Reflexão sobre alma

Camilo Castelo Branco: "As almas infelizes envelhecem cedo"

Camilo foi o primeiro escritor de língua portuguesa a conseguir viver exclusivamente com os ganhos em suas obras

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa em 16 de março de 1825 e se tornou um dos maiores romancistas da literatura portuguesa do século XIX.

Sua obra, que ultrapassa 260 títulos entre romances, novelas, contos, peças teatrais, poesia, crônicas, textos históricos e traduções, consolidou-o como figura central do ultrarromantismo português. A importância de Castelo Branco na literatura portuguesa, porém, não se resume à quantidade e à qualidade de suas criações.

Ele foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver unicamente dos ganhos de suas obras, transformando a escrita em uma atividade economicamente viável numa época em que ela era, para muitos, apenas um passatempo secundário. O reconhecimento veio em 1885, quando o rei D. Luís I o agraciou com o título de 1.º Visconde de Correia Botelho.

A orfandade que moldou o criador

A trajetória pessoal de Castelo Branco começou marcada por perdas precoces. Aos dois anos, perdeu a mãe; aos nove, ficou órfão de pai. Essas experiências marcariam sua vida e sua obra.

A orfandade o colocou cedo diante de uma realidade dura. Castelo Branco transformou essa experiência em tema recorrente de seus escritos, com personagens marcados pela dor, pelo abandono e pela busca de sentido em um mundo hostil.

O ultrarromantismo valorizava o sofrimento individual e o conflito interior. Castelo Branco transformou a própria experiência de perda em narrativas que refletiam a visão de mundo do movimento e tocavam seus leitores.

Sua versatilidade em múltiplas formas de expressão literária — do romance à crônica, da poesia à tradução — permitiu que explorasse o sofrimento humano sob diversos ângulos.

 

O escândalo que marcou vida e criação

Em 1860, Castelo Branco iniciou um relacionamento com Ana Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves. O caso provocou um dos maiores escândalos públicos de Portugal no século XIX. Os dois foram presos na Cadeia da Relação, no Porto, acusados de adultério, crime que sofria forte condenação social e legal na época.

Embora ambos tenham sido posteriormente absolvidos, a experiência deixou marcas profundas em sua vida pessoal e em sua produção literária. Após a absolvição, Castelo Branco e Ana Plácido casaram-se e ela permaneceu como sua companheira nos anos seguintes.

Durante esse período de turbulência e encarceramento, sua capacidade criativa não arrefeceu. Foi nessas circunstâncias que escreveu Amor de Perdição em apenas 15 dias, romance que se tornaria sua obra-prima e um de seus textos mais lembrados. O livro mostra como sua criação literária se manteve mesmo sob condições adversas.

O fim trágico de um homem atormentado

Os últimos anos de Castelo Branco foram marcados por sofrimento crescente. A sífilis o levou progressivamente à cegueira, enquanto a depressão profunda debilitava suas forças físicas e mentais.

Em 1º de junho de 1890, aos 65 anos, suicidou-se com um tiro em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão. Sua existência terminou de forma tão trágica quanto as histórias que havia criado.

Seu fim reflete, de forma amarga, a própria filosofia que permeia suas obras: a luta constante contra a infelicidade, o declínio inexorável e a impossibilidade de escape diante do sofrimento.

A sentença que se tornou sua marca — "as almas infelizes envelhecem cedo" — sintetiza não apenas a visão de mundo que atravessa sua criação literária, mas também a trajetória de um homem que viveu intensamente a condição humana em seus momentos mais vulneráveis e sombrios.

Natal

Calvin Coolidge: "O natal não é um período e nem uma estação, é um estado de espírito"

Coolidge passou de vereador a governador republicano com o passar dos anos

30/10/2026 10h59

Imagem: National Photo Company/Library of Congress

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Calvin Coolidge chegou à Casa Branca de um modo que poucos presidentes americanos experimentaram: de madrugada, em uma casa simples de Vermont, com o pai administrando o juramento sob a luz de uma lamparina.

