Curiosidades da Natureza

O canto de duas aves é tão poderoso que uma britadeira parece silenciosa perto delas

Volume que só encontra paralelo em sons industriais do cotidiano,

<p>Duas espécies de aves ocupam agora posição privilegiada entre as criaturas mais barulhentas do planeta. O araponga-de-garganta-nua e a seriema-de-pernas-vermelhas produzem vocalizações que ultrapassam 120 decibéis — um volume que só encontra paralelo em sons industriais do cotidiano. A descoberta saiu publicada na edição de terça-feira do periódico Evolution, resultado de investigação conduzida por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst.</p>

<p>O som que essas aves emitem aproxima-se, em intensidade, do ruído de uma britadeira em funcionamento, permitindo uma comparação imediata com máquinas pesadas.</p><p><iframe src="https://www.youtube.com/embed/HHBi6HWHhdE" width="560" height="315" frameborder="0" loading="lazy" allowfullscreen="" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture"></iframe></p>

<h2>Como foi feita a medição</h2>

<p>O biólogo evolucionista João CT Menezes, coautor do trabalho, realizou a pesquisa durante seu doutorado sob orientação do professor Jeff Podos. Ambos mediram as vocalizações de 123 espécies de aves espalhadas entre Massachusetts e Brasil, num período que se estendeu de dezembro de 2018 até janeiro de 2025.</p>

<p>O araponga-de-garganta-nua atinge 122,4 decibéis a 1 metro, com pressão sonora 800 vezes superior ao beija-flor-de-garganta-escura, a ave mais silenciosa documentada. Entre as 123 espécies analisadas, 113 tiveram suas vocalizações gravadas pela primeira vez.</p>

<h2>Qual ave merece o título de mais barulhenta</h2>

<p>A resposta depende inteiramente de como se define barulho, e o araponga-de-garganta-nua alcançou o chamado mais intenso entre aves individuais — quase 131 decibéis. Já a seriema-de-pernas-vermelhas liderou quando considerada a média dos sons mais altos produzidos por grupos de aves, atingindo aproximadamente 121 decibéis.</p>

<p>Antes dessa descoberta, o araponga-branco mantinha o recorde oficialmente reconhecido pelo Guinness World Records desde 2019, com gritos medidos em até 125 decibéis. Como parente próximo dessa espécie, o araponga-de-garganta-nua já era considerado pelos pesquisadores como candidato provável a figurar nesse ranking de ruído extremo.</p>

<p>Catherine Sheard, bióloga de Aberdeen, ressalta que essa indefinição reflete o desafio de estabelecer um critério único para medir intensidade sonora em ambientes naturais.</p>

<h2>Desafios na captura de sons em campo</h2>

<p>Registrar vocalizações de aves selvagens apresenta obstáculos práticos consideráveis. Pesquisadores precisam conhecer a exata distância da ave quando ela emite o canto, pois essa variável afeta diretamente como o som se propaga. Frequentemente, quando o observador consegue avistar a ave, ela interrompe o comportamento vocal por timidez ou simplesmente alça voo para longe.</p>

<p>Para contornar essas limitações, a equipe utilizou telêmetros a laser — instrumentos também usados em campos de golfe — e conseguiu compilar um acervo inédito de gravações. Aves maiores demonstraram geral tendência a produzir cantos com maior amplitude sonora, padrão que se revelou consistente ao longo das observações realizadas em ambientes naturais.</p>

Filosofia

"Ser capaz de estar consigo mesmo": a reflexão de Schopenhauer sobre a solidão

Filósofo reformula o conceito de solidão em sua obra.

12/10/2026 12h05

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Arthur Schopenhauer, filósofo do século XIX nascido em 1788 e falecido em 1860, reformula o conceito de solidão em sua obra Parerga e Paralipómena. Para ele, estar sozinho não significa simplesmente carecer de companhia física — é, na verdade, a capacidade de conviver consigo mesmo sem precisar constantemente da aprovação e da presença dos outros.

Essa reflexão ganha nova força no século XXI, marcado pela busca incessante de conexão e validação externa. Schopenhauer coloca a autonomia pessoal no centro de sua filosofia e sugere que o bem-estar não vem da interação social permanente, mas da paz interior conquistada com a independência mental.

A diferença entre isolamento e solidão autêntica

A proposta de Schopenhauer vai além da ausência de pessoas ao redor. A solidão que ele valoriza é uma escolha consciente: estar confortável consigo mesmo, sem depender da distração ou da validação alheia. Muitos confundem essa autonomia com o isolamento patológico, embora os dois representem caminhos opostos.

O isolamento involuntário causa sofrimento, e já a solidão descrita por Schopenhauer é um estado de liberdade interior. Quem desenvolve essa autonomia não rejeita a convivência, mas também não a considera condição para sua paz. Essa distinção explica por que o filósofo considerava essa habilidade um privilégio raro e valioso.

Autonomia pessoal como fundamento da felicidade

Durante a maior parte da vida, Schopenhauer viveu relativamente isolado da sociedade convencional. Tinha poucos amigos, mantinha uma relação distante com a família e buscava pouco reconhecimento público. Essa experiência pessoal não resultava de amargura, mas de uma escolha deliberada baseada em sua filosofia. Ele preferia se relacionar apenas com seus cães e evitava as trivialidades das conversas ordinárias.

