Reflexão

Samuel Johnson: "Na maioria dos homens, as dificuldades são filhas da preguiça"

A reputação de Johnson cresceu após a publicação de "Life of Samuel Johnson".

Samuel Johnson nasceu em Lichfield, no centro da Inglaterra, em 18 de setembro de 1709. Poeta, satirista, crítico e lexicógrafo de convicções conservadoras, dedicou parte importante de sua obra à visão de que a preguiça está na origem das dificuldades humanas. Essa ideia continua relevante três séculos depois.

A reputação de Johnson cresceu após a publicação de "Life of Samuel Johnson", escrita por James Boswell em 1791.

Em 1831, o crítico Thomas Babington Macaulay disse ao NEH que, embora não aprovasse o estilo literário nem os julgamentos políticos de Johnson, reconhecia que, graças a Boswell, Johnson seria conhecido pela posteridade de forma mais íntima do que outros homens costumam ser conhecidos por seus próprios contemporâneos.

O mito sobre o dicionário

Johnson é frequentemente descrito como o único criador de "A Dictionary of the English Language", obra que teria definido a língua inglesa de forma irreversível. Essa narrativa simplifica a realidade. Embora tenha dedicado anos de trabalho em tempo integral ao dicionário, publicado em 1755, Johnson não foi o primeiro lexicógrafo profissional a seguir esse caminho.

John Kersey já havia estabelecido a profissão de lexicógrafo com sua "A New English Dictionary", lançada em 1702. Além disso, Johnson não trabalhou sozinho: contou com meia dúzia de assistentes cuja influência na confecção do dicionário foi bem maior do que a história literária tradicional costuma reconhecer.

Esses colaboradores desafiam a narrativa do "Grande Autor" que domina a reputação de Johnson. A criação de um dicionário dessa envergadura foi uma empresa coletiva, não obra de um único gênio isolado.

Inovações construídas sobre bases anteriores

É frequente atribuir a Johnson a introdução de citações literárias para ilustrar o significado e o uso das palavras. Contudo, John Florio já havia empregado esse recurso em "A Worlde of Wordes", seu dicionário ítalo-inglês de 1598, o primeiro dicionário parcialmente em inglês a usar citações dessa forma. Muitos outros lexicógrafos vieram depois de Florio e antes de Johnson e também aplicaram o método.

Da mesma forma, Johnson é louvado por ter introduzido divisões de sentido nas entradas do dicionário — um avanço real em clareza e organização. Mas Benjamin Martin havia utilizado essa estrutura em "Lingua Britannica Reformata", publicado em 1749, possivelmente inspirado no "Plan of a Dictionary" que Johnson apresentou em 1747.

Naquele plano, Johnson propôs "ordenar os vários sentidos de cada palavra, exibindo primeiro seu significado natural e primitivo, seguido de seu significado consequente e, então, a significação mais remota ou metafórica". Independentemente de quem originou a ideia, ninguém discute hoje que se tratava de uma estratégia valiosa e bem-sucedida.

A marca genuína de Johnson

O que distingue Johnson é a agudeza de suas definições. Suas explicações refletem inteligência clara, recusa do sentimentalismo moralista e inclinação pela verdade incômoda. Essas qualidades marcam tanto seu trabalho lexicográfico quanto sua visão de mundo.

Essa abordagem realista se liga à ideia de que as maiores dificuldades humanas não vêm de forças externas, mas da própria inação e falta de vontade.

A celebração do tercentenário do nascimento de Johnson levou a uma reavaliação de sua verdadeira influência na história moderna do dicionário. Johnson não foi o criador solitário de uma obra perfeita, mas figura central de um processo evolutivo contínuo. Construiu sobre o trabalho de predecessores e abriu caminhos que sucessores seguiriam.

Sua importância reside menos em ter inventado tudo do que em ter aprimorado métodos existentes, dado-lhes escala, autoridade e a marca de sua inteligência singular.