Na madrugada de 3 de agosto de 1923, a morte de Warren Harding colocou Coolidge no comando do país. Vice-presidente, ele recebeu a notícia, e nascido em Plymouth, Vermont, em 4 de julho de 1872, filho de um comerciante local, Coolidge construiu uma trajetória lenta e metódica na política.

Formou-se no Amherst College, entrou na política em Massachusetts e passou de vereador a governador republicano, consolidando um perfil cada vez mais conservador.

Um presidente contra a intervenção do governo

À frente do país, Coolidge resistiu a usar o poder econômico federal para conter o crescimento acelerado da década ou amenizar as dificuldades da agricultura e de alguns setores industriais. Na mensagem enviada ao Congresso em dezembro de 1923, defendeu isolamento na política externa, corte de impostos, economia nos gastos públicos e ajuda limitada aos agricultores.

Essa postura ficou clara quando vetou projetos de socorro ao setor agrícola. Também barrou um plano federal para produzir energia elétrica barata no rio Tennessee.

 

A fórmula do silêncio que deu certo

Em 1924, já beneficiado pela chamada "prosperidade Coolidge", o republicano teve um desempenho expressivo nas urnas. No discurso de posse, declarou que os Estados Unidos haviam alcançado um estado raro de contentamento e prometeu manter as coisas como estavam, sem grandes rupturas.

Em 1926, o economista Walter Lippmann resumiu o que considerava o verdadeiro talento político do presidente: a capacidade de não fazer nada de forma ativa. Numa inércia que agradava ao humor do país e aos interesses empresariais que queriam ser deixados em paz.

Mesmo remoto e de poucas palavras, Coolidge se deixava fotografar com cocares indígenas e trajes de cowboy, recebendo toda espécie de delegação na Casa Branca.

O humor seco que virou marca registrada

A fama de homem de poucas palavras acompanhou Coolidge até os jantares oficiais. Sua esposa, Grace Goodhue Coolidge, contava que uma jovem sentada ao lado dele apostou que conseguiria arrancar pelo menos três frases em conversa — e ouviu, sem nem um olhar de resposta, um lacônico "você perde".

Foi com a mesma economia de palavras que encerrou a própria carreira política. Em 1928, enquanto descansava nas Black Hills de South Dakota, emitiu o mais famoso de seus comunicados lacônicos: "I do not choose to run for President in 1928".

Uma frase sobre o natal que atravessou décadas

Fora da arena política, Coolidge deixou uma reflexão sobre espírito e generosidade, distante do tom austero de suas decisões de governo: "O natal não é um período e nem uma estação, é um estado de espírito".

A frase contrasta com a imagem do presidente calculista e revela um lado íntimo de Coolidge, além de definir um sentimento ainda repetido hoje fora do contexto político.

Coolidge não viveu para ver os tempos mudarem. Morreu em janeiro de 1933, afastado da vida pública, e confessou a um velho amigo que sentia não mais se encaixar nos novos tempos que chegavam.

Tempo

Caio Fernando Abreu: "O tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa"

Escritor vai realizar uma exposição que trará seus gestos cotidianos e a voz que emerge dos textos inéditos, manuscritos e cartas

30/10/2026 10h27

Imagem: Alexandre Tokitaka/Dedoc

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A mostra "Caio Quintessencial — As múltiplas faces de Caio Fernando Abreu" foi aberta em 14 de outubro, às 18h30, na Galeria Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre, reunindo registros fotográficos de momentos íntimos ao lado de manuscritos e cartas que nunca haviam sido divulgados.

Quem quiser visitar não paga nada, podendo ir diariamente, entre 10h e 20h, até o dia 2 de novembro. As fotografias assinadas por Dulce Helfer trazem flagrantes do escritor gaúcho em sua rotina, distante da imagem pública construída em torno de sua obra. O acervo inédito reúne ainda um mapa astral elaborado pelo próprio Caio e cartas que ele trocou com o amigo Luciano Alabarse.

