Reflexão e Filosofia

"Existem amigos para certas fases": a reflexão de Laura Ferrero sobre amizade

A ideia convida a olhar para os vínculos afetivos com mais compreensão.

A amizade muda ao longo da vida. Algumas pessoas chegam em momentos específicos, compartilham experiências importantes e depois seguem caminhos diferentes. Outras desaparecem por anos, mas conseguem retomar o vínculo como se o tempo não tivesse passado. Há ainda aquelas que permanecem ao nosso lado, independentemente das mudanças que a vida traz.

Essa é a reflexão da escritora espanhola Laura Ferrero sobre os diferentes tipos de amizade. Em um artigo publicado na revista ELLE, a autora recupera uma analogia que ouviu durante uma conferência e que ajuda a compreender como os relacionamentos acompanham nossas transformações: "Existem amigos para certas fases, amigos intermitentes e amigos que ficam para sempre".

A ideia convida a olhar para os vínculos afetivos com mais compreensão. Nem toda amizade precisa durar a vida inteira para ter sido importante, assim como a distância nem sempre significa que uma relação perdeu seu valor.

Os três tipos de amizade que encontramos ao longo da vida

A reflexão de Ferrero divide as amizades em três categorias, cada uma com uma maneira particular de existir e acompanhar nossa trajetória.

1. Amigos de uma fase da vida

São as pessoas que conhecemos em circunstâncias específicas, como na escola, na universidade, no trabalho ou durante uma temporada em outra cidade. A convivência frequente e as experiências compartilhadas podem criar laços intensos, que fazem parte de uma etapa importante da nossa história.

Com o tempo, porém, mudanças de rotina, distância e novos compromissos podem reduzir o contato. A amizade talvez não continue com a mesma intensidade, mas isso não apaga o que foi vivido.

Esses vínculos mostram que algumas pessoas cumprem um papel significativo em determinado momento, mesmo que não permaneçam presentes em todas as fases seguintes.

2. Amigos intermitentes

Os amigos intermitentes são aqueles com quem o contato pode desaparecer por meses ou anos, sem que o afeto necessariamente se perca. A vida segue, os compromissos mudam e cada pessoa constrói sua própria trajetória, mas um reencontro pode recuperar a proximidade quase imediatamente.

Nesses casos, a amizade não depende de conversas diárias ou de uma presença constante. Existe uma história compartilhada que permite retomar o vínculo sem a necessidade de reconstruir tudo desde o início.

É uma relação que demonstra como a frequência do contato nem sempre determina a profundidade de um afeto. Algumas conexões conseguem resistir ao silêncio e à passagem do tempo.

3. Amigos que permanecem para sempre

Há também as amizades que atravessam diferentes versões de nós mesmos. São pessoas que conhecem nosso passado, acompanham nossas mudanças e permanecem presentes tanto nas conquistas quanto nos períodos difíceis.

Esses amigos oferecem um tipo particular de intimidade: podemos estar diante deles sem precisar sustentar uma imagem perfeita ou esconder todas as nossas fragilidades. A relação se transforma com o tempo, mas preserva uma base de confiança e reconhecimento mútuo.

Isso não significa que uma amizade duradoura nunca enfrente conflitos ou afastamentos. Significa que existe uma disposição para cuidar do vínculo e encontrar maneiras de mantê-lo vivo.

Montaigne e a amizade que vai além dos interesses

Para aprofundar a reflexão, Laura Ferrero retoma o ensaio Sobre a Amizade, do filósofo francês Michel de Montaigne. Na obra, ele escreve sobre sua relação com Étienne de La Boétie, uma amizade que se tornou uma das mais conhecidas da história da filosofia.

Ao tentar explicar a natureza desse vínculo, Montaigne formulou uma frase célebre: "Se me perguntarem por que eu o amava, sinto que isso só pode ser expresso respondendo: porque era ele; porque era eu".