Essa perspectiva não diminui seu legado. Pelo contrário, humaniza Johnson ao revelar um homem que trabalhou coletivamente, aprendeu com outros e refinou ideias em vez de reivindicar originalidade absoluta.

Johnson continua importante não porque foi o primeiro em cada inovação, mas porque elevou o padrão e a precisão do trabalho lexicográfico. Seu trabalho deixou impacto duradouro na forma como entendemos e registramos a linguagem.

Ciência

Fazer exercício físico é bom para o cérebro, mas novo estudo alerta para o contrário e aponta riscos

O achado oferece pistas sobre os problemas de sono associados ao excesso de treinamento.

03/11/2026 17h12

Foto: Victor Freitas/Pexels

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Um estudo da Universidade de São Paulo mostrou que o excesso de exercício altera a química cerebral e eleva os níveis de dopamina durante o repouso. O achado oferece pistas sobre os problemas de sono associados ao excesso de treinamento.

Camundongos submetidos a oito semanas de corrida progressivamente mais exigente em esteira apresentaram níveis mais altos de dopamina em uma região do cérebro envolvida na memória e no humor do que os animais sedentários.

A diferença surgiu durante o período de descanso habitual. Nesse momento, a dopamina, substância que ajuda a regular o estado de alerta e a motivação, pode dificultar o relaxamento quando permanece elevada.

O achado oferece uma possível explicação para relatos de problemas de sono e ansiedade entre atletas submetidos a excesso de treinamento, embora os pesquisadores não tenham medido diretamente esses sintomas.

Como o experimento foi estruturado

Os pesquisadores acostumaram os roedores à esteira durante cinco dias, com corridas de dez minutos por dia a seis metros por minuto. Na primeira semana, a duração aumentou para 15 minutos, a 60% da velocidade máxima de cada animal.

A partir da quinta semana, a inclinação da esteira foi ajustada para 14% de declive, o que exigia mais esforço muscular do que correr em terreno plano.

As sessões se tornaram cada vez mais longas, enquanto o tempo de recuperação diminuiu progressivamente. Na oitava semana, os animais corriam duas vezes por dia durante 75 minutos cada sessão, com apenas quatro horas de intervalo entre elas.

Testes de desempenho realizados no início, na quarta semana e ao final mostraram que o condicionamento físico melhorou até a metade do programa, mas esses ganhos foram perdidos ao término.

O que a dopamina revelou no repouso

Dois dias após o último teste de corrida, os cientistas coletaram amostras do hipocampo, região cerebral ligada à memória e ao humor e que responde ao exercício. Em quatro horários: às 18h, à meia-noite, às 6h e ao meio-dia.

Os camundongos submetidos a excesso de treinamento apresentaram níveis de dopamina significativamente mais altos no hipocampo ao meio-dia, período em que esses animais noturnos normalmente descansam, em comparação com os sedentários.

O grupo com excesso de treinamento também apresentou níveis mais altos de tirosina hidroxilase, enzima que auxilia na produção de dopamina. A serotonina, outro composto químico cerebral associado à fadiga causada pelo exercício, permaneceu em níveis semelhantes nos dois grupos, o que favoreceu a proporção de dopamina em relação a ela.

Um segundo experimento, com 20 roedores que fizeram uma única corrida no início da noite, também mostrou elevação imediata da dopamina. Os níveis da enzima responsável por sua síntese, porém, caíram logo depois. Os pesquisadores acreditam que essa combinação pode refletir um estado de fadiga em que a demanda por dopamina supera a capacidade biológica de produzi-la.

Eles não confirmaram essa explicação porque mediram apenas a quantidade da substância no tecido cerebral, não a rapidez com que o cérebro a produz.

O significado para o desempenho atlético

Alisson Luiz da Rocha, pesquisador que conduziu os experimentos como doutorando na Universidade de São Paulo. Afirmou ao Earth que o excesso de exercício afeta não apenas o músculo esquelético, mas também o funcionamento cerebral.