Um retrato em duas camadas

O jornalista Salus Loch assina a curadoria, que reúne acervos de Amanda Costa e Juarez Fonseca, além de trechos publicados em jornais e revistas na época. A ideia é colocar lado a lado o homem fotografado em gestos simples e o escritor das páginas ainda guardadas.

Uma frase amplamente atribuída a Caio Fernando Abreu sintetiza essa busca: o tempo tem uma forma maravilhosa de mostrar o que realmente importa. Com o tempo, as urgências superficiais e as ansiedades perdem força, enquanto os afetos verdadeiros, as conexões genuínas e as prioridades que dão sentido à vida ganham nitidez. A exposição procura fazer esse mesmo filtro da realidade.

 

Cinco espaços, uma só jornada

A exposição na Galeria Multipalco Eva Sopher encerra a "Jornada Caio Quintessencial", projeto assinado por Amanda Costa e Flávia Cunha que passou por cinco endereços culturais de Porto Alegre em 2026.

A jornada passou pelo Instituto Estadual do Livro, pela Casa da Memória Unimed Federação, pelo Memorial do Ministério Público, pelo Goethe-Institut Porto Alegre e pela Cinemateca Capitólio.

Em cada um desses pontos, uma camada diferente do autor de "Morangos Mofados" e "Onde Andará Dulce Veiga?" ganhou destaque, do escritor inquieto com as questões de seu tempo ao homem por trás dos textos.

Livro fecha a programação

A Feira do Livro de Porto Alegre recebe, em 31 de outubro, o lançamento de uma publicação sobre a trajetória da jornada dedicada ao escritor. Amanda Costa, doutora em literatura, e Flávia Cunha, jornalista e mestra em literatura, organizam a obra e também respondem pelo projeto expositivo.

A realização é da Casa da Memória Unimed Federação/RS, que conta com o apoio de diversas instituições: Unimed Porto Alegre, Sescoop/RS, Unicoopmed, Fundação Theatro São Pedro, a secretaria estadual de Cultura, o Instituto Estadual do Livro e a Associação de Amigos Lígia Averbuck.

Localizada na Rua Riachuelo, 1.089, no Centro Histórico de Porto Alegre, a mostra pode ser conhecida gratuitamente por quem tiver interesse nesse olhar particular sobre o escritor.

Como a curadoria constrói a proximidade com o leitor

A exposição aproxima duas representações do mesmo autor: a imagem de seus gestos cotidianos, registrada nas fotografias de Dulce Helfer, e a voz que emerge dos textos inéditos, manuscritos e cartas.

O visitante pode ver Caio em situações como comer, descansar e simplesmente existir, enquanto acessa pensamentos que ele guardou para si ou compartilhou apenas com amigos próximos, como Luciano Alabarse.

Segundo o curador Salus Loch, essa estratégia busca revelar "o que permanece essencial" na trajetória do autor. O mapa astral feito por Caio e as correspondências inéditas mostram aspectos pessoais que nunca passaram pelo crivo da publicação. Juntos, esses materiais criam uma sensação de intimidade que as fotos isoladas ou os textos publicados não alcançariam sozinhos.

Por que cinco espaços antes da exposição final

A "Jornada Caio Quintessencial" percorreu cinco instituições culturais de Porto Alegre ao longo de 2026 antes de chegar à Galeria Multipalco Eva Sopher. Passou pelo Instituto Estadual do Livro, pela Casa da Memória Unimed Federação, pelo Memorial do Ministério Público, pelo Goethe-Institut Porto Alegre e pela Cinemateca Capitólio.

Cada espaço abordou uma faceta do autor, do escritor engajado nas questões de seu tempo ao homem por trás dos textos.

A exposição aberta em outubro sintetiza essa jornada e reúne o que foi explorado nos cinco espaços anteriores. Por isso, a mostra se chama "As múltiplas faces": ela resulta de um projeto maior, em que cada endereço destacou uma camada da vida e da obra de Caio Fernando Abreu.

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