Reflexão

Franz Kafka: "É pela própria estupidez que algumas pessoas têm tanta certeza de si mesmas"

O paradoxo identificado por Kafka persiste.

A convicção excessiva alimenta-se da ignorância, segundo Franz Kafka, escritor que deixou reflexões incisivas sobre a natureza humana e suas contradições: "É só por causa da estupidez deles que eles conseguem ter tanta certeza de si mesmos". A frase, presente, em sua obra O Processo (1925), ecoa nos dias atuais, quando a facilidade de expressar opiniões não é acompanhada pela disposição de questioná-las.

O paradoxo identificado por Kafka persiste: muitos defendem suas convicções sem antes verificá-las. Em vez de buscar a verdade, procuram apenas confirmá-la, mesmo quando evidências sólidas apontam em outra direção. Explorar uma ideia com honestidade intelectual é diferente de blindá-la contra a crítica. É nessa recusa ao questionamento que a estupidez floresce.

Validação em vez de contraste

Essa falsa certeza nasce da rejeição sistemática da verdade. Não é simples desconhecimento: é a escolha de ignorar dados e fatos que contradizem a perspectiva já abraçada. A incompatibilidade entre opinião e realidade enfraquece a própria opinião, mas raramente convence quem se recusa a enxergar.

Essa teimosia acompanha a humanidade desde tempos remotos e persiste na era da informação. O acesso aos dados se tornou abundante, mas a disposição para compreendê-los parece ter diminuído. Ter recursos para verificar e ainda assim escolher validar sem verificar revela a diferença entre uma mente curiosa e uma mente fechada.

A realidade como caminho para compreensão

A realidade se mostra, sem disfarces, em diferentes ocasiões e contextos. Aceitá-la, mesmo quando é desfavorável, permite compreendê-la com mais honestidade e reconhecer seus efeitos sobre a vida. Essa disposição para entender abre espaço para mudanças efetivas, ao contrário da postura de quem prefere blindar suas convicções contra qualquer questionamento.

A honestidade intelectual, portanto, não é apenas uma virtude isolada — é o caminho que diferencia quem cresce de quem simplesmente envelhece prisioneiro de suas próprias crenças.

Reflexão

A reflexão de Woody Allen: "Aposentadoria é para pessoas que passaram a vida fazendo o que odiavam"

A afirmação contrapõe duas formas de viver o trabalho.

22/10/2026 13h00

Foto: Reprodução

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Aos 90 anos, Woody Allen não vê a aposentadoria como uma fuga necessária, mas como o destino de quem desprezou a profissão durante décadas. Em entrevista à revista La Vanguardia, publicada em abril de 2018, o diretor, roteirista, escritor e músico expôs sua visão pessoal sobre trabalho e descanso.

Na ocasião, Allen disse que gostaria de chegar aos 90 anos fazendo um filme por ano por muitos anos ainda. Para ele, o verdadeiro prêmio não estava no resultado final, mas no processo criativo, que o mantinha motivado havia décadas.

Duas visões distintas do trabalho

A afirmação de Allen contrapõe duas formas de viver o trabalho. Quem vê o trabalho como uma obrigação a suportar pode experimentar a aposentadoria como libertação: a chance de recuperar tempo e dedicação para interesses que ficaram suspensos.

Quando uma profissão desperta interesse genuíno e satisfação pessoal, porém, deixar de trabalhar perde o apelo. Continuar ativo se torna uma escolha ligada ao desejo de criar, aprender e manter viva uma atividade que define quem se é. Essa diferença determina como cada pessoa vive o cotidiano profissional ao longo de décadas.

O privilégio de escolher e as realidades díspares

A reflexão do cineasta lembra que nem todos conseguem escolher uma profissão apaixonante. Necessidades econômicas, oportunidades limitadas e responsabilidades familiares condicionam as decisões profissionais desde o início. Por isso, sua afirmação pode inspirar quem tem a sorte de amar o próprio trabalho, mas não retrata todas as experiências de vida.

Aposentar-se também pode ser uma escolha desejada por quem adora sua profissão e prefere dedicar mais tempo a outras áreas da vida; isso não significa frustração com o que fez. Allen tem mais de 50 filmes na filmografia e trabalha em um novo longa-metragem, o 51º de sua carreira, que está sendo rodado em Madrid.

Sua trajetória, com o cinema, a escrita e a música ainda centrais em sua vida, reflete sua disposição de continuar ativo na carreira.

Ciência

Enquanto um dia quente na Terra é de 17,15 °C, termômetros em Vênus registraram 457°C

Planetas têm aproximadamente o mesmo tamanho.

22/10/2026 12h29

Foto: Zelch Csaba/Pexels

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A sonda soviética Venera 13 pousou em Vênus em 1º de março de 1982 com uma tarefa praticamente impossível: sobreviver em um planeta onde a temperatura chega a 457°C e a pressão é 89 vezes maior que a da Terra. Ninguém esperava que o equipamento funcionasse por mais de 30 minutos, tempo que os engenheiros consideravam generoso demais.