A reflexão aponta para uma amizade que não se explica apenas pela conveniência, pelos interesses em comum ou pelas vantagens que uma pessoa pode oferecer à outra. Trata-se de um reconhecimento singular, construído entre duas pessoas cuja ligação não cabe facilmente em uma lista de motivos.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que alguns amigos ocupam um lugar tão particular em nossa história. Mais do que compartilhar atividades ou circunstâncias, eles passam a fazer parte da maneira como entendemos a nós mesmos e o mundo.

Por que algumas amizades terminam enquanto outras resistem?

A passagem do tempo modifica prioridades, rotinas e formas de convivência. Uma mudança de cidade, um novo emprego ou a formação de uma família pode alterar a frequência dos encontros e transformar a dinâmica de uma relação.

Por isso, o fim de uma amizade ou o distanciamento não precisa ser interpretado automaticamente como fracasso. Algumas conexões estão profundamente ligadas às experiências que as fizeram nascer; outras encontram maneiras de se adaptar às mudanças.

A reflexão de Ferrero oferece, assim, uma forma mais generosa de compreender os vínculos afetivos. Em vez de medir todas as amizades pela duração ou pela frequência do contato, podemos reconhecer o significado que cada uma teve em nossa trajetória.

Algumas pessoas nos acompanham durante uma fase. Outras voltam quando menos esperamos. E há aquelas que permanecem ao nosso lado enquanto a vida muda. Cada uma, à sua maneira, pode deixar marcas que continuam conosco mesmo quando os caminhos se separam.

Reflexão

José de Alencar: "O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte"

A frase circulava nas páginas do jornal carioca Correio Mercantil.

21/10/2026 17h51

José de Alencar

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Antes de se consolidar como o "pai do romance brasileiro", José de Alencar já escrevia sobre o amor. Foi nesse período de transição que surgiu uma de suas frases mais memoráveis: "O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte".

A frase circulava nas páginas do jornal carioca Correio Mercantil, onde Alencar assinava a coluna semanal de folhetins "Ao correr da pena". Escrita em meados dos anos 1850, quando ele ainda se dedicava ao jornalismo e à crítica literária, a reflexão revela uma sensibilidade que depois marcaria seus romances.

A frase não pertence a nenhuma de suas obras de ficção conhecidas, como Senhora ou Iracema. Ela aparece num espaço de escrita mais ágil e opinativa, no qual o futuro romancista afiava observações que depois ganhariam corpo em narrativas mais longas.

O que a frase quer dizer

Para Alencar, o afeto só se sustenta quando existe a possibilidade de retorno ou de um futuro compartilhado. Sem essa esperança, resta o desgaste silencioso, a consumição interior de quem ama sem saída visível.

A palavra "morte", nesse contexto, não designa o fim literal da vida, mas sim o esgotamento da alma, o encerramento de uma ilusão ou a renúncia profunda de quem compreende que aquele amor jamais se realizará.

A ideia revela um escritor atento tanto aos grandes temas da nacionalidade quanto às dores pessoais e miúdas daqueles que amam sem garantia de retorno. Essa sensibilidade diante do sofrimento amoroso dialoga com o projeto literário mais amplo de Alencar: a consolidação de uma cultura genuinamente brasileira, visível em obras como Iracema.

Do folhetim ao romance: a formação de um estilo

Antes de ser celebrado como romancista, Alencar construiu seu nome debatendo literatura e comentando os costumes da sociedade carioca nas páginas de jornal. Essa produção semanal e fragmentada, característica do folhetim, ajudava a refinar o olhar crítico que depois apareceria em textos de ficção mais extensos. A experiência jornalística moldou o estilo direto e observador que marcaria sua obra futura.

O apoio que recebeu de figuras importantes da época foi determinante. Mais adiante, Alencar desempenharia papel semelhante ao jovem Machado de Assis, incentivando seus primeiros passos na literatura. Machado, por sua vez, nutria admiração pelo romancista cearense, reconhecendo nele uma referência central da ficção nacional do século XIX.

Um legado entre gerações

A proximidade entre Alencar e Machado ajuda a explicar por que os dois nomes costumam ser lembrados lado a lado na formação da literatura brasileira, embora representem estilos distintos: o romantismo nacionalista de um e o realismo crítico que o outro desenvolveria mais tarde.