A combinação de níveis elevados de dopamina e redução da enzima produtora pode refletir um estado de fadiga em que a demanda por dopamina supera a capacidade biológica de produzi-la.

O padrão observado oferece uma possível explicação para a dificuldade para dormir e o aumento da ansiedade relatados por alguns atletas submetidos a excesso de treinamento. Esses problemas poderiam estar ligados a esse desequilíbrio químico cerebral persistente durante horas críticas de repouso.

Se a dopamina ajuda na motivação e no estado de alerta, por que níveis altos durante o repouso podem ser prejudiciais?

A dopamina é benéfica durante o exercício porque mantém o atleta motivado e alerta. O problema surge quando ela permanece elevada durante o repouso. O corpo precisa alternar entre os estados de atividade, durante o esforço, e de descanso, durante a recuperação.

No repouso, a dopamina deveria cair para permitir que o cérebro relaxe, a tensão muscular diminua e o sono chegue naturalmente. Se ela continua alta nas horas de descanso, o cérebro permanece em estado de vigília, o que dificulta o adormecimento e aumenta a ansiedade — o oposto do que um atleta precisa para se recuperar.

Ciência

Álcool pode estar ligado a uma vida mais longa, revela novo estudo

A associação, porém, não deve ser interpretada como incentivo ao consumo.

03/11/2026 17h11

Foto: Ketut Subiyanto/Pexels

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Estudos analisados por pesquisadores reunidos na Escola de Saúde Pública T. H, e chan de Harvard, nos Estados Unidos, associam o consumo diário de meia taça a uma taça de álcool a menor mortalidade por infarto e a uma vida mais longa.

A associação, porém, não deve ser interpretada como incentivo ao consumo. Os cientistas ressaltam que ela não comprova que a bebida prolongue a vida, não estabelece relação de causa e efeito nem indica proteção direta ao organismo.

O que os pesquisadores observaram

Timothy Rebbeck, diretor do Centro Zhu Family para Prevenção Global do Câncer de Harvard. Disse ao TN que o álcool faz parte da rotina das pessoas, do café da manhã às celebrações e tradições culturais.

Embora os estudos tenham associado o consumo a menos mortes por problemas cardíacos nesse grupo específico, o encontro em Harvard também discutiu os riscos crônicos do hábito, incluindo o câncer.

Eric Rimm, professor de Medicina e Epidemiologia da instituição, disse ao TN que algumas investigações associaram o consumo moderado a uma menor mortalidade por infarto.

Os riscos apontados pelos cientistas

Walter Willett, epidemiologista de Harvard, apontou uma relação entre a ingestão de álcool e o aumento do risco de determinados tipos de câncer, como o de mama. Mesmo um risco individual pequeno pode gerar impacto relevante quando analisado em escala de toda a população.

Idade, histórico familiar e condições de saúde preexistentes mudam a forma como o corpo de cada pessoa reage ao consumo.

Anna Grummon, diretora do Laboratório de Políticas Alimentares de Stanford, disse ao TN que o consumo de álcool também está associado à dependência. A transtornos ligados ao uso da bebida, a acidentes de trânsito e a episódios de violência, com consequências que atingem não só quem bebe, mas também quem está ao redor.

Atenção às bebidas do dia a dia

Os cientistas chamaram a atenção para escolhas simples da rotina, como trocar refrigerante por água. Segundo os pesquisadores, essa mudança ajuda a cortar o excesso de açúcar e reduz um dos fatores ligados à obesidade e ao diabetes.

No caso do álcool, a possível ligação entre o consumo moderado e menos mortes por infarto exige cautela e não deve ser interpretada como sugestão para começar a beber. Os especialistas ressaltam que os efeitos do álcool variam conforme fatores pessoais, como idade e histórico familiar de doenças.

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