No deserto do Atacama, no norte do Chile, milhares de roupas descartadas se espalham por uma área estimada em 300 hectares, somando mais de 60 mil toneladas. A dimensão do depósito é tamanha que aparece em registros feitos pela plataforma de satélite SkyFi, o que torna possível enxergar o amontoado mesmo a partir do espaço.
Para a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se de uma emergência ambiental e social, consequência do modelo de consumo exagerado e da produção em massa que caracteriza a indústria da fast fashion. Esse acúmulo é sintoma de um problema muito maior: a quantidade de roupas que saem da Europa e não encontram compradores nem destino apropriado.
Como as roupas chegam ao deserto
Itens usados e estoques que nunca foram comercializados saem de países europeus rumo à América Latina, atraídos pela localização estratégica do norte chileno. A cidade de Alto Hospício, nas proximidades do porto de Iquique e de sua área de comércio livre de impostos, concentra esse fluxo: mais de mil empresas atuam na região sem pagar tributos sobre o que comercializam.
Parte do volume segue para mercados de segunda mão no Brasil, Argentina, Peru e Bolívia, enquanto o restante fica retido no deserto.
A ONG Ekō e o coletivo Desierto Vestido, que apuraram a situação no local, identificaram peças de grifes como Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi's, Tommy Hilfiger e Hugo Boss — boa parte delas com as etiquetas originais ainda presas, sinal de que sequer chegaram a ser vendidas.
O legado do poliéster no solo árido
A composição material da maioria dessas vestimentas agrava o problema: predomina o poliéster, um plástico derivado do petróleo que leva cerca de 200 anos para se decompor completamente. À medida que as fibras se degradam sob sol e vento do Atacama, liberam microplásticos que se infiltram no solo e suspendem no ar árido.
Este acúmulo reflete um padrão global: a Europa responde por 30% de todas as roupas descartadas exportadas mundialmente. Anualmente, o porto de Iquique recebe mais de 59 mil toneladas de têxteis não vendidos, devolvidos ou com defeitos.
A justiça chilena já ordenou a elaboração de um plano de remediação ambiental de dez anos, reconhecendo que o Estado negligenciou a gestão adequada desses resíduos.
O que os incêndios no Atacama significam para quem vive lá
A montanha de roupas não é apenas um problema ambiental abstrato — quando pega fogo, as fibras sintéticas liberam compostos poluentes que forçam moradores de Alto Hospício a ficar trancados em casa. O prefeito da cidade descreveu a sensação como se a terra tivesse sido "sacrificada" e transformada em "lixo do mundo". Um cofundador da organização chilena que monitora a situação relatou que o terreno após os incêndios parece "petróleo solidificado, mas na realidade são restos de roupas que derreteram". Isso mostra que o descarte europeu longe não significa esquecimento — as consequências respiratórias e ambientais recaem diretamente sobre comunidades latino-americanas.

