O TikTok vem sendo usado como isca por criminosos que buscam interessados em conteúdo de abuso sexual infantil e depois direcionam essas pessoas para o Telegram, onde a negociação de fato acontece. Vídeos sem nenhuma relação aparente com o crime, como um simples registro de um gato dançando, servem de disfarce, enquanto códigos escondidos nos comentários guiam os compradores em potencial até o material ilícito e ajudam a driblar os mecanismos de fiscalização da plataforma.
Ao menos 35 links com esse propósito foram identificados pela reportagem em publicações no TikTok, e a maior parte deles redireciona os usuários ao Telegram.
Os valores começam em R$ 10 e são pagos via criptomoedas ou PIX. Pacotes com 3 GB custam R$ 10, enquanto outros com 15 GB são vendidos por R$ 35. A oferta de materiais semelhantes por muitos criminosos reduz os preços em uma disputa sem controle entre os próprios infratores, e antes de fechar uma venda.
O criminoso costuma oferecer amostras gratuitas — geralmente vídeos autodestruíveis, visualizados uma única vez — para ganhar a confiança do comprador e comprovar que possui o conteúdo divulgado.
Como funciona a negociação no Telegram
A transação pode acontecer de três maneiras distintas, e a primeira usa robôs configurados para automatizar a conversa com interessados, embora uma pessoa também possa intervir quando surge dúvida.
Outra opção é o contato direto entre o criminoso e o comprador, em conversa privada, sem intermediários automáticos. O terceiro método usa miniapps — ferramentas construídas com a linguagem JavaScript que permitem criar páginas semelhantes a sites dentro do Telegram, sem que o usuário precise sair do aplicativo.
Esse último modelo permite catálogos organizados e opções de pagamento integradas, facilitando a comercialização em escala.
O que a lei brasileira diz sobre o crime
Produzir, acessar ou divulgar conteúdo de abuso sexual infantil é crime no Brasil, e tanto quem publica quanto as plataformas onde o material circula podem ser responsabilizados. Desde agosto de 2026, uma nova lei prevê penas mais duras: quem produz ou vende esse material pode ser condenado a 4 a 10 anos de reclusão.
Além de multa; quem adquire, possui ou mantém o conteúdo pode receber de 3 a 6 anos de reclusão e multa.
A base legal está no artigo 227 da Constituição Federal, reforçada pelo ECA Digital, mas essas condutas já eram tipificadas no Estatuto da Criança. E do Adolescente desde 2008, quando penas mais severas passaram a vigorar para crimes de abuso sexual infantil.
Com a nova lei, o termo "pornografia" deixa de ser usado na legislação para se referir a esse tipo de material, que passa a ser tratado juridicamente como violência sexual contra criança ou adolescente, categoria que também passa a abranger conteúdos criados por inteligência artificial.
O Instituto Alana, organização dedicada à proteção dos direitos das crianças, reforça que tanto os responsáveis pelo conteúdo quanto as plataformas podem ser responsabilizados legalmente. O Telegram informou ao G1 que proíbe o compartilhamento desse tipo de material e afirmou ter excluído mais de 339.760 grupos e canais relacionados a ele em 2026.
O TikTok informou que remove essas postagens rapidamente e bane as contas envolvidas, utilizando tecnologia e sistemas de monitoramento para identificar conteúdo que explora menores de idade. A plataforma afirmou bloquear algumas buscas ao identificar frases relacionadas a esse tipo de crime, embora códigos diferentes continuem levando a publicações sem restrições.
Como denunciar
Quem identificar material desse tipo circulando online deve denunciá-lo imediatamente aos canais oficiais de combate a crimes contra crianças e adolescentes. A denúncia ajuda a interromper a cadeia de exploração e a proteger as vítimas.
As plataformas também enfrentam pressão regulatória: o fundador do Telegram foi preso na França por permitir o uso criminoso da plataforma na disseminação de pornografia infantil.