Mesmo assim, a Venera 13 transmitiu dados por 127 minutos, um feito que continua sem ser superado. Durante esse período, a sonda capturou as primeiras imagens coloridas da superfície venusiana e coletou material do solo para análise química. Os dados ajudaram a moldar a compreensão do planeta por décadas.

Para se ter uma ideia, um dia extremamente quente em escala terrestre pode registrar uma temperatura média próxima de 17,15 °C. Esse foi o valor alcançado em 22 de julho de 2024, quando o Planeta Terra bateu o recorde histórico de temperatura média diária, superando as marcas registradas em julho de 2023.

Um ambiente extremo

Vênus tem aproximadamente o tamanho da Terra, mas sua superfície é um inferno geológico. As temperaturas atingem cerca de 465°C — quente o suficiente para derreter chumbo. No ponto onde a Venera 13 pousou, os instrumentos registraram 457°C com pressão equivalente a 89 vezes o nível do mar terrestre, segundo o Guinness World Records.

Uma pressão assim esmagaria uma sonda desprotegida em segundos, e composta principalmente de dióxido de carbono, a atmosfera densa de Vênus retém calor continuamente. O resultado é uma superfície abrasadora tanto de dia quanto à noite.

A Venera 13 foi projetada como um navio de mergulho profundo, não como um lander convencional — a única estratégia viável para resistir por mais tempo.

A engenharia que venceu o tempo

A sonda foi lançada em 30 de outubro de 1981 do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, a bordo de um foguete Proton. Após quatro meses de viagem, a Venera 13 desceu pelo céu venusiano com um paraquedas. A partir do pouso, tinha poucos minutos antes que o ambiente destruísse seus circuitos.

O projeto reforçado, que incluía blocos de nitrato de lítio para resistir ao calor, manteve a transmissão funcionando muito além do programado.

Quando sucumbiu às condições, a Venera 13 havia quebrado o recorde anterior de 110 minutos, da Venera 12, em 1978. Sua gêmea Venera 14, que operou por 57 minutos, ficou bem atrás, e nenhuma sonda pousou com sucesso em Vênus desde então.

Visão colorida de um mundo desconhecido

Durante sua breve permanência, a Venera 13 retornou 14 fotografias coloridas e oito em preto e branco que revelaram as planícies típicas de Vênus. Uma das imagens mais icônicas mostra parte da própria sonda no canto inferior direito do quadro, um autorretrato acidental que se tornou símbolo da missão.

A câmera criou o primeiro panorama colorido da superfície venusiana. Enquanto fotografava, a sonda também gravou os primeiros sons captados de outro planeta e mediu a composição química da atmosfera. Esses registros permaneceriam inestimáveis para a ciência planetária nos anos seguintes.

O que o solo revelou sobre o planeta

Um braço perfurador acoplado à Venera 13 coletou material solto chamado regolito e o transferiu para uma câmara selada mantida a cerca de 30°C e com pressão extremamente baixa. Esse isolamento protegeu um espectrômetro de fluorescência de raios X das condições destrutivas do exterior e permitiu analisar a composição química em relativa segurança.

Os resultados mostraram material compactado similar a cinzas vulcânicas — achado que confirmou a hipótese de um Vênus geológicamente ativo.

Décadas depois, dados de radar de satélites da agência espacial americana revelaram sinais de um grande tubo de lava sob a superfície, dando novo peso à descoberta feita por um equipamento que operou por pouco mais de duas horas em 1982.

Como a Venera 13 colheu amostra de solo em Vênus

  • Um braço perfurador acoplado à sonda foi estendido para alcançar o regolito (material solto da superfície)
  • O braço coletou uma pequena quantidade de solo usando um mecanismo tipo broca
  • A amostra foi transferida para uma câmara selada mantida a cerca de 30°C
  • A câmara foi isolada para manter pressão extremamente baixa, protegendo os instrumentos internos
  • Um espectrômetro de fluorescência de raios X analisou a composição química do material protegido

Por que Vênus exige desenho de "navio de mergulho" em vez de lander convencional

As sondas enviadas para a Lua e Marte eram landers convencionais porque esses corpos celestes têm ambientes relativamente benignos. Vênus, porém, apresenta uma combinação letal: temperatura capaz de derreter chumbo, pressão que esmagaria uma estrutura comum em segundos, e atmosfera densa de dióxido de carbono que funciona como uma panela de pressão cósmica.

Diante dessa realidade, engenheiros soviéticos reconheceram que apenas um design radicalmente reforçado — similar aos equipamentos usados para mergulho profundo nos oceanos terrestres — teria qualquer chance de coletar dados na superfície antes de sucumbir.

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