No fundo do oceano, uma neve constante cai sem parar — mas não se parece em nada com a que cobre montanhas. Ela é feita de muco, restos de plâncton, fezes de pequenos organismos e partículas de sedimento que se juntam e afundam lentamente das camadas iluminadas da superfície até as profundezas escuras.
Pesquisadores da Scripps Institution of Oceanography, ligada à UC San Diego, e da University of Lincoln identificaram um fator até então ignorado nesse processo: a viscosidade das partículas, chamadas de neve marinha, determina quanto carbono chega ao fundo do mar.
As partículas mais grudentas e densas afundam mais e carregam mais de seis vezes a quantidade de carbono transportada pelas menos viscosas. A descoberta ajuda a explicar um enigma que intrigava cientistas havia anos.
O mistério do carbono que desaparece no caminho
A neve marinha transporta, todos os anos, mais de dez gigatoneladas de carbono para o oceano. O problema é que apenas uma fração mínima desse total consegue permanecer isolada da atmosfera por séculos ou milênios nas camadas profundas.
Apenas cerca de dois gigatons chegam a profundidades onde podem permanecer isoladas da atmosfera por centenas ou milhares de anos, o resto se decompõe e libera o carbono de volta à água antes de alcançar o fundo do mar. Bactérias eram apontadas como as principais responsáveis por essa quebra, mas ninguém havia observado como esses microrganismos interagem com cada partícula.
Quatro anos até o avanço técnico
O pesquisador de pós-doutorado Bryce Inman, da Scripps, começou a tentar visualizar essa estrutura microscópica em 2021. Durante anos, ele e os colegas fizeram tentativas frustradas até desenvolver uma técnica eficaz, finalizada em 2025.
A equipe passou a usar microscopia confocal em três dimensões combinada com moléculas fluorescentes especiais, que brilham com mais intensidade em ambientes viscosos. Essa combinação permitiu mapear o relevo físico de cada aglomerado de neve marinha e enxergar por onde as bactérias conseguiam se mover — e onde elas encontravam barreiras.
Uma estrutura mais complexa do que se imaginava
A neve marinha não é uniforme, e dentro de uma mesma partícula, existem regiões espessas e viscosas ao lado de áreas mais finas e fáceis de penetrar.
As bactérias conseguem se fixar nas porções externas, menos viscosas, mas enfrentam resistência para atingir o núcleo mais denso sem antes quebrá-lo. Inman compara o fenômeno a uma fruta: a polpa cede à mordida, mas o caroço resiste.
Por que partículas densas afundam mais longe
Essa resistência interna torna as partículas de alta viscosidade mais difíceis de degradar. Elas se desfazem mais lentamente e, por continuarem íntegras por mais tempo, afundam a profundidades maiores antes de liberar o carbono armazenado.
Simulações computacionais confirmaram essa tendência: quanto mais viscosa a partícula, mais fundo ela tende a chegar antes de se decompor. Experimentos em laboratório também mostraram que bactérias levam mais tempo para fragmentar a neve marinha mais densa.
A técnica de visualização desenvolvida pela equipe marca a primeira vez que cientistas observam bactérias vivas interagindo com a estrutura física de muco em escala celular. O método abre caminho para pesquisas bem além da oceanografia, já que muco está presente em ecossistemas diversos — recifes de coral, florestas de alga, sistemas radiculares de plantas terrestres.
E revestimento do trato digestivo humano — e a relação do muco com as bactérias é fundamental para a saúde desses ambientes e organismos.


