiamento da atividade rural.

EQUILÍBRIO

Especialistas avaliam que a medida busca preservar o equilíbrio do sistema de crédito agrícola. Para André Aidar, sócio e head de Direito do Agronegócio no Lara Martins Advogados, o uso recorrente da recuperação judicial pode gerar distorções no mercado.

“Quando a recuperação judicial se torna previsível, ela deixa de cumprir plenamente sua finalidade. Credores passam a precificar o risco de inadimplemento de forma sistêmica, elevando custos, endurecendo garantias e reduzindo a flexibilidade contratual. O resultado é um ambiente mais caro e menos eficiente para todos, inclusive para produtores financeiramente saudáveis”, afirma.

Segundo ele, a banalização do instrumento afeta toda a cadeia de financiamento. “A recuperação judicial, quando utilizada de forma recorrente, fragiliza o próprio sistema de financiamento do agronegócio, pois transfere custos e incertezas para toda a cadeia”, explica.

Na avaliação do advogado Leandro Provenzano, integrante da Comissão de Direito do Agronegócio da OAB-MS, a alta nos pedidos é reflexo de fatores estruturais.

“O produtor brasileiro tem custo elevado porque a maioria dos insumos é importado e cotado em dólar. Só a semente tem produção local, o restante [fertilizantes, defensivos, corretivos de solo] vem de fora. Isso encarece a produção e reduz a competitividade”, analisa.

Ele destaca ainda a limitação do seguro rural no País. “A maioria dos produtores está desprotegido. O seguro rural poderia minimizar os impactos das quebras de safra, mas é pouco acessível”.

Para Aidar, o desafio está na prevenção das crises financeiras. “Estamos utilizando a recuperação judicial para corrigir falhas que deveriam ser tratadas antes da crise, na modelagem dos contratos, na estruturação do crédito e na organização jurídica da atividade rural”, conclui.

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