A frase sobre amor e esperança, originária de um folhetim esquecido, segue circulando fora de seu contexto original. Ela carrega a marca de um escritor que enxergava a literatura como ferramenta para consolidar a identidade do Brasil.

Se a morte aqui é metáfora, por que Alencar escolheu usar essa palavra tão dramática?

Porque, para Alencar, o esgotamento da alma causado por um amor sem esperança era tão grave quanto a morte literal. Não se trata apenas de dramatização romântica: a palavra "morte" expressa a ideia de que, quando alguém ama sem nenhuma possibilidade de retorno, algo essencial deixa de funcionar.

A pessoa perde a capacidade de sonhar, de ter futuro e de estar viva no sentido que importava para os românticos: o sentido emocional e espiritual. Usar "morte", em vez de "tristeza" ou "sofrimento", deixa clara a radicalidade dessa perda: não é apenas um sentimento ruim, mas o fim de tudo o que dava sentido à vida de quem ama.

Reflexão e Filosofia

Para Schopenhauer, o maior talento humano é ficar sozinho sem se sentir sozinho

Filósofo propõe o isolamento intencional como espaço de autoconhecimento.

21/10/2026 17h23

Foto: Mushtaq Hussain/Pexels

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Para o filósofo Arthur Schopenhauer, aprender a estar sozinho sem se sentir sozinho era o maior talento que um ser humano podia desenvolver. Essa capacidade de encontrar paz na própria companhia funciona como antídoto contra as distrações superficiais que alimentam a ansiedade e a frustração no cotidiano moderno.

Em um mundo saturado de ruído digital, a filosofia de Schopenhauer propõe o isolamento intencional como espaço de autoconhecimento. Ao silenciar as pressões externas e o bombardeio constante de estímulos, a pessoa abre espaço para ouvir a própria voz interior e compreender as complexidades que regem a existência.

O valor do distanciamento intencional

Ao se afastar do caos social, a mente humana encontra uma condição essencial para a própria saúde. Desligar-se das redes sociais, ainda que temporariamente, permite recuperar clareza mental e organizar os pensamentos mais profundos. Esse afastamento transforma a solidão, antes dolorosa, em um refúgio valioso.

Estar bem consigo mesmo, segundo a filosofia de Schopenhauer, é uma arte rara no mundo contemporâneo. O tempo dedicado à própria companhia funciona como catalisador da evolução pessoal, reduz a pressão social diária e cria oportunidades genuínas de conexão interna. Alcançar essa tranquilidade interior requer prática, mas traz benefícios.

Como o corpo nos conecta com a realidade

Para Schopenhauer, o corpo não é apenas matéria, mas o principal instrumento para decifrar a existência. Os sentidos captam os fenômenos cotidianos e traduzem os mistérios do universo, oferecendo uma porta de entrada para compreender a força motriz por trás das ações humanas.

A experiência sensorial nos protege de ficar presos em teorias puramente abstratas. Valorizar a experiência física significa reconhecer como os desejos nascem no corpo e como podemos encontrar caminhos mais pacíficos para lidar com o sofrimento. Essa visão muda nossa relação com o presente e nos conecta ao que é real, não ao que imaginamos ser real.

Transformar a solidão em crescimento

A filosofia de Schopenhauer sustenta que uma força maior governa a realidade: uma energia cósmica que move as ações e gera os desejos que moldam a condição humana. O filósofo desenvolveu essa ideia em sua obra-prima, considerada fundamental para compreender seu pensamento sobre a natureza da existência.

Reconhecer essa dinâmica oculta nos ajuda a enxergar o mundo com mais clareza e a entender por que a busca incessante por satisfação externa frequentemente resulta em frustração. Compreender esse mecanismo nos convida a valorizar o silêncio e a tranquilidade como ferramentas legítimas para buscar o equilíbrio interno.

A solidão ativa, praticada com intenção, estimula o autoconhecimento profundo e desfaz as ilusões criadas pelas expectativas exageradas do cotidiano. Nesses momentos, a solidão deixa de ser um fardo e se torna um espaço de verdadeira conexão com a realidade presente, a expressão mais genuína do talento humano para o filósofo.

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