O El Niño, aquecimento anormal do Oceano Pacífico, deve aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos e a inflação brasileira em 2027, independentemente de decisões políticas, segundo projeção divulgada pelo Banco Central na última quinta-feira (24/9).
A expectativa de inflação para 2027 subiu de 4,10% para 4,30%, acima da meta perseguida pelo Banco Central. A revisão incorpora efeitos que já aparecem gradualmente no indicador de preços dos alimentos consumidos pelas famílias, medido pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística.
Como o clima aquece os preços agrícolas
O fenômeno ocorre quando as águas do Oceano Pacífico próximas à América do Sul apresentam aquecimento incomum, alterando ventos e padrões de chuva. No Brasil, essa mudança costuma trazer mais precipitação ao Sul, enquanto provoca estiagem prolongada no Norte e Nordeste, com temperaturas acima do habitual em diversas regiões.
Culturas como soja, milho, arroz, algodão, café e cana-de-açúcar estão entre as mais vulneráveis ao fenômeno, segundo o Banco Central. O milho tende a sofrer mais, principalmente na segunda safra do ano, enquanto a soja costuma ser menos afetada.
O Banco Central, porém, alerta que é difícil calcular com precisão os impactos sobre a produtividade agrícola. Por isso, os números para 2027 devem ser lidos como sinais de risco, não como prognósticos fechados sobre o desempenho das lavouras, já que outras variáveis também influenciam essas oscilações.
Impacto direto na mesa e no bolso
Os alimentos in natura podem sofrer pressão de preços ainda neste ano, antes do pico dos efeitos esperados na safra de 2027. O Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Política Econômica, aponta essa vulnerabilidade no Boletim Macrofiscal e revisou para cima sua projeção de inflação, de 3,6% para 3,8%.
O impacto se espalha pela cadeia: quando o clima prejudica os grãos, sobe o custo da ração, e essa alta chega aos preços das carnes. A alimentação tem peso elevado no cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação no país.
A pressão sobre os alimentos pode dificultar o trabalho do Comitê de Política Monetária e adiar cortes na taxa básica de juros, atualmente em 13,75% ao ano. Quando a inflação sobe, o Comitê precisa manter o aperto monetário por mais tempo, o que restringe o crédito por um período prolongado.
O fenômeno se repete a cada 2 a 7 anos e dura vários meses seguidos. Além de afetar a agricultura, também interfere na geração de energia e no abastecimento de água.
A probabilidade de a inflação de 2027 superar o teto da meta subiu de 28% para 33%, reforçando o risco de cenários fora do controle dos formuladores de política econômica.


