Nenhum carro de 300.000 euros garante felicidade duradoura, segundo o filósofo espanhol Rafael Narbona. Aos 63 anos, ele disse, em entrevista ao Cuerpomente, que posses de alto valor tendem a gerar tédio com o tempo e que o bem-estar verdadeiro nasce de outra fonte.
Para Narbona, amar e ser amado está na raiz da satisfação humana, muito mais do que qualquer objeto caro possa oferecer. O filósofo reconhece que cada pessoa tem seus gostos, mas alerta contra deixá-los se tornar o centro da existência. Essa visão coincide com a dos filósofos estoicos, que ressaltam a importância de não desenvolver apego excessivo aos objetos materiais.
Amar e ser amado
O primeiro pilar apontado pelo filósofo é criar laços próximos e dedicar tempo a quem se gosta. Segundo ele, essa conexão afetiva sustenta a felicidade de um modo que nenhuma aquisição material consegue replicar.
Segundo Narbona, pessoas que depositam seu bem-estar exclusivamente em posses materiais podem cair num ciclo de insatisfação contínua. Quando conseguem algo desejado, passam a buscar bens ainda mais caros — uma casa maior, um avião particular ou até um iate.
Ter um projeto de vida
O segundo elemento citado pelo espanhol é manter objetivos e atividades que deem propósito ao cotidiano. Sem esse horizonte, argumenta, a rotina perde sentido, independentemente de quanto alguém acumule em bens. A proposta não é abrir mão dos prazeres, mas impedir que eles dominem toda a existência.
Manter a consciência tranquila
O terceiro ponto levantado pelo filósofo é agir com solidariedade, ajudar outras pessoas e evitar causar mal a alguém. Essa tranquilidade interior completaria, junto aos vínculos afetivos e ao senso de propósito, a base da felicidade descrita por ele.
Narbona resume que o bem-estar não depende só de dinheiro, mas também dos afetos construídos e da forma como cada um se relaciona com quem está ao redor.
Como o estoicismo explica por que bens materiais não satisfazem
O estoicismo ajuda a explicar por que um carro de 300 mil euros deixa de gerar satisfação. A filosofia ensina que as emoções negativas — incluindo a insatisfação — não nascem das circunstâncias externas, mas dos julgamentos que fazemos sobre elas. Ao comprar um bem caro, a pessoa pensa "isso vai me fazer feliz".
Com o tempo, porém, esse julgamento se desgasta, e ela passa a concluir que aquele bem já não é mais suficiente, conforme explicado ao TN.
Os estoicos explicam que o ciclo de busca por posses cada vez mais caras ocorre porque a pessoa tenta controlar a felicidade por meio de algo que está fora de seu controle: os bens materiais.
Segundo essa visão, enquanto depender de objetos externos para se sentir bem, a pessoa estará sempre vulnerável ao tédio e à insatisfação, porque nenhum bem permanece novo ou impressionante para sempre.
A longa tradição filosófica por trás da crítica ao materialismo
A ideia de Narbona não é nova: faz parte de uma tradição que remonta à Grécia Antiga, especificamente ao estoicismo, fundado no século III a.C. Filósofos como Zenão de Cítio estruturaram uma filosofia inteira em torno da ideia de que a virtude, não a riqueza, é o bem supremo.
O estoicismo atravessou os séculos e influenciou pensadores romanos como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, que refinaram essas ideias e as aplicaram à vida cotidiana.
O estoicismo também desenvolveu conceitos específicos para lidar com o apego a bens: a "apatheia" (indiferença ao que não controlamos) e a "ataraxia" (serenidade diante das adversidades). Esses conceitos reconhecem que é humano desejar posses, mas ensinam que a paz interior só vem quando a pessoa deixa de fazer delas o centro da vida.
A reflexão de Narbona, portanto, retoma uma sabedoria testada por milênios.