Ele acreditava que a dependência constante dos outros nos torna escravos de suas opiniões e expectativas.

A autonomia pessoal, nessa perspectiva, liberta, e sem depender da validação externa, a pessoa pode agir conforme seus próprios critérios, pensar com independência e tomar decisões sem o peso das pressões sociais. Schopenhauer entendia que essa independência é rara justamente porque exige autoconhecimento profundo e coragem para estar em desacordo com o mundo quando necessário.

O legado filosófico em contexto contemporâneo

Em uma época de redes sociais, marcada pela necessidade compulsiva de compartilhar e pela busca constante por aprovação digital, a reflexão de Schopenhauer sobre a solidão autêntica oferece uma contraproposta.

Ele sugere que talvez o caminho para a paz não seja acumular mais conexões. Mas aprofundar a relação consigo mesmo e transformar a solidão de um medo em uma fonte de força e clareza.

Essa ideia confronta a cultura moderna, que estigmatiza ficar sozinho como algo negativo por natureza. A reflexão de Schopenhauer propõe outra pergunta: e se o verdadeiro problema não fosse a ausência de pessoas. Mas a falta de capacidade de estar bem consigo mesmo quando elas não estão por perto?

A reflexão que o filósofo desenvolveu permanece tão pertinente hoje quanto era no século XIX, oferecendo um caminho alternativo para quem busca paz interior longe da validação constante.

Dica educacional

Educação japonesa: alguma regras ajudam crianças a se tornarem mais responsáveis e independentes

No Japão, é comum ver crianças ainda pequenas tomando conta sozinhas de suas coisas e rotinas

12/10/2026 11h00

Foto: Bor Jinson/Pexels

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No Japão, é comum ver crianças ainda pequenas tomando conta sozinhas de seus materiais escolares, ajudando na faxina das salas de aula e fazendo a pé percursos que, em outros países, dificilmente aconteceriam sem um adulto por perto. Essa autonomia não nasce de um único método, mas da combinação entre criação familiar, rotina escolar e organização do espaço urbano.

Quatro práticas se repetem nesse modelo e explicam boa parte dessa autonomia construída desde cedo. Elas incluem desde zelar pelos próprios objetos até ganhar espaço para solucionar pequenas questões por conta própria, num ritmo que acompanha o crescimento da criança.

Responsabilidade pelos próprios pertences

A mochila, os sapatos e os materiais usados ao longo do dia não ficam automaticamente sob o cuidado dos pais. Com o tempo, a criança passa a arrumar sozinha o que é seu, manter certa ordem nos itens que usa e notar quando algo deixou de estar no lugar.

Ainda há acompanhamento de um adulto, só que sem a pressa de intervir em tarefas que a própria criança já consegue dar conta. Repetir pequenas tarefas, dia após dia, transforma gestos simples em hábito de organização.

Limpeza como parte da rotina

Em diversas escolas japonesas, os próprios alunos limpam salas de aula e corredores em vez de depender só de funcionários. A lógica por trás disso é direta: quem usa um espaço também é responsável por mantê-lo em ordem.

Esse princípio pode ser levado para dentro de casa sem dificuldade. Colocar os brinquedos no lugar depois de brincar, levar sozinho o prato ou o copo usado até a pia, manter os materiais escolares organizados, dar uma mão para limpar a bagunça que fez e assumir pequenas tarefas de acordo com a idade são hábitos que se encaixam bem em qualquer família.

Servir o grupo ensina cooperação

Em parte das escolas do país, os próprios estudantes distribuem a merenda entre os colegas. A tarefa exige esperar a vez, seguir uma ordem e cuidar dos utensílios usados por todos.

Esse exercício une autonomia ao senso de cooperação. A criança percebe que a rotina do grupo só funciona quando cada um cumpre sua parte, por menor que ela seja.

Autonomia construída aos poucos

Trajetos sozinhos, pequenas decisões e tarefas com grau crescente de dificuldade formam a base da independência observada no Japão. O aprendizado avança por etapas: primeiro vem a supervisão, depois a repetição com menos ajuda, até a criança assumir responsabilidades fixas.

Pedir socorro quando algo sai do previsto também faz parte do aprendizado. A liberdade aumenta conforme a criança mostra que consegue lidar com ela, não de uma vez só.

O papel do ambiente nessa equação

Atribuir esse resultado apenas à educação dentro de casa seria simplificar demais a questão. Em muitas regiões japonesas, ruas pensadas para pedestres, presença comunitária forte e trânsito respeitado criam um ambiente que sustenta essa autonomia.

No Brasil, reproduzir esses hábitos sem ajustes pode não fazer sentido, já que trânsito, segurança e distância das escolas mudam bastante de uma cidade para outra. Ainda assim, dá para adaptar o essencial: cuidar dos próprios pertences, contribuir com tarefas simples em casa e ganhar liberdade aos poucos, de acordo com a idade e a confiança já demonstrada.

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